sobre o que se trata

por Nicollas Conti*

Prove tudo
Prove a todos
Que você é melhor que eles
(E que, no fundo,
Você não é ninguém)

Identifique a si mesmo
(No dinheiro)
Venda (a alma) por reconhecimento
O ego levará sua visão
(Para o caixão)
Fecharemos o buraco com cimento
(No fundo sempre foi um lugar vazio)

Esperamos que venha tenha
Dinheiro para sempre!
E quando não houver mais frente
Você olhe para trás, e perceba,
Que, no fundo,
Isso (nunca) importou.

(A sala vazia,
a casa fechada,
as faces tão frias
quanto a mobília empoeira.
Parece que não era sobre acúmulo, no fim das contas)

— Ele era um grande homem.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

mais uma cicatriz

por Marcia Dantas*

O coração humano é o órgão mais vulnerável do ser humano. Ele sente todos os impactos antes de qualquer parte do corpo, como se fosse um escudo tentando proteger todo o resto. Por isso ele está sempre tão machucado.

Quando coloco minha mão ao peito, vejo que há a necessidade de evitar que ele se fira mais uma vez. É quase um ato instintivo, um modo de protegê-lo, mesmo que tal gesto não seja assim tão efetivo. O dano ocorre, independente do meu controle.

Você sabia de tudo isso. Lembra de como fiquei quando contei sobre todas as cicatrizes que carregava comigo? Compartilhávamos algumas, resultado de sofrimentos semelhantes. A gente tinha histórias que andaram por caminhos parecidos. Eu confiava que você pudesse entender a natureza da minha dor.

O que aconteceu para que isso se perdesse? Por qual motivo você achou que poderia me fazer sofrer?

Talvez você não saiba como doeu. Posso ver que você continuou seu caminho, sem olhar para trás. Mesmo assim não consigo ignorar a ferida que ficou e muito menos o peso da ausência quando você ignorou. Eu pedi que olhasse para mim, que tentasse entender o que estava fazendo comigo. Mas já fazia algum tempo que seus caminhos tinham convergido para um ponto que era separado do meu. Você escolheu permanecer assim, ainda que eu ficasse para trás.

Eu me iludi achando que com você seria diferente.

Tenho uma mão bem aqui, perto do lugar onde fica o meu coração. Ele dói e, mesmo quando pressiono a pele, não consigo evitar sentir. Ele está sensível, dolorido e isso ainda vai demorar para passar.

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*Marcia Dantas se orgulha de ser professora de História e escritora, duas áreas que a completam, realizam, desafiam e a fazem militar constantemente. Paulista de coração, não se vê morando em outro lugar, embora precise de um férias da metrópole no momento. Lançou há pouco o seu primeiro livro, Reescrevendo Sonhos, além de estar em vários outros projetos literários. Marcia escreve quinzenalmente aos sábados.

[…]

por Elle*

Vamos destruir o asfalto
E deixar dominar o mato
Vamos desconstruir as favelas
E atirar porcos nas celas

Os felas que governam meu país
Chegam apontando o dedo
Distribuindo uma par de medos
Enquanto pegam o tesouro nacional
E depositam em algum paraíso fiscal

Arrancando de muitos
Para distribuir entre poucos
Famoso, elegante e de terno
Apresento o Robin Hood moderno

Engomado e engravatado
Mais parece o diabo
O que faz e tem assinado
Planos e truques
Pra não ser encarcerado

Vamos botar abaixo o planalto
Vamos encher o pulmão e gritar alto
FORA TEMER! DIRETAS JÁ!
Vamos à luta, à disputa
E diz PUTA!

Call me puta e absoluta
Que recatada e do lar
Pra mim não vai funcionar
Eu quero é botar pra foder
E ver seu rosto estremecer

Então vem
Me chama de hippie
Que pra você ostento
Meu bom drink

No seu castelo de papel
Vou jogar meu coquetel
De molotov
Aí você vai ver que
Aqui não é Só Love!

E tem quem diga
Que o problema do país
É irresoluto
PUTO!

“A corrupção vem de outra geração”
“O sistema é antigo”
“Só funciona se tiver propina”

Como se o povo não tivesse problema
A falta de educação, encarcera a nação
A falta do hospitais, reduz a população
A falta de oficiais, livres de preconceito

A intolerância é enraizada
E a hostilidade não leva a nada
Só cria mais gente revoltada

Agora, Bolsonaro venerado?
Isso só pode estar errado.
“Ah.. Então vou votar em branco”
Daqui da pra sentir o solavanco

Pra sua falta de opção
Na hora da eleição
Pra falta de candidato transparente
Vamos ser no mínimo coerentes

ANTES DE VOTAR NUMA MULA
PEGA SEU VOTO E ANULA!

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A vida chegou sem massagem.
Tudo que *Elle quer é embarcar em mais uma viagem.
Da cabeça desgraçada tenta tirar seu rumo.
Tem larica de arte.
Elle escreve quinzenalmente às quartas.

maldito caráter

por Caê Jansen*

Não tomo participação
Em arrependimentos alheios
Mesmo que por omissão
Coleciono os meus próprios

Reprimo o instinto
Que devo viver,
Será que o momento
Logo irá morrer?

Leio dúvidas
Sem tomar vantagem
E assim formo quem sou
Definindo caráter
Mesmo que pra isso
Renegue o que quero
E parece feito pra mim

Fiz o certo?
A cabeça diz que sim
Mas o resto…
GRITA QUE NÃO

Ah, imoral ambiguidade

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*Caê Jansen esteve sempre muito insatisfeito. Com seus empregos e limitações. Com o mundo. Busca controlar o ego e os pensamentos mais sombrios. Para isso, mergulhou de cabeça na escrita e na música. Tem na educação social sua ferramenta para tentar transformar o mundo. O coletivo lhe agrada, o psicodélico lhe atrai. Não tem formação, nem formatação. Ama arte. Caê escreve às terças.

esquecido

por Nicollas Conti*

Era em uma cama branca de hospital
Ele lembrava que era só isso que sabia
Era por causa do Alzheimer, o tal do mal
E pouco a pouco sua vida se esvaía

Sua mente estava branca como o branco ao redor
Seu coração estava brando como a falta do amor
Suas memórias — um fardo solto em algum canto
Suas lembranças — um nada escorrido em prantos

Ao ver-se no espelho, encarou sua alma
Ele era muito mais do que uma superfície enrugada
Pois todo humano nasce perdido no universo
E daquele espelho, ele só queria a si mesmo

Aos poucos, flashes vinham à sua mente
Um sorriso, uma música, uma noite inacabada
Uma voz “para todo o sempre”
Dita debaixo de uma noite estrelada

A porta abre — ele finge-se dormindo
Ela entra e beija sua testa
— Para todo o sempre, meu querido
A dona de sua memória — lá estava ela.

Com medo de estar sonhando, seus olhos estão fechados
Tem o coração pulsando, é de novo um jovem apaixonado
E nem se dá conta quando ela vai embora
Ele sonha os sonhos dos cegos de memória

Acorda em uma cama branca de hospital
lembrava que era só isso que sabia
“Onde está minha vida, afinal?”
Ele perguntou por isso todos os dias.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

impulsionar

por David Plassa*

Os cachorros latem
A minha desigualdade
Os portões tremem
Meu deságue em falsidade
O herói finge
Ter super-poder
A estrela que não brilha
Nem ao escurecer
O privilégio dado
Depois de confiscar
Sua mente frágil
Acredita em bem-estar

Ode à mentira
Porque ela nos faz vivos
Como títulos no lugar errado

Os velhos se esquivam de mim
Dou graças

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

[…]

por Izabela Souza*

O sol bate no meu olho após dias difíceis, mas eu ainda estou aqui.

O futuro ainda não posso visualizar, mas eu estou aqui.

No presente.

Às 16h56 num vôo de Recife a São Paulo.

Com todos os órgãos funcionando.

Admirando o sol pela janela enquanto escrevo.

Sorrindo, ainda que lembre dos dias difíceis.

Porque estes passaram, assim como outros passarão, enquanto eu ainda estou aqui.

Um aqui de resistência, aprendizado, fortalecimento. Sem localização geográfica, sem check ins. Meu aqui particular e personalizado.

Eu não sei quanto tempo meu aqui durará. Talvez seja mais breve do que eu tenho em mente. Talvez dure uma fração da estimativa de vida da mulher preta brasileira. Talvez o vôo caia. Talvez eu seja bisavó e faça pães de queijo vegano para os bisnetes.

Mais importante que a duração do aqui é como eu ajo neste tempo-espaço.

Eu sento e observo o correr das pessoas e do tempo no avião. São 17h02 e ainda nada aconteceu. Em 2h40 chegaremos a São Paulo e haverá movimentação. Showtime! Em 1h00 servirão lanche e água. Showtime! Em 30 minutos, provavelmente, cochilarei. Showtime — a hora do show é agir com respeito a nós, ao mundo e com consciência.

Quando será o seu showtime no seu tempo-espaço?

São 17h05.

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*Izabela Souza tem formação em Letras e Jornalismo, mas nem liga pra isso. O negócio mesmo é comer “paçoquita”, causar e ser uma agente de transformações sociais por aí. Não há nada que não possamos fazer, certo? Iza escreve quinzenalmente às quartas.