às baratas

por Nicollas Conti*

Lá em casa há baratas
Que eu não consigo esmagar
Elas estão por toda casa

Elas andam pela parede
E eu não consigo ouvir
O que há de melhor em mim

Parece que tampam meus ouvidos
Cheias de seus ruídos
Eu olho, e não há como escapar
Elas estão no meu espírito

É aquela sensação de novo
O corpo começando a formigar
Talvez seja eu o estorvo
Que está deixando-as entrar

Elas sobem a epiderme
(Por fora e por dentro)
E continuam a gritar
VENHA CONOSCO AO RELENTO

O nojo de me identificar
Com hábitos de barata
Eu sei que não posso expulsar
Elas todas da minha casa

O esgoto inalei
E com alívio, a podridão
Não precisei mais esconder
Invadiram
do sotão ao porão
a casa do meu ser.

Hoje em dia eu já sei
Aqui em casa há baratas
Que eu não irei esmagar
Eu
Sou
Uma
Delas.

_____

*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

32 de outubro

por Gabriel Fogal*

4h da manhã e você
Está dormindo
Eu estou chorando
O cigarro queimando
A 400°C
Logo vou me refugiar
Em meus mirantes
Sei bem, essa noite
Confiei ao copo
O esquecimento
Por mais que eu tente
Não consigo deixar de lado
A dor que eu sinto
É a falta de pecados esquecidos
Então por favor
Acorde e
Me invada com teus olhares

_____

*Gabriel Fogal não sabe bem o que escrever aqui. Fez xixi na cama até o dia 17 de maio de 1997. Tenta ser escritor quando toma açaí ou cerveja e estuda psicologia de madrugada. Gostaria de viajar a América Latina de fusca e já foi pirata. Fogal escreve quinzenalmente às sextas.

o colapso

por David Plassa*

estou há dias dele
ceifando possibilidades
rasurando alternativas

no gerúndio mesmo
[fumando]

cego de perspectivas
acorrentado ao imperfeito
[acorrentava-me]

enchendo copos
em silêncio auto-infligido

esperando
a promessa que eu mesmo jurei
e não cumpri

vivendo o clichê da frustração
“poeta frustrado escreve poesia sobre obra poética que não consegue terminar”

sofrendo sem me sujar
sangrar
envolver
aprender
sofrer

há dias

esperando
a falta
para livrar-me do privilégio da culpa

há dias
ciente de que a liberdade está em formular a pergunta
e não nas escolhas
[sim ou não]

deixando-me ruir
para não sufocar
há dias
há dias
há dias

da diminuição súbita e considerável de todas as forças nervosas
[e a louça para lavar]

_____

*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

caus

por Elle*

Minha bagunça interna
Transcendeu
Tornou-se externa
Enlouqueceu

A mesa lotada de papel
Boletos, folhetos
A mente lotada de confusão
Momentos, livretos

A abolida escravidão
Se torna recorrente
Aprisionada por pensamentos
E travada com correntes

Correntes essas imaginárias
Contraditórias e ilusórias
Onde a mente corre livre
Até sentir o peso da bola de cimento

Na busca dos cifrões
Vestimos voluntários
Aqueles grilhões
E nos tornamos solitários

A guerra do operário
Com o horário
Com o salário
Querendo viver tudo ao contrário

O que se tem são prisões
de alma
Onde o carcereiro
é o dinheiro (ou a falta)

_____

A vida chegou sem massagem.
Tudo que *Elle quer é embarcar em mais uma viagem.
Da cabeça desgraçada tenta tirar seu rumo.
Tem larica de arte.
Elle escreve quinzenalmente às quartas.

do princípio ao fim

por Marcia Dantas*

No princípio foi a amizade,
a confidência,
o gostar.

Duas pessoas que se encontravam,
trocando solidão por companhia.
Prometendo nunca partir.

Mas as palavras foram esquecidas,
perdendo-se no vento.
Viraram apenas letras sem sentido,
pedidos não atendidos.

Corações perdidos,
lágrimas que molharam o chão.

Não havia como continuar.
Como persistir na caminhada.
Eram muitas feridas.

A saudade fica.
Preenche a ausência.

É hora do adeus,
do fim.

_____

*Marcia Dantas se orgulha de ser professora de História e escritora, duas áreas que a completam, realizam, desafiam e a fazem militar constantemente. Paulista de coração, não se vê morando em outro lugar, embora precise de um férias da metrópole no momento. Lançou há pouco o seu primeiro livro, Reescrevendo Sonhos, além de estar em vários outros projetos literários. Marcia escreve quinzenalmente aos sábados.

causa mortis

por David Plassa*

Aqui está o meu único show possível.**

Ninguém se importa com quem fala sozinho, ainda que uma frase ou outra sirva de zumbido ou mau exemplo. Você está confortável e é tudo o que precisa. Um toque de despertador e cada andar esvaziando-se de mais forças produtivas. É preciso entrar na dança também, mesmo descalço ou com a meia furada (pares trocados).

Porque agora, você consegue viver mais de 20 anos comparado ã média de 200 anos atrás (carece de fontes confiáveis). Nunca fomos tão avançados, não é mesmo? Nunca tivemos tanto tempo para deslizar o dedo por telas que valem muito menos que a nossa capacidade de enxergar. Se é que um dia a tivemos esse dom — duvido.

Porque sempre odiamos alguma coisa que em maior ou menor proporção habita dentro de cada semelhante. Uma pulsação ou vontade disforme, uma energia que se distribui entre cada individuo e nunca aumenta ou diminui, apenas se conserva. É o nosso quinhão ofertado por forças universais imensuráveis para nos equilibrarmos. Veja bem: equilíbrio, e não satisfação.

E corremos atrás um dos outros, atrás de justificativas que nos mostrem que alguma coisa nessa merda vale a pena.

Já imaginou morrer agora e se dar conta de que foi apenas isso?

Você foi um corpo transportado de estação em estação para abastecer-se de alguma unidade mercadológica válida a fim de se desfazer aqui e ali, principalmente em frente a qualquer lugar em que você possa escrever há-há-há-há sem sentir absolutamente nada.

Talvez é isso que eu tente falar, mas por aqui será absorvido pela sucata algorítmica-não rentável. Para ser apenas o blá-blá-blá de um ser alucinado-ordinário e compulsivo.

** O paciente ainda não apresenta evolução diante do quadro de desequilíbrio emocional autodestrutivo-crepuscular dimensionado pelo diagnóstico imago-sensorial.

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

[…]

por Izabela Souza*

Não mantenha pessoas inocentemente nocivas na sua vida.
Não mantenha pessoas inocentemente nocivas na sua vida.
Não mantenha pessoas inocentemente nocivas na sua vida.
Não mantenha pessoas inocentemente nocivas na sua vida.
Não mantenha pessoas inocentemente nocivas na sua vida.

Porque, por serem inocentes, elas não sabem como parar.

Aprenda a dizer não para se manter sã.

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*Izabela Souza tem formação em Letras e Jornalismo, mas nem liga pra isso. O negócio mesmo é comer “paçoquita”, causar e ser uma agente de transformações sociais por aí. Não há nada que não possamos fazer, certo? Iza escreve quinzenalmente às quartas.