ninguém quer saber

por David Plassa*

Com quase 20, meu avó saiu de Maceió em direção a São Paulo pilotando um ônibus. Isso em 1949. Ficou órfão de pai e mãe aos 6 anos de idade. Cresceu nas ruas sob os olhos da irmã, quatro anos mais velha, a Das Dores. Chegou a comer um pombo que capturou na orla de Pajuçara.

A única companhia que nunca lhe apontou um dedo durante a vida foi a cachaça. Nos únicos momentos em que aceitou e riu do próprio vazio estava mais bêbado do que você entende por bêbado.

Casou tarde para época, 28 anos. Com uma menina 10 anos mais jovem. Criou quatro filhos como motorista profissional. Ao se aposentar se deu conta de que não teria o bastante para pagar o bar. Foi para a praça, trabalhar como taxista. A maior realização neste período era voltar para casa, abrir a carteira e dar trocados para os netos comprarem doces.

Ainda assim, nunca conseguiu perceber que era reconhecido pelo vício e não pelas conquistas.

Ele ligava para o meu celular quando foi deixado pela a minha avó, que já não aguentava mais. Quando eu era criança descobriram que ele mantinha outra em outra casa com outros netos talvez. Mas não era só por isso que ele estava sozinho. Era por tudo o que ele bebia mesmo.

Ele perguntava se eu o amava, quase em estado de inconsciência. Confundia o meu nome com o do meu irmão. Os vizinhos ligavam todos os dias para a minha mãe: – O seu pai está caído na rua de novo. A gente não cumpria o final do expediente para ir acudi-lo, vê-lo chorar e, ainda pior, saber que ele se arrependia por algo impassível de controle.

É incrível como até hoje eu admire um homem como ele. Que a cada gole surge em alguma esquina, incapaz de me cobrar cuidado.

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

prolapso rede-neural

por David Plassa*

Às vezes arte é aquilo que só você sabe
E te censura
Pelo puro delírio das formas

Às vezes arte é aquilo que te cala
E você sem saber qual filtro usar
Na tentativa de não ficar sozinho
diante do absurdo silêncio
Quatro paredes, tic
em tua direção, tac
Você nem imagina quais são os termos de uso

São três e 29 da manhã
Desde o primeiro segundo do novo dia
53 fazendeiros indianos suicidaram-se por não conseguir dar o que comer para os filhos
São sete

Às vezes arte é acreditar que você sabe aonde vai
Porque sem um sentido geral
Qualquer objetivo mesquinho é um movimento
E as ruas te aquecem
Como um gole de conhaque desnecessário

Mas só às vezes

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

o colapso

por David Plassa*

estou há dias dele
ceifando possibilidades
rasurando alternativas

no gerúndio mesmo
[fumando]

cego de perspectivas
acorrentado ao imperfeito
[acorrentava-me]

enchendo copos
em silêncio auto-infligido

esperando
a promessa que eu mesmo jurei
e não cumpri

vivendo o clichê da frustração
“poeta frustrado escreve poesia sobre obra poética que não consegue terminar”

sofrendo sem me sujar
sangrar
envolver
aprender
sofrer

há dias

esperando
a falta
para livrar-me do privilégio da culpa

há dias
ciente de que a liberdade está em formular a pergunta
e não nas escolhas
[sim ou não]

deixando-me ruir
para não sufocar
há dias
há dias
há dias

da diminuição súbita e considerável de todas as forças nervosas
[e a louça para lavar]

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

causa mortis

por David Plassa*

Aqui está o meu único show possível.**

Ninguém se importa com quem fala sozinho, ainda que uma frase ou outra sirva de zumbido ou mau exemplo. Você está confortável e é tudo o que precisa. Um toque de despertador e cada andar esvaziando-se de mais forças produtivas. É preciso entrar na dança também, mesmo descalço ou com a meia furada (pares trocados).

Porque agora, você consegue viver mais de 20 anos comparado ã média de 200 anos atrás (carece de fontes confiáveis). Nunca fomos tão avançados, não é mesmo? Nunca tivemos tanto tempo para deslizar o dedo por telas que valem muito menos que a nossa capacidade de enxergar. Se é que um dia a tivemos esse dom — duvido.

Porque sempre odiamos alguma coisa que em maior ou menor proporção habita dentro de cada semelhante. Uma pulsação ou vontade disforme, uma energia que se distribui entre cada individuo e nunca aumenta ou diminui, apenas se conserva. É o nosso quinhão ofertado por forças universais imensuráveis para nos equilibrarmos. Veja bem: equilíbrio, e não satisfação.

E corremos atrás um dos outros, atrás de justificativas que nos mostrem que alguma coisa nessa merda vale a pena.

Já imaginou morrer agora e se dar conta de que foi apenas isso?

Você foi um corpo transportado de estação em estação para abastecer-se de alguma unidade mercadológica válida a fim de se desfazer aqui e ali, principalmente em frente a qualquer lugar em que você possa escrever há-há-há-há sem sentir absolutamente nada.

Talvez é isso que eu tente falar, mas por aqui será absorvido pela sucata algorítmica-não rentável. Para ser apenas o blá-blá-blá de um ser alucinado-ordinário e compulsivo.

** O paciente ainda não apresenta evolução diante do quadro de desequilíbrio emocional autodestrutivo-crepuscular dimensionado pelo diagnóstico imago-sensorial.

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

halitose 30

por David Plassa*

Se abrisse mão
De tão pouco tudo
Que lhe convém
Se agarrasse
A ferocidade do inseguro
Estaria vestido como agora
O mesmo blazer
O mesmo tênis
As mesmas reivindicações
Sobre um mundo estranho com pessoas cruéis

Se os dedos não encruassem
Diante da fome e do desconforto
Diante da morte e do abandono
Se os dedos sentissem
A exata insignificância dos medos
Estaria vestido como agora
As mesmas manchas
Os mesmos dramas
Abotoados à camisa

Se soubesse
Que apaga cigarros
Ao invés de acendê-los
Vestiria-se com mais conforto
Um terno torto
Para esconder-lhe o farrapo de carne e sangue
E sangue

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

do amor que existe sem acontecer para não diluir-se

por David Plassa*

Estou tentando dizer que o sol teria outro sentido para mim se estivéssemos juntos. Não seria frustrante vê-lo nascer e nem vazio vê-lo se pôr. Porque certamente, numa manhã de precoce e imprevisto despertar, tuas formas luminescentes sobre a cama partilhada, sob feixes febris atirados janela adentro, torná-lo-ia minha lanterna para lidar com teu profundo e teu. O sol como álibi impreciso do sequestro que planejo para ti nestas linhas, alheias à lacuna tempo-espacial que sobrepõe-se ao meu e talvez teu desejo. Estou tentando dizer que queria estar junto de ti. Por isso as conversas apenas visualizadas e as chamadas sem roteiro em meio a madrugada. “Como vai você?”, como flecha lançada para além das falanges que engordam o contingente para forçar-me acreditar que nunca seremos nós.

(Quero falar de um amor que só acontece nas suposições da narrativa, que de outro modo não seria possível devido ao individualismo e a crueza de um possível convívio entre os amantes. Então o narrador aprisiona o ideal de relacionamento dele nos termos que escolhe para satisfazer-se, assumindo que sempre manipulou as situações para possuir o que achava dele por direito. Até desistir de querer estar junto porque, sendo assim, perderia a única história de amor que lhe foi possível. Acho que é isso.)

Gostaria de dividir o mesmo apartamento e os mesmos remédios. Nossa dor é a mesma de acordo com o meu diagnóstico. Revezando-nos na tarefa de fazer o jantar até preferirmos o lanche da esquina, até preferirmos fazer as compras sozinho e trancar a porta durante o banho. Em um dia de maior inspiração te levaria um chocolate para materializar meu desespero ao não te encontrar mais como antigamente. Apaixonado pelo passado que resguarda o verbo dividir no vocabulário do nosso relacionamento.

Sequestrar é uma palavra deslocada quando você despir-me da minha fantasia. Em diversos momentos, desde que nos conhecemos naquele self-service: meu primeiro dia no emprego, com o melhor corte de camisa para ombros largos e costelas aparentes. Não apenas costelas; todo o meu tornava-se relevo diante da carga dos teus olhos. Em determinado momento acreditei estar com o rosto de ponta-cabeça, me dirigindo a você com cambalhotas ao invés de palavras. Por isso, tudo o que falei e a maneira equilibrista com a qual delineei meu caminho até os que nos rodeavam, foram encenações circenses, as quais não quero nunca contemplar.

Ah, como fui covardemente egoísta acreditando que você posava para meus retalhos de memórias caramelizadas. Teu corpo de perfil inclinado diante da tela de um computador, uma pequena mão convulsiva a clicar. Queria tanto saber o que lhe era de interesse! A franja que não descansava em cobrir-lhe as maçãs do rosto. Eu recortava esses momentos e guardava-os junto ao maço de cigarro escondido embaixo dos livros que carrego na mochila. Para mostrar a mim mesmo quando retornava para casa, o quanto me falta para ser maior do que o meu vazio. Em pé no vagão, sentindo o sono coagular em cada movimento corpóreo, invocando nossas conversas de horas atrás, contidas pela banalidade e infinitas pela tensão.

(Haviam assentos vazios.)

Revisitava essa imobilidade destacável, artigo raro para meu acervo, exposta no verso dos meus olhos sem tua prévia autorização ou participação de lucros inconscientes. Fazia-te minha antes de perguntar e sem ter ideia do quanto a concretude disso nos destruiria. Embebidos na fria conjectura de creditarmos à distância forçosa, nossa falta de felicidade no departamento ter-dar-receber. Ainda que no íntimo soubéssemos que no menor desequilíbrio entre estes termos rasurar-no-íamos. Não importa.

Como esfarelar a realidade aqui para que você entenda o quanto é bom ter você por perto?

Lembra-te nossa a noite que dura até a próxima palavra: colapso? Teu corpo no escuro contra o meu. Nenhum movimento adivinhado. Apenas. Até o estremecimento. Teu corpo no escuro contra o meu.

(Quem era você?)

Sintonia em que nenhum conhecido é capaz de entender-me. Talvez nem você e seja o caso de acariciar apenas aquela noite em si. Mas permite-me dizer que encontrei ali um lugar para a gente e tão meu que tento justificar picando-lhe palavras. Como o menino que não sabe escrever, mas faz poesia para a amada. Afinal, não reside nessas pretensões a nossa solidão? A minha, certamente.

Pois minhas mentiras não te convencem e eu sei. É por isso que não vamos ser. Eu não me iludo com o  real. Desfaço aqui algo para que eu tenha escombros no futuro, nos quais vou ler e salivar sobre essa história [de “amor”, por me faltar palavra que eu tenha maior receio].

Porque foi depois de ti que quis romper com tudo o que até ali me fora entregue. Uma vida adulta e cordial entre paredes brancas com quadros a pendurar. O crachá de cordão frouxo para eu não me enforcar. Obviamente porque testei-o na barra do coletivo que me levava ao trabalho, no primeiro dia em que não te veria no escritório após a demissão. Eu sorri quando os passageiros se afastaram. Eu sorri quando o motorista ameaçava chamar a polícia. Fui expulso ao acender o cigarro onde buscava as cinzas da lembrança dos teus lábios. E desembarquei como o mal exemplo de cidadão desequilibrado que permite-se banhar no caldo de tudo que não é tão relevante quanto bater o ponto a tempo.

Pois a história que acredito ter vivido contigo não poderia estar mais nítida, ainda que na escuridão das palavras aqui escolhidas. São remendos e solavancos de um comum existente apenas na eternidade das especulações. Ao acordar, ainda confundo minha respiração com a tua, teu corpo, com o que está ao lado, minhas convulsões, com o desejo de estar junto a ti.

Não me procure, caso tenha conhecimento dessa loucura, pois é o que mais desejo. Deixei de tomar os remédios para voltar a visitá-la onde um dia existimos e isso me basta. Quantos no mundo souberam o que é ter uma parte do outro escondida sob a vida que nos atravessa?

Vivi o que inutilmente chamam de “amor” e não quero sacrificá-lo para além destas linhas. Não te dou escolha ao fazer-te musa. E para mim está tudo bem.

Na ávida tentativa de satisfazer-me com a vontade de tê-la junto a mim.

(Em meu despir solitário ao lembrar-me de ti.)

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

 

impulsionar

por David Plassa*

Os cachorros latem
A minha desigualdade
Os portões tremem
Meu deságue em falsidade
O herói finge
Ter super-poder
A estrela que não brilha
Nem ao escurecer
O privilégio dado
Depois de confiscar
Sua mente frágil
Acredita em bem-estar

Ode à mentira
Porque ela nos faz vivos
Como títulos no lugar errado

Os velhos se esquivam de mim
Dou graças

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.