tudo vai ficar bem

por Marcia Dantas*

Estou deixando você partir.

Foi difícil, mas resolvi que precisava deixar essas porta aberta. Não posso te prender a mim ou impedir que você trace o seu caminho. Optei por fazer o meu e, se isso significar que teremos que andar por estradas separadas, estou deixando que você vá embora. Vai doer, não duvide. Mas não vou te impedir.

Não pense que não sou grata por tudo o que passamos. Você foi muito importante. Tivemos tantos momentos inesquecíveis. Aprendi muito com você e sorri muitas vezes ao seu lado. Não lamento por nada que vivemos. Não me arrependo de como você foi essencial em tantos momentos. Eu tive muita coragem por sua causa. Consegui dar muitos passos. Fui uma pessoa melhor porque você me fez pensar em muitas coisas.
Não vou esquecer nada do que você me fez viver.

As coisas mudaram, você disse isso algumas vezes. O mundo gira e as perspectivas mudam. Você fez algumas escolhas, eu fiz outras. Escolhas que estão nos afastando, mas que precisam ser feitas. Não posso dizer que não choro quando vejo que você está mais longe de mim a cada dia. Não queria ter que falar as palavras de adeus. Mas talvez elas precisem ser ditas agora, junto com o agradecimento pelo tempo que dividimos e por tudo o que tivemos de importante enquanto nossa jornada foi lado a lado.

Quero que você seja feliz. Que as coisa deem certo para você. Desejo tantas coisas boas, e nada disso mudou, tenha certeza disso. Você ainda é tão importante quanto naquele tempo em que disse que você era. Pouco mudou nos meus sentimentos. Mesmo agora que só consiga ver sua sombra.

Fique à vontade para ir embora.

Não lamente nem se arrependa. Tudo está sendo do jeito que precisa ser. Não precisa olhar para trás se resolver traçar esse caminho para longe de mim. Eu também não vou virar e chorar pelas decisões que nos afastaram. Só faça o que tiver que fazer, e eu agirei da mesma forma.

Sei que tudo vai ficar bem.

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*Marcia Dantas se orgulha de ser professora de História e escritora, duas áreas que a completam, realizam, desafiam e a fazem militar constantemente. Paulista de coração, não se vê morando em outro lugar, embora precise de um férias da metrópole no momento. Lançou há pouco o seu primeiro livro, Reescrevendo Sonhos, além de estar em vários outros projetos literários. Marcia escreve quinzenalmente aos sábados.

o segundo adeus

por Diogo Nogue*

As lágrimas rolavam
sem eu conseguir conter
segurando meus sussurros
depois do anoitecer

Era o fim de fato
Nós dois seguindo em frente
seguindo a corrente.

Era nosso segundo adeus,
este, talvez, o derradeiro
após confirmar nosso amor
e apontar seu paradeiro…

Não foi mais fácil que o primeiro…
e como o primeiro… veio de repente
parecendo irreal, forasteiro
contradizendo a felicidade presente.

Assim como a noite escura foi meu sol.
Assim como escolhi o deserto ao oásis
Assim como abri mão dos seus beijos,
para agarrar uma antiga miragem.

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*Diogo Nogue é artista visual, ilustrador e amante da literatura. Nascido em um dia 13 de sorte no ano de 1988. Decidiu que o sentido da vida seria criar arte e literatura e, quem sabe, fazer do meu tempo aqui na terra algo bom, belo e verdadeiro. Segue nessa luta todo dia! Diogo publica toda primeira quarta do mês.

hold on

por Elle*

Segura o barulho
Dessa mente perturbada
Sai do escuro
Cai na realidade

A claridade chega
Feito um tapa na cara
E a sanidade
Por pouco não escapa

Vem me dar uma dose de veneno
Vem, e me dá uma dose de veneno
Veio e deu, uma dose de veneno

Um gesto pequeno
Desse amor escaleno
Um olhar sereno
Ah, se esse moreno
Gostasse de me gostar

Puxo como um trago
Vem doce como favo
Mais rápido e temporário
Vai e deixa o amargo

Então procuro por outro trago
Esse não é doce
Tampouco rude
Encho o peito
Expiro plenitude

Mais leve, pude, enxergar
Fazer a chave virar
Mudar os planos
E entender

Que só vem pra brincar
E deixar o ego encher
E que só vai passar
Quando eu me abster

Tipo alcoólatra com álcool
Chocólatra com chocolate
Tipo cocaína, heroína, cafeína
Você é um vicio, estrupício
Saiu e me deixou à beira do precipício

Então, mesmo que o desejo
De permanecer seja obsceno
A veracidade do lampejo, me obriga
Me vou moreno.

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A vida chegou sem massagem.
Tudo que *Elle quer é embarcar em mais uma viagem.
Da cabeça desgraçada tenta tirar seu rumo.
Tem larica de arte.
Elle escreve quinzenalmente às quartas.

aquela casa naquele dia

por Nicollas Conti*

Na casa do morro havia uma porta
Que ninguém entrava
Que ninguém abria
Quem dera ser assim naquele dia.

Aos 12, eu nada queria
Além de quebrar o suspense
Que ela emitia.
Como bom perdedor de aposta
Para a porta eu seguia.

Já constatava desconforto nas entranhas
Ao subir o morro em minhas havaianas
Toda a criançada do bairro lá embaixo
Olhava-nos entrar, eu e Pablo.

O menino seguia ao meu lado
Tomado em pura curiosidade
Veio por isso, não por amizade
Estava rindo ao ver-me amedrontado.

Também não vim só pela aposta
Caroline me olhava lá embaixo
Seu olhar em mim era uma amostra
Que eu iria abrir aquela porta.

A passos lentos nós chegamos
Ouvidos na madeira
Não captaram ninguém gritando
Entramos para a morte certeira.

Uma casa abandonada.
Ou era isso que parecia.
Pablo disse “Viu Só?
Não tem que ter medo de fantasia”.

O vento bate, a porta se tranca.
Gritamos em busca de alguma esperança.
Um vulto surge,
Todo torto.
Vinha a nós, ele e o corvo.

O corvo grasna: Morte ou vida
Morte ouvida?
Pablo clama por vida
E, por ironia, o vulto tira-a para si.
De mim se aproxima; está encapuzado
O corvo grasna: Morte ou vida
E pela experiência assistida
Eu clamo pela morte.

“És um menino de má sorte!”
Grasnava o corvo; o encapuzado sorria
E assim, foram embora
Deixando-me só na casa vazia.
Acordo suado na minha cama
Enfim, estava apenas sonhando.
Só queria saber por que vivo esse sonho
Há mais de 158 anos.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

ele entrou no nosso quintal

por Ana de Oliveira*

Eu o vi entrando no nosso quintal. Limpando os sapatos imundos no nosso tapete. Arrastou os seus pés até a minha cadeira de plástico e, com a coragem de quem poderia matar o Papa, sentou-se nela. Como se fosse convidado de honra. Ele era o seu convidado, e o meu conhecido de escola. Eu gostava dele porque éramos parecidos, e se fôssemos parentes não seríamos tão iguais. Até hoje não sei se era a semelhança dele comigo ou se foi só ato em si que me fez desgostá-lo.

Você o cumprimentou calorosamente, o que me fez perguntar se ele era o nosso mais novo melhor amigo e eu ainda não sabia. Não havia motivo para que você o recebesse como me recebia. Eu vi a vivacidade em você que só tinha visto uma vez na vida, um ano atrás, quando nós nos conhecemos. Fiquei intrigado. Me senti não só idiota, mas também um estrangeiro no meu próprio quintal — que nós dois construímos com coisas só nossas.

Ele se espreguiçou na minha cadeira, pôs uma perna por cima da outra, e aceitou uma bebida que você ofereceu. Ele agradeceu com um sorriso meio parvo, e convidou-lhe para sentar-se ao lado dele. Rezei para que a sua resposta fosse não — mas só por ciúmes. Você disse sim, e sorriu. Um sorriso que eu costumava conhecer, e que me fez reparar que há muito tempo eu não o via.

Vocês começaram a conversar, e com muito custo soube que o assunto era Senhor dos Anéis. Um assunto que eu não dominava, porque nunca gostei dos filmes. Nem dos livros. Eram grandes e tediosos demais. Tenho dificuldades para entender e gostar de histórias com um universo muito grande. O meu ciúmes cresceu mais. Ele estava a lhe dar o prazer de conversar um dos seus assuntos favoritos. E mesmo que eu me esforçasse para fazê-lo, não seria a mesma coisa. Não obstante, ele levantou-se e mostrou-lhe a tatuagem que fez sobre o filme, o desenho do anel estampado no peito. Os seus olhos cresceram, porque ele era “fã de verdade”.

Rolei os olhos e tentei fingir que não estava ali, remoendo ciúmes e imaginando coisas que eu jurava não fazer sentido pelo fato de você me amar. Você não me trocaria por ele, só porque ele leu uma meia dúzia de livros mais grossos que a Bíblia. Você não faria isto, faria?

Voltei da cozinha, com uma caneca cheia de chá, na esperança de que o meu coração descompassado desacelerasse pelo menos um pouco. Psicologicamente, ao estar consciente de que chás melhoram o nosso humor, pude sentir alguma coisa em mim transmitir calma. Sentei-me noutra cadeira de plástico. A sua cadeira de plástico, que costumava estar ao lado da minha.

Meu coração começou a se acalmar, e eu pude sentir o meu corpo menos pesado. Não tantas batidas por minuto, eu fiquei bem. A minha atenção voltou à conversa de vocês quando ouvi-o dizer Star Wars. Eu sorri, porque deste assunto você não gostava. Se ele achava que vocês continuariam a trocar figurinhas numa tentativa injusta de tirar você de mim, ele estava enganado. Você sempre reclamava comigo quando eu falava com entusiasmo sobre como Star Wars era maravilhoso.

Não sei como aconteceu, mas meu coração e eu descarrilhamos. De uma vez. Parecíamos capotar num barranco, sendo atingidos por todas as pedras do caminho. Tudo isso porque você sorriu e disse que gostava, também, de Star Wars. Você nunca foi de mentir às pessoas só para se sentir parte de algo. Eu sabia que você tinha visto os filmes. Descobri por causa dele, da conversa de vocês, que o seu personagem preferido era a Padmé. E o dele, Obi-Wan Kenobi. Você tinha visto Star Wars. Sem mim. Sem comentar comigo, sem me chamar para conversar sobre um assunto que eu não só adorava, mas que também queria compartilhar com você. Você tinha visto Star Wars e tinha um personagem favorito. Você não quis falar de Star Wars comigo, mas quis com ele.

Chega. Levantei-me bruscamente para sair pelo corredor da lateral da nossa casa, sem que eu fosse visto. Escorreguei e tropecei, quase caindo, no caminho. Mas o barulho da minha falta de atenção não despertou nenhum dos dois da conversa animada e viva que vocês estavam tendo. Olhei para trás uma última vez, só para ver você dar aquele olhar para ele. Não era um olhar apaixonado, mas era o olhar que você dava quando conhecia alguém interessante. A paixão vinha depois.

Fiquei fora de casa por oito horas. E você parece não ter se dado pela minha ausência nem por um segundo. Voltei ao quintal, e ninguém estava mais lá. Vi as marcas de um dia interessante. Latinhas de refrigerante. Você odeia refrigerante. Um prato com restos de batata frita e pedaços de pizza. Você sempre me disse que esta era uma péssima combinação para a saúde. Meus CDs do Green Day junto ao aparelho de som. 21st Century Breakdown estava na pausa. Você nunca gostou da voz do Billie Joe Armstrong e sempre disse que ele não tinha talento. E, por último, e mais dolorido, nenhuma mensagem, nenhuma chamada perdida no meu celular com o seu nome. Eu tinha praticamente fugido de casa por oito horas e você lidou com isto como se eu tivesse ido comprar pão na esquina.

Você me abandonou junto com a cadeira que costumava ser a sua favorita, sempre ao lado da minha. Você me abandonou junto com tudo o que você era comigo e que hoje já não é mais. Você me abandonou com as esperanças que me deu, mas que me obrigou a matá-las. Uma por uma, lentamente, porque sempre adiava a decisão que obviamente teria de tomar. Você não me queria longe, mas também não me queria por perto. Queria que eu estivesse em banho-maria, porque não tinha coragem de me dizer não. Você nunca pensou como eu me sentia por ser a sua segunda-primeira opção. Nunca imaginou o que o abandono fez comigo.

A nossa distância aumentou. Tolo eu fui de pensar que tudo estava bem. Você não queria mais estar no nosso relacionamento e eu sequer percebi. Você agora é a garota que adora Star Wars e Green Day, e que não se preocupa comigo, ou não se dá pela minha falta. Você não é mais a garota que ligava para a minha melhor amiga atrás de notícias minhas quando o meu celular acabava a bateria eu já estava mais de cinco horas fora de casa. Você não quer (mais)saber de mim.

Um dia daqueles, a minha ansiedade me consumiu. Fui pra casa, a minha casa, e quis uma conversa sincera com você. Perguntei o que estava acontecendo, ou o que tinha acontecido, porque uma resposta era o mínimo que deveria existir. Nós éramos namorados e eu estava totalmente por fora do que estava acontecendo com a minha namorada. Você negou, e disse que nada acontecia. Desisti da conversa.

Outro dia daqueles, perguntei sobre o seu dia. Você disse, desanimada, que foi a mesma coisa de sempre. Horas depois, a ansiedade começou a me desfigurar. Perguntei o que estava acontecendo, ou o que tinha acontecido, porque uma resposta era o mínimo que deveria existir. Você não negou. Disse que estava difícil segurar toda aquela situação que era namorar alguém cujo é odiado pela sua família. Sua família nunca gostou de mim, e nunca fez questão nem de disfarçar.

Pensei, então, nele. O homem que a sua família teria o prazer de conhecer. Eu disse a você que ele a sua família adorava. Esperei a sua negação e você tentar explicar que não era bem assim. O que não aconteceu. Porque era bem assim. No seu silêncio e no seu olhar, eu soube que a sua família já o conhecia e, adivinha só, o adorava. Quando eu enterrei as minhas mãos nos meus cabelos, num gesto de desespero e cansaço, você tentou amenizar as coisas ao dizer que queria ter feito comigo tudo o que fez com ele. Não fiquei melhor depois disso. Se não era eu a lhe trazer conforto e felicidade, então deveria ser outra pessoa. Não exatamente ele, porque ele já estava chateando uma amiga minha — e ela achou que, por estarem ficando, ele a levasse a sério.

Fui embora e disse que não dava mais. Eu já tinha ficado tempo demais para saber que ele agora tinha uma parte de você, um laço inquebrável, uma desculpa eterna para estar por perto. Ele não ligava para isso, mas não era idiota ao ponto de não assumir o que tinha feito. O que só me fez pensar que ele não merecia ter o que tinha. Ele não merecia ter uma família, não convencional, com você. Injusto. Injusto porque nenhum afeto, nenhum amor que eu nutria por você seria suficiente para que eu tivesse um laço eterno ou que fosse parte da sua família. E ele só precisou de um momento da nossa fraqueza para ter tudo que eu mais desejava. Não importava o quanta importância eu desse para nós, porque eu era apenas uma lembrança, que jamais passaria pela sua cabeça, porque você estava ocupada demais com a nova vida que vocês geraram.

Meses depois, já desfeito pelo álcool e pela agressividade que tomou conta de mim, mudei de país, de curso, de número, de namorada, de roupa, de gosto, de vida. Um dia me contaram que a cada sete anos as nossas células são destruídas e substituídas. Senti-me feliz por saber que, um dia, eu serei o corpo que você nunca tocou.

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*Ana de Oliveira é amante da língua francesa e quase todas (não se pode dizer todas) formas de arte e comunicação. Tem a escrita como parceira desde os oito anos, mas foi aos 14 que começou a compartilhar suas ideias. Colocou na cabeça de que o céu é, realmente, o limite. Mas só porque tem medo de altura. Um dia, ela vencerá suas limitações, ou não se chamará mais Ana de Oliveira. Ana escreve quinzenalmente aos sábados.

promessa cumprida

por Nicollas Conti*

Ah, meu velho amigo
Estivera sempre
Comigo.
Havia em toda manhã
Ao avistar-te
Mente mais sã.
Aquela segunda chance
Que só você nos dá
O alcance.
De você espero mais nada
Apenas que volte
Pós-madrugada.
Não que arfe com sua beleza nua
Mas não me venha com nuvens
Nem lua.
Pesar daqueles que não te enxergam
Ainda não viveram a vida
Que levam.
Pesar de mim que te quero
Enquanto me desfaz
Com esmero.
Peço apenas que morte
Seja como o seu
Brilho forte.
Apenas cumpra sua promessa
Deixe-me vê-lo pela manhã
Quando eu partir dessa.
(clarão)

“Ao velho, ao jovem
Que pela Terra se movem
O Sol surgiu.
Todo rico, todo pobre
Saberá que a promessa nobre
O Sol cumpriu.”

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

sou o cativeiro e a prisioneira

por Marcia Dantas*

Vozes sussurram e minhas mãos tremem, reagindo sem que eu possa ter controle. Respiro com dificuldade, sem poder entender minhas reações. Temo que aquelas vozes estejam falando de mim e que se tornem risadas no instante em que virar as minhas costas.

Não é a primeira vez que experimento essa sensação de fraqueza. Cansei de contar as crises ou de mensurar os momentos de repouso em comparação àqueles que nem consigo levantar da cama. Minha vida é uma montanha russa. Gostaria de passar pelos baixos sem tanto chorar.

Sequer me lembro de quando tudo isso começou. Quando minha mente recebeu sementes de desconfiança e medo, transformando-as em plantas frondosas e tão impassivas que é impossível ignorá-las. Esbarro nelas a todo momento, sem controle ou possibilidade de fuga. Apenas tento lidar com a existência delas, esperando poder minimizar os danos. Falho muitas e muitas vezes.

Olho para meus passos, tentando guiá-los na direção certa. Tenho dúvidas de que esteja tendo sucesso nisso. É tão fácil apenas acreditar que estou errada o tempo todo, como se o mundo mostrasse o que há de pior em mim o tempo todo, expondo-me diante dos sussurros insistentes. Talvez não seja comigo ou talvez eu seja o alvo sempre, ainda que tente ignorar as vozes que me encurralam dentro de mim mesma. Estou presa em minha própria mente.

Sou o cativeiro e a prisioneira.

Fecho as mãos e controlo a respiração, tentando recuperar o fôlego e a sanidade. Choro diante do esforço. Não é fácil lutar contra a mente que se revolta e rejeita as insistentes tentativas de voltar ao normal. Ao que considero normal. Ao que quero aspirar como normal.

Estou exausta diante do esforço. Minhas energias se esgotam em um piscar de olhos.

Quero me esconder até a tempestade passar, ainda que ela esteja apenas aqui dentro de mim. O mundo lá fora continua a girar e nem se dá conta, ou pouco se importa. Estou só no meio da multidão e minha voz falha quando tento gritar. Estou isolada.

Preciso me libertar.

*Marcia Dantas se orgulha de ser professora de História e escritora, duas áreas que a completam, realizam, desafiam e a fazem militar constantemente. Paulista de coração, não se vê morando em outro lugar, embora precise de um férias da metrópole no momento. Lançou há pouco o seu primeiro livro, Reescrevendo Sonhos, além de estar em vários outros projetos literários. Marcia escreve quinzenalmente aos sábados.