promessa cumprida

por Nicollas Conti*

Ah, meu velho amigo
Estivera sempre
Comigo.
Havia em toda manhã
Ao avistar-te
Mente mais sã.
Aquela segunda chance
Que só você nos dá
O alcance.
De você espero mais nada
Apenas que volte
Pós-madrugada.
Não que arfe com sua beleza nua
Mas não me venha com nuvens
Nem lua.
Pesar daqueles que não te enxergam
Ainda não viveram a vida
Que levam.
Pesar de mim que te quero
Enquanto me desfaz
Com esmero.
Peço apenas que morte
Seja como o seu
Brilho forte.
Apenas cumpra sua promessa
Deixe-me vê-lo pela manhã
Quando eu partir dessa.
(clarão)

“Ao velho, ao jovem
Que pela Terra se movem
O Sol surgiu.
Todo rico, todo pobre
Saberá que a promessa nobre
O Sol cumpriu.”

_____

*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

irrealidade

por Nicollas Conti*

(1952)

1. Branco

O que mais me deixava louco naquele lugar era o teto.

Branco! Sem marcas, sem vida, apenas BRANCO! Malditos, como me querem ver são em um lugar todo branco? Tomam-me como louco, me botam em uma camisa de força (branca), me dão uma gosma pastosa (dizem ser de comer), me dão pílulas para acalmar, mas mantêm a desgraça do teto em branco. A única coisa que lateja na minha mente é chutar e roer as paredes até elas descascarem e mostrarem algo para mim, algo que não seja branco.

Eles também me dizem que a guerra acabou. Por verem-me nesse estado, acham que eu acreditarei em qualquer coisa que digam. Eles gostam de afirmar que a democracia venceu; que o mal maior está agora enterrado em Berlim. Pois bem, eu sei a verdade. Eu sei. Estão matando meu povo, pouco a pouco. Os linguiceiros invadiram a França, tomaram tudo que é nosso, e querem sair impunes. Deus sabe que venceremos, nem que eu tenha que expelir do mundo um alemão de cada vez. Se eu pudesse sair do quarto branco.

É incômodo como tudo passou de um intenso vermelho-rubro para um lacerante branco-branco-branco. Eu estava lá. O front era pálido, nossas rações vinham pálidas, o uniforme era pálido, e ainda assim tudo pulsava o vermelho-rubro. Eram meus amigos, minhas vozes! Todos ecoando a liberdade que queriam, segurando armas em uma mão e a grande nação na outra. Como foi que vim parar aqui?

Da outra extremidade do cômodo, a porta se abre.

Por apenas um relance, consigo enxergar o lado de fora do quarto. Não era branco. Um desespero subiu pela minha espinha, tive uma ânsia incontrolável em perceber que eu continuaria naquele lugar, preso em minha camisa de força.

Me debati durante a eternidade na minha cama. O vulto que havia entrado pela porta me aguardou pacientemente sentado ao meu lado. Minhas forças cessaram, uma única lágrima surgiu no meu olho, começando como raiva, mas ao que escorria pela bochecha, virou depressão.

Olhei então para o lado e vi a jovem médica, vestindo você-já-sabe-a-cor, me observando, inexpressiva. Ao perceber meu olhar, ela sai de seus pensamentos e me dirige a palavra. Há em sua voz uma calma contida, cada palavra sendo pausadamente enfatizada. Sua postura corporal ereta mostra um grande autocontrole, mas senti que não era natural.

— Você me reconhece, senhor Valentin?

— Sim, você é a Putaelle, uma das desgraçadas que me colocou nesse quarto.

— Não.

Ela esperava por aquela resposta, mas isso não a fez ficar menos decepcionada.

— Eu sou Emmanuelle, senhor Valentin. Eu estou aqui para te ajudar.

Me ajudar, ela diz. Aquilo ecoa em meus ouvidos como um toque anti-mentiras sendo soado. É engraçado como seu tom até faz parecer ser verdade. Com dificuldade, me sento para ela. Sua cadeira é tão alta quanto os pés da cama, então a vejo cara a cara.

— Se você quer mesmo me ajudar, por favor, me tire daqui.

Falo a mesma frase há anos, quem sabe dessa vez ela sinta o que eu sinto?

— O senhor não faz ideia do quanto eu desejo que isso aconteça, mas tenho que ter um diagnóstico comprovando sua sanidade.

Sanidade!

— Por acaso não a vê em mim? Me vê roendo paredes? Ou chutando-as? Não quero que esse quarto seja a última coisa que verei na vida! Peço-te, doutora, me deixe livre!

Ela parece digerir minha última afirmação com a mesma calma que havia em sua voz. Olhou para baixo, como se pesasse cada palavra, mesmo eu descrevendo exatamente minhas vontades contidas. No fundo eu quase não a odiava, mas sabia que tinha de odiar, pois acompanhava meu sofrimento todos os dias e, ainda assim, me mantinha enclausurado no quarto. Ela via o que eu era: um ponto desesperadamente solto no meio do branco inerte.

Ela levantou o olhar e aquele autocontrole voltou à sua postura.

— Sua família, Valentin. Recorda-se deles? Se sair daqui, irá visitá-los?

Havia uma coisa que eu odiava quase tanto quanto o teto em branco: o modo como me faziam duvidar de minha memória. Ela faz-me crer que possuo uma família, pessoas vivas que aguardam meu retorno. Putaelle discorre para mim toda santa semana as mesmas informações, os mesmos discursos, e no começo repreendi cada mentira. Mas, depois de tanto tempo… Será que eu me esqueci de algo? Não pode ser. Era algo incogitável, não se esquece da família. Minha mulher morreu na invasão, com os alemães. Lembro-me da cena, foi a primeira vermelho-rubro da minha guerra. Nunca tivemos filhos. Uma coisa era bem certa, eu precisava entrar no jogo dela se eu quisesse sair de lá.

— Me recordo deles.

— Então irá visitá-los? Irá abraçar sua filha? Irá deixar a guerra para trás?

Tantas perguntas descabidas; nenhum soldado, vivo ou morto, deixa a guerra para trás.

— Irei. Abraçá-la-ei como jamais fiz, e seguirei te agradecendo pelo resto da minha vida. E mais, não voltarei à guerra. Palavra de um herói da nação.

Abro um sorriso tão falso quanto qualquer palavra que saiu da minha boca. E ela? Só podia ser o demônio, percebera minha farsa na mesma hora. Dava para ver no modo como me olhava, cética da unha ao cabelo. Mas não terminou, fez-me uma última pergunta, olhando em meus olhos, uma pergunta que jamais poderia responder corretamente.

— Qual o nome dessa filha, senhor Valentin?

Odeio-te, Putaelle.

— Marie?

Com a resposta, ela se levanta da cadeira, arrastando os pés metálicos contra o chão. O olhar, baixo, permaneceu assim mesmo depois de se virar para ir embora. Ela era minha esperança, desgraça, minha única conexão com o mundo não-branco. Gritei enquanto avançava para cima dela, desejando ter algo para falar, algo que a convencesse de que eu não era louco, apenas uma peça de quebra-cabeça longe da caixa. Nesse intuito, meus pés amarrados traíram meu movimento, e eu desabei ao chão. Subi a cabeça para vê-la, aguardando a porta ser destrancada pelo lado de fora.

— Eu não tenho filha, Putaelle, sua desgraçada! Nunca tive uma! Nenhum nome iria te satisfazer, não é? Sou um prisioneiro de guerra aqui, esperando pelo abate, enquanto vocês se divertem com meu desespero, não é mesmo!? Não é? OLHE PRA MIM!

Seu olhar permanece baixo, e tenho a impressão que ela não me ouve mais. Tantas ânsias passam por mim, um sentimento de impotência que apenas os que caem na hora errada podem desfrutar. Não há como sair. Nunca houve.

— Por que vocês mentem sobre a guerra? Eu ouço toda a porra de noite os gritos lá fora, os choros incontidos, as explosões!

Putaelle abre a porta.

— Por que não me mata, então? Livra-me da guerra! Pare de me visitar todos os dias se for acompanhar meu sofrimento!

Putaelle dá seus passos.

— Pelo amor de Deus, PINTE AS PAREDES! Emmanuelle!

A porta se fecha, sem que Putaelle tenha olhado para trás.

O silêncio preenche o cômodo. Quando Putaelle não estava, parecia que eu me encontrava no limbo, imóvel, aguardando os sons da guerra recomeçarem. Parecia viver em um transe, uma meia-vida onde nada mais acontecia. Apenas ela me visitava, durante todos esses anos. Nenhum outro doutor, nenhuma outra pessoa. Eu a odiava, mas por conta dela eu ainda me encontrava são. Ou seria o contrário?

Fora isso, era somente eu e o teto branco. O maldito branco.

Como foi que vim parar aqui?

2. Vermelho-rubro

Emmanuelle abaixou a cabeça para que o paciente não olhasse as lágrimas. Deve ter escondido bem, pois as primeiras só caíram no jaleco do doutor, que aguardava do lado de fora. Ela o apertou com força, desejando que o estado daquele que se encontrava no quarto fosse diferente.

— Ele não se lembra, doutor! Não se lembra!

Entre choros e balbucias, Emmanuelle foi dizendo tudo que havia ouvido do paciente. Para ele, ainda estavam em guerra. Para ele, não existia nada além do front, nem a família. Era como se estivesse preso no tempo. Há mais de sete anos.

A jovem sai dos braços consoladores do psiquiatra e se desculpa pelas emoções incontidas.

— Como foi a experiência, Emmanuelle? Ele está melhor?

— Está piorando, doutor. Vestir-me de médica também não acrescentou em nada para isso. Ele agora acha que eu o visito todos os dias, como que para sedá-lo ou dar-lhe pílulas, seja lá do que esteja falando.

O doutor libera um suspiro. Emmanuelle deduz ser de desapontamento com o paciente, senhor Valentin, e sua aparente regressão.

— Isso só me faz perceber que não posso abandoná-lo agora, doutor, no momento que ele mais precisa de mim.

— Emmanuelle… — o psiquiatra já havia sugerido isso sutilmente para a jovem garota, mas agora tomou coragem e reforçou — O senhor Valentin precisa ir, você precisa deixá-lo ir. Não há nada que possam…

— O que está sugerindo, doutor? Matá-lo a sangue frio? É assim que trata seus pacientes? Eu não acredito que me sugere livrar-me da minha própria família! Pois ouça bem, não deixarei vocês tirarem-no desse quarto! Me ouve? Não deixarei!

Emmanuelle afasta-se do quarto de número 10, onde se encontrava Senhor Valentin. Ela segue o corredor até virar à esquerda, em direção à recepção, fazendo o doutor perdê-la de vista. A jovem pede suas roupas e utiliza um quartinho para se trocar. Retira do corpo a vestimenta de médica com certa repugnância. Conselho oferecido pelo doutor, de se fantasiar para testar o reconhecimento do paciente.

Meu pai não precisa de fantasias, mais mentiras para alimentar sua loucura. Ele precisa da filha. Talvez o leve para alguma outra psiquiatria.

Pensou sem convicção, sabendo da decadência de clínicas como essa. Colocou com cuidado seu vestido vermelho-rubro, presente do seu pai. Amava aquele vestido. Tratou de tocá-lo contra seu corpo, sentindo a suavidade e maciez que sempre possuiu. Antes de sair, pensou nos momentos com o pai em seu quarto. Deus sabe que ela procurou manter a calma o máximo possível enquanto olhava seu sofrimento. O que ela esperava, já fazia um bom tempo, era ouvir o quanto ele a amava, o quanto a queria por perto. Hoje ela possuía 21, mas foi com 10 que viu seu pai indo à guerra, para depois voltar sem que se lembrasse de outra coisa que não o front de batalha. Não teve tanto tempo para sentir o que era um pai ao lado, fora sofrendo em silêncio esperando por seu retorno, dia após dia.

Em um súbito pensamento, lhe veio a clareza de que as pílulas que seu pai tomava estivessem deteriorando sua mente. É isso! O doutor, cansado de investir tempo e dinheiro num louco, está piorando sua saúde mental, para poder finalizá-lo sob algum argumento incontestável. Para isso, tinha que convencer a filha do louco. Mas agora estava claro, isso nunca aconteceria. Nunca. Seu pai não sairia do quarto, e nem doutor nem ninguém o tiraria de lá, sem antes ela o ajudar com sua lucidez. Amanhã seria um bom dia para ela se livrar do psiquiatra, para sempre.

Emmanuelle saiu do quarto, a mente determinada em sua certeza. Do lado de fora, uma assistente aguardava para conduzi-la para o quarto 9. Não houve oposição. A jovem chegou ao quarto e desabou na cama. De tão cansada, dormiu sem tirar seu vestido vermelho-rubro, que usava há mais ou menos sete anos.

3. Pálido

O trabalho de um psiquiatra é delicado. Precisa-se analisar cada comportamento, cada amostra do que seu paciente oferece a você. De maneira meticulosa, deve-se interpretar a loucura que se tem disponível. Você mesmo torna-se louco, para assim solucionar o quebra-cabeça mental que esconde a sanidade.

O doutor enxergava diversas simbologias no que era oferecido a ele. A começar pelo quarto. Foi até lá, destrancou-o e escancarou a porta antes de acender a luz. Como era de se esperar, o quarto estava vazio, abandonado em sua palidez. Fazia muitos anos que nenhum paciente era direcionado ao quarto 10, vítima da decadência que hospitais psiquiátricos começaram a ter no pós-guerra. Como resultado, o doutor via, parado na entrada do cômodo, um local empoeirado, coberto em teias de aranha e pedaços de parede descascada. Após espirrar duas vezes, o doutor trancou-o novamente.

Foi até sua mesa, retirou novamente da pasta uma ficha que continha os dados de um dos pacientes. Era assustador como ele podia se apaixonar por uma pessoa fora de si. Mas aconteceu. Ele a amava, na mesma proporção que ela delirava. Na ficha, lia-se seu nome: Emmanuelle. Patologia: distúrbio esquizofrênico.

Algumas conclusões incertas rondavam o estudo que o doutor fazia em cima da amada. Mesmo sabendo que seu pai morrera na guerra, era preciso suprir 11 anos de ausência do dito cujo, então interná-lo no mesmo lugar em que se estava internado parecia ser uma maneira razoável de visitar o familiar. Segundo as contas, faltavam mais 4 anos de visitas ao quarto branco. Por falar em branco, seria a cor que o quarto tomou por remeter aos céus, local onde a mente de Emmanuelle recusa-se a enviar o pai?

Ela é linda. E sincera em sua loucura, disso o doutor não tinha a menor dúvida. Talvez amanhã fosse um bom dia para ele confessar a ela o que sentia. Poderia ser lá mesmo, dentro do quarto coberto em sua palidez.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

sobre o que se trata

por Nicollas Conti*

Prove tudo
Prove a todos
Que você é melhor que eles
(E que, no fundo,
Você não é ninguém)

Identifique a si mesmo
(No dinheiro)
Venda (a alma) por reconhecimento
O ego levará sua visão
(Para o caixão)
Fecharemos o buraco com cimento
(No fundo sempre foi um lugar vazio)

Esperamos que venha tenha
Dinheiro para sempre!
E quando não houver mais frente
Você olhe para trás, e perceba,
Que, no fundo,
Isso (nunca) importou.

(A sala vazia,
a casa fechada,
as faces tão frias
quanto a mobília empoeira.
Parece que não era sobre acúmulo, no fim das contas)

— Ele era um grande homem.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

esquecido

por Nicollas Conti*

Era em uma cama branca de hospital
Ele lembrava que era só isso que sabia
Era por causa do Alzheimer, o tal do mal
E pouco a pouco sua vida se esvaía

Sua mente estava branca como o branco ao redor
Seu coração estava brando como a falta do amor
Suas memórias — um fardo solto em algum canto
Suas lembranças — um nada escorrido em prantos

Ao ver-se no espelho, encarou sua alma
Ele era muito mais do que uma superfície enrugada
Pois todo humano nasce perdido no universo
E daquele espelho, ele só queria a si mesmo

Aos poucos, flashes vinham à sua mente
Um sorriso, uma música, uma noite inacabada
Uma voz “para todo o sempre”
Dita debaixo de uma noite estrelada

A porta abre — ele finge-se dormindo
Ela entra e beija sua testa
— Para todo o sempre, meu querido
A dona de sua memória — lá estava ela.

Com medo de estar sonhando, seus olhos estão fechados
Tem o coração pulsando, é de novo um jovem apaixonado
E nem se dá conta quando ela vai embora
Ele sonha os sonhos dos cegos de memória

Acorda em uma cama branca de hospital
lembrava que era só isso que sabia
“Onde está minha vida, afinal?”
Ele perguntou por isso todos os dias.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

humano apesar de tudo

por Nicollas Conti*

Desde que te conheci
Recebi flores, e algumas dores
Que eu nunca vi
Passaram a me conhecer

Nem de perto era tão lindo
Mas éramos limpos
Nem preto nem branco, você dizia
Éramos cinzas no campo

Precisei queimar os olhos no sol
Para ver tudo esclarecer
Você queria enxergar, eu queria saber
Onde suas flores se encaixavam

Quando não se vê, você vê
E eu a vi extasiada
Matando um rato a pauladas, como sonhos
Humana apesar de tudo

A noite subia, eu me dizia
Não há nada para esquecer
Me ensinou muito mais do que podia aprender
Eu era, em todo canto, você

Vi que as dores ensinam, as flores espetam
E quando me deixou não houve espanto
Nada era preto, nada era branco.
Tudo era muito cinza.

Isso foi há muito tempo
Nem sei se ainda me lembro
Se você chegou mesmo a nascer
Ou se muito foi um sonho
Que eu quis fazer acontecer

Sei que eu sentiria tudo de novo.
Minhas dores estão em um vaso
Minhas flores, em pleno voo
Afinal sou mais que um velho gago.
Sou mais que um velho louco.

Humano apesar de tudo.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

o apagador de humanos

por Nicollas Conti*

Vou lhe dizer, filho,
Quando nós deixamos de viver
É um caso triste, obscuro
Algo que você não vai querer
*
Não é quando nós perdemos um amigo
Não é quando nos sentimos sem abrigo
E vou lhe dizer, filho,
Não é quando estamos prestes a morrer.
Quero que você saiba que
Não é quando perdemos a vida
Que deixamos de viver.
*
Você pode perder um braço
Pode perder as duas pernas:
Segue-se com sua vivacidade
Mas no momento em que tiram sua
Humanidade
Viver não é mais pra você.
*
O que mata os humanos
E não os permite morrer
É olhar nos seus olhos
Diante da miséria, corrupção e desigualdade
E dizer
“Não há nada que você possa fazer.”.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

constelação

por Nicollas Conti*

Vejam só aqueles pássaros brilhantes
Voam, brincam e dão rasantes
Quisera seu Zé ir tão distante
Mas Oh! Vejam só!
São apenas mísseis de longo alcance

Vejam Só! O Brilho do luar
Que seu Zé observa do quinto andar
E quanto mais o elevador sobe
Mais frustram seus olhos nobres
O brilho é mais outra bomba nuclear

Mas a Zé, as nuvens sempre foram encanto
Em seu céu abria-se esse manto
Ele podia sonhar,
Em seu âmago,
Crianças que não morriam em prantos

Vejam só! A nova fase lunar
Noite adentro o fogo vem queimar
Uma nova estrela debate-se no chão

As queimaduras alastram-se ao mar!
Bem onde o homem quer passar
Onde bombas brilham em constelação.

Seu zé fecha os olhos. Sonha com o sempre.

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.