[…]

por Luska Brion*

Bom dia, Seu Jaime!
Como estamos hoje?

 

Estamos!? Como você está não me interessa, menino.
Muito menos a ti, sobre mim.
Mas já que perguntou, estou péssimo!

Que bom, Seu Jaime!
O que vai pedir hoje?
Já aviso que estamos sem melancolia. Tem saído muito! O pessoal já não vive sem. Não estamos dando conta da demanda. Mas chega esta semana ainda.

Aaarr! Mas de novo!?
Tudo bem. Vê-me então 2 marasmos.

Qual sabor, Seu Jaime?

Rancor, por favor.
Me vê também 4 mentirinhas, as mais tostadinhas.
Não conte a ninguém, meu médico recomendou-me não mais consumi-las.
Eu adoro, mas não estão me fazendo bem.

Certo, mais alguma coisa?
Agonia, perguntas…

Sim, pode ser.
100 karmas de cada e pode fechar.

Certo.
Aqui está, Seu Jaime.
Volte sempre!

Vamos ver, menino.
Vamos ver.

 

Bom dia, Seu Jaime.
Deu 32 anos e cinquenta.

Tome 35.

Poxa, Seu Jaime, estou sem troco.
Pode ser em bala?

Sim, pode sim.

Qual vai querer?

.38, por favor.
Pode ser só uma.

_____

*Luska Brion é o 4º de cinco.
Dezenove residências.
Dinheiro parco, melanina ainda menos.
Mente em fluxo galático.
Vida em eventos atípicos.
Humor randômico.
Luska escreve quinzenalmente às sextas.

[…]

por Luska Brion*

Manhã deseja cama
Tarde deseja coma
Noite, deseja

Karma

Manhã,
tarde,
noite

Comeu o Karma como se a cama já não mais acalmasse o desejo de correr do amanhã

Como se cada cama tivesse comido o como

Como se houvesse o que comer

Infame
Perdeu a fome
Faminto, morreu

_____

*Luska Brion é o 4º de cinco.
Dezenove residências.
Dinheiro parco, melanina ainda menos.
Mente em fluxo galático.
Vida em eventos atípicos.
Humor randômico.
Luska escreve quinzenalmente às sextas.

vagonauta encontrado

por Luska Brion

O astronauta quando se perdeu
perguntou-se aonde chegaria
Sabia
que
vagando
ficaria

Que acontecer
lhe poderia tudo
o que ninguém disse

Seguinte ao segundo qual não visse

Nadamaisqueestrelas

Flutuou o infinito
por tempo
suficiente e contente
que fez o vagonauta perceber
que
ali
não
havia
dia

Nem noite

A vaga imensidão que aturdia
agora dizia
que findo era o açoite
daquela escravidão
que
não
mais
o prendia

Nem precioso outrora
o ar lhe faltou
já que não mais existia

A imensidão gentil
jamais o consumiria

Soube então
que em casa estava
Por fim
e sem fim
à humanidade
não
mais
per
ten
c

i

a

[…]

por Luska Brion

Ainda me lembro do som dos sapatos de sola de borracha sobre o piso de cimento queimado e verniz.
Do eco no salão bem iluminado e das colunas brancas.
Parou de repente, bem à nossa frente.
Mirou-me os olhos que antes vagos, azuis olhos, agora incomodamente liam minh’alma.
Um frio em minha espinha ao ver o revelar dos dentes amarelos num riso frouxo que o fizeram confessar que dali então sabia aonde iria e conhecia o começo do fim.
Porém jamais me contaria.
Em veste alva de baixo a cima pôs-se a andar.
Nunca mais o vi.
Ainda me lembro do som dos sapatos.

[…]

por Luska Brion

Agora pense bem, no problema que você tem.
Aí estirado no chão, abandonado, ferido,
fedido como um cão.
Agora pare, e pense bem.
No problema que ele tem.
Ao vê-lo preso em sua vida curta, chata e sem gosto!
De terno e gravata, sem pelo no rosto.
Agora pense.
Pense.
Pense bem.
O problema era mesmo de quem?

sabiam?

por Luska Brion

Sabem meu nome
Meus horários
Minhas faltas
Compensações
Dados e endereço
Não sabem quem sou

Sabem dos meus interesses
Minhas ideias
Discussões e conceitos
Sabe dos vícios
Dos sonhos
Não sabem o meu nome

Sabem do cheiro
Das dores e amores
Dos espinhos das flores
Do bom e do melhor
Sabem do mau
Não conhecem o pior

Sabem bem que
na verdade
não sabem
vai saber
Por que sabem
que se souberem..

O que acham que sabem?