[…]

por Izabela Souza*

Eu queria dizer todas as coisas que sinto.
Queria compartilhá-las, as boas e as ruins.
As que me tornam a pessoa que sou e as que podem mudar quem eu sou.

Eu queria dizer todos os meus pensamentos.
Num combo, um combo de “oi, esta sou eu”.
Ainda que meus pensamentos não sejam sempre o que eu espero de mim.

Mas eu não posso dizer nada.
Nem o que sinto, nem o que penso.
Porque nada define tudo o que tem se passado dentro de mim.

É uma intensidade de sentimentos, um volume incrível de emoções.
Esgotou-se a capacidade do sentir.
E, agora, eu te daria tudo que eu sou, se eu fosse alguma coisa.

E eu escrevi isso porque não posso dizer o que não sinto.

Não sinto.
Sinto nada e muito.

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*Izabela Souza tem formação em Letras e Jornalismo, mas nem liga pra isso. O negócio mesmo é comer “paçoquita”, causar e ser uma agente de transformações sociais por aí. Não há nada que não possamos fazer, certo? Iza escreve quinzenalmente às quartas.

 

[…]

por Diogo Nogue*

São folhas, o vento e o cais.
São folhas, são ventos, são águas.
São mastros, o frio e o cálido.
São pétalas, escárnios e fantasias.
São lágrimas que os olhos assediam.

São belos sonhos irreais,
São belos… Distantes temporais.
São carne e sangue divididos.
São os que não podem ser unidos.

São bocas, beijos e abraços,
São desejos que não serão realizados
São rosas que morrem no armário
São poemas e amores rejeitados.

São folhas que ao vento são levadas
Para as margens das águas salgadas
E nos mastros de um frio navio,
Se leva um cálido coração partido.

São pétalas, são lágrimas…
São todas as coisas que foram deixadas.
Fantasias de dias inesquecíveis
São belos sonhos… Sonhos que não podem ser vividos.

São rosas, beijos e temporais,
São tudo que amei e me distanciam do cais
São tudo que não tenho,
E tudo que eu finjo não querer mais.

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*Diogo Nogue é artista visual, ilustrador e amante da literatura. Nascido em um dia 13 de sorte no ano de 1988. Decidiu que o sentido da vida seria criar arte e literatura e, quem sabe, fazer do meu tempo aqui na terra algo bom, belo e verdadeiro. Segue nessa luta todo dia! Diogo publica toda primeira quarta do mês.

ontem você pediu que eu escrevesse algo sobre a noite

por Gabriel Fogal*

Nossas cabeças e corpos
De bar em bar
Entre trovoadas
Dançávamos despreocupados
E a noite nos engolia
Garganta abaixo com
O puro malte de pior qualidade
Queríamos preencher algumas
Páginas com o sangue de nossas veias
Já embriagados
Resolvemos guardar um pouco de
Nós mesmo para o momento

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*Gabriel Fogal não sabe bem o que escrever aqui. Fez xixi na cama até o dia 17 de maio de 1997. Tenta ser escritor quando toma açaí ou cerveja e estuda psicologia de madrugada. Gostaria de viajar a América Latina de fusca e já foi pirata. Fogal escreve quinzenalmente às sextas.

prolapso rede-neural

por David Plassa*

Às vezes arte é aquilo que só você sabe
E te censura
Pelo puro delírio das formas

Às vezes arte é aquilo que te cala
E você sem saber qual filtro usar
Na tentativa de não ficar sozinho
diante do absurdo silêncio
Quatro paredes, tic
em tua direção, tac
Você nem imagina quais são os termos de uso

São três e 29 da manhã
Desde o primeiro segundo do novo dia
53 fazendeiros indianos suicidaram-se por não conseguir dar o que comer para os filhos
São sete

Às vezes arte é acreditar que você sabe aonde vai
Porque sem um sentido geral
Qualquer objetivo mesquinho é um movimento
E as ruas te aquecem
Como um gole de conhaque desnecessário

Mas só às vezes

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

deus ama, o homem mata

por Davis Plassa*

X-Men
Ano de criação: 1963
Criadores: Stan Lee (escritor) e o “Rei” Jack Kirby (desenhista)
Editora: Marvel
Nome da HQ: Deus Ama, o Homem Mata (1983)
Escritor e desenhista: Chris Claremont e Brent Anderson

A editora americana Marvel, minha favorita, sempre foi “engajada socialmente”. Desde que Stan Lee revolucionou os quadrinhos na década de 1960, com a criação de heróis e grupos que todos amam até os dias de hoje, sempre foram abordados temas considerados pesados, tabus, etc.

Em janeiro de 1983, na onda de criação de Graphic Novels, o escritor Chris Claremont, considerado o melhor escritor de X-Men por grande parte dos leitores, escreveu o sucesso “Deus Ama, o Homem Mata”.

A HQ conta a história de William Stryker, um reverendo televangelista em guerra contra os mutantes. Logo no início da HQ, duas crianças consideradas “mutunas” são mortas por um grupo anti-mutante chamado “Purificadores”. No decorrer da história descobrimos que esse grupo reponde ao reverendo Stryker, que por sua vez utiliza da imagem pública, da palavra de Deus e da bíblia para justificar a morte da raça impura que são os mutantes.

No final da HQ temos uma discussão entre os X-Men e o reverendo pela TV, onde cada lado demonstra um lado da moeda em perguntas como “por que sua fé vale mais do que a minha? ” e “o que supostamente somos é mais importante do que realmente somos?”.

Por tratar-se de uma HQ, talvez não seja tão levado a sério o assunto, mas o que o escritor tenta passar é a ideia que Stan Lee construiu já na década de 1960. Simplesmente porque somos diferentes um do outro, seja você gay, negro, judeu, etc., isso não significa que alguém é melhor do que o outro e nem diz quem você realmente é.

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Davis Plassa, 21 anos, futuro engenheiro, paulistano. Amante de Kung Fu, quadrinhos e futebol. Sonha em mudar o mundo.

às baratas

por Nicollas Conti*

Lá em casa há baratas
Que eu não consigo esmagar
Elas estão por toda casa

Elas andam pela parede
E eu não consigo ouvir
O que há de melhor em mim

Parece que tampam meus ouvidos
Cheias de seus ruídos
Eu olho, e não há como escapar
Elas estão no meu espírito

É aquela sensação de novo
O corpo começando a formigar
Talvez seja eu o estorvo
Que está deixando-as entrar

Elas sobem a epiderme
(Por fora e por dentro)
E continuam a gritar
VENHA CONOSCO AO RELENTO

O nojo de me identificar
Com hábitos de barata
Eu sei que não posso expulsar
Elas todas da minha casa

O esgoto inalei
E com alívio, a podridão
Não precisei mais esconder
Invadiram
do sotão ao porão
a casa do meu ser.

Hoje em dia eu já sei
Aqui em casa há baratas
Que eu não irei esmagar
Eu
Sou
Uma
Delas.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

32 de outubro

por Gabriel Fogal*

4h da manhã e você
Está dormindo
Eu estou chorando
O cigarro queimando
A 400°C
Logo vou me refugiar
Em meus mirantes
Sei bem, essa noite
Confiei ao copo
O esquecimento
Por mais que eu tente
Não consigo deixar de lado
A dor que eu sinto
É a falta de pecados esquecidos
Então por favor
Acorde e
Me invada com teus olhares

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*Gabriel Fogal não sabe bem o que escrever aqui. Fez xixi na cama até o dia 17 de maio de 1997. Tenta ser escritor quando toma açaí ou cerveja e estuda psicologia de madrugada. Gostaria de viajar a América Latina de fusca e já foi pirata. Fogal escreve quinzenalmente às sextas.