prolapso rede-neural

por David Plassa*

Às vezes arte é aquilo que só você sabe
E te censura
Pelo puro delírio das formas

Às vezes arte é aquilo que te cala
E você sem saber qual filtro usar
Na tentativa de não ficar sozinho
diante do absurdo silêncio
Quatro paredes, tic
em tua direção, tac
Você nem imagina quais são os termos de uso

São três e 29 da manhã
Desde o primeiro segundo do novo dia
53 fazendeiros indianos suicidaram-se por não conseguir dar o que comer para os filhos
São sete

Às vezes arte é acreditar que você sabe aonde vai
Porque sem um sentido geral
Qualquer objetivo mesquinho é um movimento
E as ruas te aquecem
Como um gole de conhaque desnecessário

Mas só às vezes

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

o colapso

por David Plassa*

estou há dias dele
ceifando possibilidades
rasurando alternativas

no gerúndio mesmo
[fumando]

cego de perspectivas
acorrentado ao imperfeito
[acorrentava-me]

enchendo copos
em silêncio auto-infligido

esperando
a promessa que eu mesmo jurei
e não cumpri

vivendo o clichê da frustração
“poeta frustrado escreve poesia sobre obra poética que não consegue terminar”

sofrendo sem me sujar
sangrar
envolver
aprender
sofrer

há dias

esperando
a falta
para livrar-me do privilégio da culpa

há dias
ciente de que a liberdade está em formular a pergunta
e não nas escolhas
[sim ou não]

deixando-me ruir
para não sufocar
há dias
há dias
há dias

da diminuição súbita e considerável de todas as forças nervosas
[e a louça para lavar]

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

halitose 30

por David Plassa*

Se abrisse mão
De tão pouco tudo
Que lhe convém
Se agarrasse
A ferocidade do inseguro
Estaria vestido como agora
O mesmo blazer
O mesmo tênis
As mesmas reivindicações
Sobre um mundo estranho com pessoas cruéis

Se os dedos não encruassem
Diante da fome e do desconforto
Diante da morte e do abandono
Se os dedos sentissem
A exata insignificância dos medos
Estaria vestido como agora
As mesmas manchas
Os mesmos dramas
Abotoados à camisa

Se soubesse
Que apaga cigarros
Ao invés de acendê-los
Vestiria-se com mais conforto
Um terno torto
Para esconder-lhe o farrapo de carne e sangue
E sangue

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

impulsionar

por David Plassa*

Os cachorros latem
A minha desigualdade
Os portões tremem
Meu deságue em falsidade
O herói finge
Ter super-poder
A estrela que não brilha
Nem ao escurecer
O privilégio dado
Depois de confiscar
Sua mente frágil
Acredita em bem-estar

Ode à mentira
Porque ela nos faz vivos
Como títulos no lugar errado

Os velhos se esquivam de mim
Dou graças

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

avião de papel

por David Plassa*

Depois de tudo o que fiz
Eu posso ser feliz
E isso, não deveria ser uma pergunta?
Advertem-me os demônios
Costurados à pele
Pelos que mais o bem me querem

Depois de tanto atirar-me
Das mais belas paisagens
Sob o desalinho da rebeldia
Depois de tudo
Ainda posso ser feliz
Insisto e não desisto
Pois são as cicatrizes
Que convertem fracassos
Na força imanente do passado

Depois da noite insone
A luz vem para que eu escute
O azul calórico da respiração terrena
Tão minha, quanto ancestral
Tão indiferente, quanto consciente

Para dizer-me:
Você pode ser feliz
Mesmo ao teu lado
Confie-se

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

 

 

sobre possessões ou o ser que me escapa

por David Plassa*

no final do corredor
uma voz vai me encontrar
contra a minha vontade
apesar disso,
não tenho o direito de ficar parado

a voz me espera
enquanto distraio meus passos
para que não sintam
a indesejável solidão
de uma dor não compartilhável

a voz não reage ao meu choro
como voz, apenas desfila pelo ar
impermeável
inexplicável
voz que habita meu ser
e todo paralelo alucinante

não está nos ouvidos
pois, quando tapados
sinto os desafios lançados
cravando-se em cada centímetro de pele

a voz me embala, convulsivo
como se apenas ela fosse capaz de dizer:
— pílulas sempre serão rotas alternativas
para o final deste corredor

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

amor impróprio

por David Plassa*

viver à margem
é não encontrar-se
em mais ninguém

discar um número
desligar em seguida
pedir um soco
recebê-lo de si mesmo

a obsessão pelo vazio reparador

aceitar
termos e condições de uso
vigilar
sobre travesseiro de poliuretano antiácaro
manter
inibidores seletivos da recaptação de serotonina

e ainda assim constatar
os descalços
não frequentam hamburguerias

agora sabe

[sabes,
que teus privilégios não evitam a cicatriz
da dura verdade
de que nenhum deus gosta de ti

e verás a tua responsabilidade:
— sê desviante diante de uma enferma sociedade]

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, finge escrever um romance desde 2015 e mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve às quintas.