poesia: em caso de incêndio

por David Plassa*

Às sete e quarenta da noite
em cima da ponte
pediu-lhes o isqueiro
camuflando o desespero

Às sete e quarenta da noite
comentou sobre o tempo
muito sol, pouco vento
ou algo muito
e pouco tudo

Pareciam não escutar
o que ele não sabia dizer

Então,
às sete e quarenta da noite
ateou fogo
sobre o próprio corpo
e três minutos depois
estava morto

Pouco antes da chuva
um tanto fora da curva

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

poesia: alva plutônica

(ou mais um dia sem recomeço)

por David Plassa*

Tão logo amanheceu
até o diabo lhe esqueceu
No cruzamento da avenida vazia
com a rua da insignificância

Educado pela culpa,
voltaria para casa de alguma maneira
Voltaria para casa sob o fardo
de tudo que lhe haviam dado

Tão logo amanheceu
até o diabo saiu de lado
da consciência que lhe trazia
o castigo da boêmia

A cidade acordava,
o metrô já funcionava
Sob a inércia que lhe acolhia
em passos pesados de orgia

Torcia pela chuva,
por um céu acinzentado,
por uma leve brisa,
vento, ventania, tormenta
que dali o levaria

Queria do asfalto, a terra
Do concreto, a erva daninha
Queria do mundo, o fim
Como o último passo de um tango celestial

Podia sentir:
pessoas aos poucos
aglomerando-se ao lado de um louco
A multidão aos gritos,
erguendo mãos
para cada um de seus cristos

No cruzamento da avenida
outrora vazia
com a rua da insignificância

Reunia em si todo esse sonho
Que o mundo explodisse sem resposta
Essa era a sua maior aposta

Que o mundo sumisse
sem que ninguém visse
Todos juntos a ele, parados
abandonados até pelo diabo

No cruzamento da avenida vazia
Com a rua agora
repleta de significado

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.