a mais menos bela bipolar

por Nicollas Conti*

Chove chuva!
Chuva chove!
Ouça bem a minha morte!

Veja só
Que linda é
A flor sobre meu caixão.

Morta eu?
Viva estou!
Apodrecendo, carniça errante.

Sorriso belo
Riso sincero
Essa sou eu em paralelo

Noite se vai
E não me tira
O fato de ser podre, cega, surda e não sentir os vermes em mim.
Mas que linda luz do dia!

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

aquela casa naquele dia

por Nicollas Conti*

Na casa do morro havia uma porta
Que ninguém entrava
Que ninguém abria
Quem dera ser assim naquele dia.

Aos 12, eu nada queria
Além de quebrar o suspense
Que ela emitia.
Como bom perdedor de aposta
Para a porta eu seguia.

Já constatava desconforto nas entranhas
Ao subir o morro em minhas havaianas
Toda a criançada do bairro lá embaixo
Olhava-nos entrar, eu e Pablo.

O menino seguia ao meu lado
Tomado em pura curiosidade
Veio por isso, não por amizade
Estava rindo ao ver-me amedrontado.

Também não vim só pela aposta
Caroline me olhava lá embaixo
Seu olhar em mim era uma amostra
Que eu iria abrir aquela porta.

A passos lentos nós chegamos
Ouvidos na madeira
Não captaram ninguém gritando
Entramos para a morte certeira.

Uma casa abandonada.
Ou era isso que parecia.
Pablo disse “Viu Só?
Não tem que ter medo de fantasia”.

O vento bate, a porta se tranca.
Gritamos em busca de alguma esperança.
Um vulto surge,
Todo torto.
Vinha a nós, ele e o corvo.

O corvo grasna: Morte ou vida
Morte ouvida?
Pablo clama por vida
E, por ironia, o vulto tira-a para si.
De mim se aproxima; está encapuzado
O corvo grasna: Morte ou vida
E pela experiência assistida
Eu clamo pela morte.

“És um menino de má sorte!”
Grasnava o corvo; o encapuzado sorria
E assim, foram embora
Deixando-me só na casa vazia.
Acordo suado na minha cama
Enfim, estava apenas sonhando.
Só queria saber por que vivo esse sonho
Há mais de 158 anos.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

promessa cumprida

por Nicollas Conti*

Ah, meu velho amigo
Estivera sempre
Comigo.
Havia em toda manhã
Ao avistar-te
Mente mais sã.
Aquela segunda chance
Que só você nos dá
O alcance.
De você espero mais nada
Apenas que volte
Pós-madrugada.
Não que arfe com sua beleza nua
Mas não me venha com nuvens
Nem lua.
Pesar daqueles que não te enxergam
Ainda não viveram a vida
Que levam.
Pesar de mim que te quero
Enquanto me desfaz
Com esmero.
Peço apenas que morte
Seja como o seu
Brilho forte.
Apenas cumpra sua promessa
Deixe-me vê-lo pela manhã
Quando eu partir dessa.
(clarão)

“Ao velho, ao jovem
Que pela Terra se movem
O Sol surgiu.
Todo rico, todo pobre
Saberá que a promessa nobre
O Sol cumpriu.”

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

sobre o que se trata

por Nicollas Conti*

Prove tudo
Prove a todos
Que você é melhor que eles
(E que, no fundo,
Você não é ninguém)

Identifique a si mesmo
(No dinheiro)
Venda (a alma) por reconhecimento
O ego levará sua visão
(Para o caixão)
Fecharemos o buraco com cimento
(No fundo sempre foi um lugar vazio)

Esperamos que venha tenha
Dinheiro para sempre!
E quando não houver mais frente
Você olhe para trás, e perceba,
Que, no fundo,
Isso (nunca) importou.

(A sala vazia,
a casa fechada,
as faces tão frias
quanto a mobília empoeira.
Parece que não era sobre acúmulo, no fim das contas)

— Ele era um grande homem.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

esquecido

por Nicollas Conti*

Era em uma cama branca de hospital
Ele lembrava que era só isso que sabia
Era por causa do Alzheimer, o tal do mal
E pouco a pouco sua vida se esvaía

Sua mente estava branca como o branco ao redor
Seu coração estava brando como a falta do amor
Suas memórias — um fardo solto em algum canto
Suas lembranças — um nada escorrido em prantos

Ao ver-se no espelho, encarou sua alma
Ele era muito mais do que uma superfície enrugada
Pois todo humano nasce perdido no universo
E daquele espelho, ele só queria a si mesmo

Aos poucos, flashes vinham à sua mente
Um sorriso, uma música, uma noite inacabada
Uma voz “para todo o sempre”
Dita debaixo de uma noite estrelada

A porta abre — ele finge-se dormindo
Ela entra e beija sua testa
— Para todo o sempre, meu querido
A dona de sua memória — lá estava ela.

Com medo de estar sonhando, seus olhos estão fechados
Tem o coração pulsando, é de novo um jovem apaixonado
E nem se dá conta quando ela vai embora
Ele sonha os sonhos dos cegos de memória

Acorda em uma cama branca de hospital
lembrava que era só isso que sabia
“Onde está minha vida, afinal?”
Ele perguntou por isso todos os dias.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

humano apesar de tudo

por Nicollas Conti*

Desde que te conheci
Recebi flores, e algumas dores
Que eu nunca vi
Passaram a me conhecer

Nem de perto era tão lindo
Mas éramos limpos
Nem preto nem branco, você dizia
Éramos cinzas no campo

Precisei queimar os olhos no sol
Para ver tudo esclarecer
Você queria enxergar, eu queria saber
Onde suas flores se encaixavam

Quando não se vê, você vê
E eu a vi extasiada
Matando um rato a pauladas, como sonhos
Humana apesar de tudo

A noite subia, eu me dizia
Não há nada para esquecer
Me ensinou muito mais do que podia aprender
Eu era, em todo canto, você

Vi que as dores ensinam, as flores espetam
E quando me deixou não houve espanto
Nada era preto, nada era branco.
Tudo era muito cinza.

Isso foi há muito tempo
Nem sei se ainda me lembro
Se você chegou mesmo a nascer
Ou se muito foi um sonho
Que eu quis fazer acontecer

Sei que eu sentiria tudo de novo.
Minhas dores estão em um vaso
Minhas flores, em pleno voo
Afinal sou mais que um velho gago.
Sou mais que um velho louco.

Humano apesar de tudo.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

o apagador de humanos

por Nicollas Conti*

Vou lhe dizer, filho,
Quando nós deixamos de viver
É um caso triste, obscuro
Algo que você não vai querer
*
Não é quando nós perdemos um amigo
Não é quando nos sentimos sem abrigo
E vou lhe dizer, filho,
Não é quando estamos prestes a morrer.
Quero que você saiba que
Não é quando perdemos a vida
Que deixamos de viver.
*
Você pode perder um braço
Pode perder as duas pernas:
Segue-se com sua vivacidade
Mas no momento em que tiram sua
Humanidade
Viver não é mais pra você.
*
O que mata os humanos
E não os permite morrer
É olhar nos seus olhos
Diante da miséria, corrupção e desigualdade
E dizer
“Não há nada que você possa fazer.”.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.