cadeia gh

por David Plassa*

A barata
A barata no banheiro,
quer alguma coisa
Alguma coisa de barata
Segue o som que veio do ralo
Segue a mentira depois do amém
E toda discordância surda,
abundância imunda,
sobre a qual armamos um Rei

A barata
sussurra entre as patas
coisas simples de barata
Sussurra saliências
entre marcas de urina
fauna aracnídea
São todas Uma
Estou à parte, humano covarde
São todas Uma
esperando que eu durma

A barata em paz de barata
Eu, complicado e ateu:
esmago a barata
no reflexo arrogante
da raça mais ingrata

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, finge escrever um romance desde 2015 e mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve às quintas.

nenhuma razão por quê

por David Plassa*

Ontem foi um lindo dia
Quando pensei em morrer
Já era hoje

E agora madrugada
Onde colocar-me no mundo
De ruas vazias
Vigílias surdas
Cigarros escassos?

Do amor
Que nunca me foi amor
A ponto de encher-me o peito
As horas, os guardanapos
O pensamento

Das amizades
Que de mim nunca entenderam
As ausências, os silêncios
O desespero

Da família
À espera do retorno
Carro do ano, emprego fixo
Almoço de domingo

Da política
De poucos homens brancos
Dispostos a comprar ou vender
Meus conformismos

Da natureza
Pronta para esmagar
Os famintos
Os economicamente inviáveis
Novas presas da cadeia alimentar

Hoje é um lindo dia
Penso em morrer nesta poesia

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, finge escrever um romance desde 2015 e mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve às quintas.

ver pra quê?

por David Plassa*

Às vezes vejo pessoas sem braços
Entre abraços sob espaços irredutíveis

Às vezes vejo com olhos programados,
Finais felizes,
Deslizes perdoados

Na maioria dos casos
Sinto o retorno do herói
Que pouco fez para evitar a ausência presente
Com a cidade controlada por psicotrópicos
Razões editadas
O aroma emético da diferença como princípio
Uma distância traçada a punho próprio

Vejo o câncer o terrorismo o novo destino turístico
O pacote ideal de dados 3G
O happy hour perfeito da vizinha da prima da minha ex
A cura do HIV

Vejo a equidade sumir igualmente digitais lavadas com detergente na beira de uma pia oito horas por dia
A superpopulação
O acelerador de hádrons
Um novo planeta habitável

Vejo até esquecer
Pra lembrar apenas de obedecer

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, finge escrever um romance desde 2015 e mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve às quintas.

the man with an advice

por David Plassa*

My first memory of guilty
it was in a Christmas Eve
At the end of the event
while people were leaving

I was six years old
and I remember what my grampa told me:
— Why are you crying?
People leave, people arrive
just a mess you need to organize
in your little heart

Like waves on the ocean
I was busy with emotions
I didn’t have how to explain
that was the last time
I’d never seen my grampa again

Like waves on the ocean
The most important man
I’ve ever known
He wasn’t abble to give security to his soul
He got drunk all his life
like a soldier running against a knife

Even so, he’s still my hero
looking at me in the morning mirror
The great man
surviving in a sketchy poem

Like waves on the ocean
surrounding by words never spoken
The man with an advice
for my whole life

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, finge escrever um romance desde 2015 e mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve às quintas.

profecia subversiva

por David Plassa

Em algum lugar alguém está sob tortura
Sem entender como ainda suportar
Caso saia, não consegue projetar-se no mundo pós-dor física:
como olhar um semelhante
sabendo que ele arrancar-lhe-ia todas as unhas,
os quatro caninos,
a localização da família?

Em algum lugar alguém está sob tortura
Porque vive-se uma guerra e uma guerra precisa de um vencedor
Uma ordem precisa ser reestabelecida
Até lá não importa que haja fezes no barril onde afogam-lhe seguidas vezes
Um médico está presente para medir-lhe os sinais vitais
Hora de parar

A cela é pequena baixa toca de ratos coisas geladas paredes geladas chão gelado vidro quebrado
O cheiro é de morte ou algo próximo
O pior: vem dele mesmo

Não vai dormir
O sono é inimigo da verdade
O sono é vulnerável ao som ensurdecedor que lhe acelera o coração vacilante:
o som da dor
dos ossos(quebrados)
dos músculos(rompidos)
das cartilagens(dilaceradas)
da consciência(reduzida)
Os olhos não fecham,
semicerram

Em algum lugar alguém volta a ser torturado
Por ser fazer pensar querer diferente
Desde Osíris é assim
Por que mudar,
se sentimo-nos tão fortes em memória do sangue vertido?
Salvos em nossos quartos,
privilegiados
Sob o mito do bom cidadão

Em algum lugar você pode ser o próximo a ter que falar
Cuidado com o que deseja

psicodelias em esculturas de mármore

por David Plassa

A Terra mata a fome do homem
Você só quer se enxergar
Na rua no campo nas flores
Na pizza que nega aos mendigos
A fé não fode nem some
Ela trabalha no que você desejar
Um banho um relógio aquático
Uma corrente pra você se enforcar

Reuniões sempre aos domingos
Pra evitar o seu déjà vu
Viajante do tempo falido
A pizza e você é o mendigo
Agora não sabe não dorme
Pra tirar férias num circo

A Terra imita a fome do homem
No espelho você é o melhor
Sempre pensando gigante
— Rei Macaco desce do trono
A polícia está a esperar
A pizza cortada pra oito
Nosso sonho é morar num bar

Poetas fazem tudo por haxixe
Retratam um mundo perdido
Do viajante do tempo falido
Troco meu celular por pizza,
Complicado mexer nele agora
Tão difícil dizer quem não sou
Nesse mundo vendido fodido
Aceitando a lenha da Lei
Acendendo minha descida ao inferno

por ventura

por David Plassa

tantas estradas que te levam a lugar nenhum
porque você sempre retorna para onde nasceu
seja à pureza do inferno
ou à sedução dxs virgens

escutar as recomendações
nunca será a última carta do castelo
vulnerável a qualquer brisa
ou pedregulho
tão assimilado às entranhas
que lhe custa calar
mas, você masca
por madrugadas envergonhadas

não fugirá da tua história
seja para o mel
ou para o veneno
não será o redentor
mas será humano
demasiadamente mundano