crônica: aqueles dois textos

por Ana de Oliveira*

Eu guardo aqueles textos que você escreveu sobre ele, noutras palavras, aqueles desabafos íntimos demais para serem ouvidos, mas desesperados o suficiente para serem escritos — e de repente, mostrados a mim. Não é propriamente masoquismo, ou como se eu me imaginasse na pele dele. Esses textos apenas me servem como lembretes, para que talvez um dia eu não seja mais apaixonado por você.

Sinceramente, não sei se vai funcionar. Eu não sei como é que as pessoas “desapaixonam-se” pelas outras, o que me leva a perceber o quanto estou perdido. Não que eu fosse decidido antes disso tudo. Apenas perdi-me um pouco mais, por achar que você, nós, o pseudo-nós, traria-me luz.

Eu sei que isso vai contra ao que disse sobre você corresponder aos meus sentimentos. Eu disse que não precisava, e ainda mantenho a minha palavra. Não precisa. Porém, você pareceu querer me corresponder, tentando cuidar de mim e do que eu sinto, mesmo sequer sabendo o que você mesma sente.

Não é culpa sua, jamais seria. Mas, com todo o respeito e carinho que você demonstrou, o meu coração ficou confuso. O meu coração idiota queria qualquer migalha de afeto, e não soube ser nobre como a minha razão foi, a parte minha que nunca quis, e ainda não quer, nada em troca.

Então quase sempre eu leio aqueles dois textos, porque parece que estou lendo o seu coração. Tento ler com a sua voz, imaginar as suas feições e tudo que você disse que aconteceu entre vocês dois. Tento encontrar a verdade em tudo, até mais desesperado do que você, para que em nenhum momento eu pense que aquelas palavras, tão afetuosas e não dirigidas a mim, são sintomas de loucura, ou palavras de uma história que só existe em livros. Eu preciso entender que todas elas são verdade. E ainda que tudo fosse mentira, loucura, ou ficção, não me significaria esperança, pois ainda é com ele que você sonha.

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*Ana de Oliveira é amante da língua francesa e quase todas (não se pode dizer todas) formas de arte e comunicação. Tem a escrita como parceira desde os oito anos, mas foi aos 14 que começou a compartilhar suas ideias. Colocou na cabeça de que o céu é, realmente, o limite. Mas só porque tem medo de altura. Um dia, ela vencerá suas limitações, ou não se chamará mais Ana de Oliveira. Ana escreve quinzenalmente aos sábados.