halitose 30

por David Plassa*

Se abrisse mão
De tão pouco tudo
Que lhe convém
Se agarrasse
A ferocidade do inseguro
Estaria vestido como agora
O mesmo blazer
O mesmo tênis
As mesmas reivindicações
Sobre um mundo estranho com pessoas cruéis

Se os dedos não encruassem
Diante da fome e do desconforto
Diante da morte e do abandono
Se os dedos sentissem
A exata insignificância dos medos
Estaria vestido como agora
As mesmas manchas
Os mesmos dramas
Abotoados à camisa

Se soubesse
Que apaga cigarros
Ao invés de acendê-los
Vestiria-se com mais conforto
Um terno torto
Para esconder-lhe o farrapo de carne e sangue
E sangue

_____

*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

do amor que existe sem acontecer para não diluir-se

por David Plassa*

Estou tentando dizer que o sol teria outro sentido para mim se estivéssemos juntos. Não seria frustrante vê-lo nascer e nem vazio vê-lo se pôr. Porque certamente, numa manhã de precoce e imprevisto despertar, tuas formas luminescentes sobre a cama partilhada, sob feixes febris atirados janela adentro, torná-lo-ia minha lanterna para lidar com teu profundo e teu. O sol como álibi impreciso do sequestro que planejo para ti nestas linhas, alheias à lacuna tempo-espacial que sobrepõe-se ao meu e talvez teu desejo. Estou tentando dizer que queria estar junto de ti. Por isso as conversas apenas visualizadas e as chamadas sem roteiro em meio a madrugada. “Como vai você?”, como flecha lançada para além das falanges que engordam o contingente para forçar-me acreditar que nunca seremos nós.

(Quero falar de um amor que só acontece nas suposições da narrativa, que de outro modo não seria possível devido ao individualismo e a crueza de um possível convívio entre os amantes. Então o narrador aprisiona o ideal de relacionamento dele nos termos que escolhe para satisfazer-se, assumindo que sempre manipulou as situações para possuir o que achava dele por direito. Até desistir de querer estar junto porque, sendo assim, perderia a única história de amor que lhe foi possível. Acho que é isso.)

Gostaria de dividir o mesmo apartamento e os mesmos remédios. Nossa dor é a mesma de acordo com o meu diagnóstico. Revezando-nos na tarefa de fazer o jantar até preferirmos o lanche da esquina, até preferirmos fazer as compras sozinho e trancar a porta durante o banho. Em um dia de maior inspiração te levaria um chocolate para materializar meu desespero ao não te encontrar mais como antigamente. Apaixonado pelo passado que resguarda o verbo dividir no vocabulário do nosso relacionamento.

Sequestrar é uma palavra deslocada quando você despir-me da minha fantasia. Em diversos momentos, desde que nos conhecemos naquele self-service: meu primeiro dia no emprego, com o melhor corte de camisa para ombros largos e costelas aparentes. Não apenas costelas; todo o meu tornava-se relevo diante da carga dos teus olhos. Em determinado momento acreditei estar com o rosto de ponta-cabeça, me dirigindo a você com cambalhotas ao invés de palavras. Por isso, tudo o que falei e a maneira equilibrista com a qual delineei meu caminho até os que nos rodeavam, foram encenações circenses, as quais não quero nunca contemplar.

Ah, como fui covardemente egoísta acreditando que você posava para meus retalhos de memórias caramelizadas. Teu corpo de perfil inclinado diante da tela de um computador, uma pequena mão convulsiva a clicar. Queria tanto saber o que lhe era de interesse! A franja que não descansava em cobrir-lhe as maçãs do rosto. Eu recortava esses momentos e guardava-os junto ao maço de cigarro escondido embaixo dos livros que carrego na mochila. Para mostrar a mim mesmo quando retornava para casa, o quanto me falta para ser maior do que o meu vazio. Em pé no vagão, sentindo o sono coagular em cada movimento corpóreo, invocando nossas conversas de horas atrás, contidas pela banalidade e infinitas pela tensão.

(Haviam assentos vazios.)

Revisitava essa imobilidade destacável, artigo raro para meu acervo, exposta no verso dos meus olhos sem tua prévia autorização ou participação de lucros inconscientes. Fazia-te minha antes de perguntar e sem ter ideia do quanto a concretude disso nos destruiria. Embebidos na fria conjectura de creditarmos à distância forçosa, nossa falta de felicidade no departamento ter-dar-receber. Ainda que no íntimo soubéssemos que no menor desequilíbrio entre estes termos rasurar-no-íamos. Não importa.

Como esfarelar a realidade aqui para que você entenda o quanto é bom ter você por perto?

Lembra-te nossa a noite que dura até a próxima palavra: colapso? Teu corpo no escuro contra o meu. Nenhum movimento adivinhado. Apenas. Até o estremecimento. Teu corpo no escuro contra o meu.

(Quem era você?)

Sintonia em que nenhum conhecido é capaz de entender-me. Talvez nem você e seja o caso de acariciar apenas aquela noite em si. Mas permite-me dizer que encontrei ali um lugar para a gente e tão meu que tento justificar picando-lhe palavras. Como o menino que não sabe escrever, mas faz poesia para a amada. Afinal, não reside nessas pretensões a nossa solidão? A minha, certamente.

Pois minhas mentiras não te convencem e eu sei. É por isso que não vamos ser. Eu não me iludo com o  real. Desfaço aqui algo para que eu tenha escombros no futuro, nos quais vou ler e salivar sobre essa história [de “amor”, por me faltar palavra que eu tenha maior receio].

Porque foi depois de ti que quis romper com tudo o que até ali me fora entregue. Uma vida adulta e cordial entre paredes brancas com quadros a pendurar. O crachá de cordão frouxo para eu não me enforcar. Obviamente porque testei-o na barra do coletivo que me levava ao trabalho, no primeiro dia em que não te veria no escritório após a demissão. Eu sorri quando os passageiros se afastaram. Eu sorri quando o motorista ameaçava chamar a polícia. Fui expulso ao acender o cigarro onde buscava as cinzas da lembrança dos teus lábios. E desembarquei como o mal exemplo de cidadão desequilibrado que permite-se banhar no caldo de tudo que não é tão relevante quanto bater o ponto a tempo.

Pois a história que acredito ter vivido contigo não poderia estar mais nítida, ainda que na escuridão das palavras aqui escolhidas. São remendos e solavancos de um comum existente apenas na eternidade das especulações. Ao acordar, ainda confundo minha respiração com a tua, teu corpo, com o que está ao lado, minhas convulsões, com o desejo de estar junto a ti.

Não me procure, caso tenha conhecimento dessa loucura, pois é o que mais desejo. Deixei de tomar os remédios para voltar a visitá-la onde um dia existimos e isso me basta. Quantos no mundo souberam o que é ter uma parte do outro escondida sob a vida que nos atravessa?

Vivi o que inutilmente chamam de “amor” e não quero sacrificá-lo para além destas linhas. Não te dou escolha ao fazer-te musa. E para mim está tudo bem.

Na ávida tentativa de satisfazer-me com a vontade de tê-la junto a mim.

(Em meu despir solitário ao lembrar-me de ti.)

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

 

impulsionar

por David Plassa*

Os cachorros latem
A minha desigualdade
Os portões tremem
Meu deságue em falsidade
O herói finge
Ter super-poder
A estrela que não brilha
Nem ao escurecer
O privilégio dado
Depois de confiscar
Sua mente frágil
Acredita em bem-estar

Ode à mentira
Porque ela nos faz vivos
Como títulos no lugar errado

Os velhos se esquivam de mim
Dou graças

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

avião de papel

por David Plassa*

Depois de tudo o que fiz
Eu posso ser feliz
E isso, não deveria ser uma pergunta?
Advertem-me os demônios
Costurados à pele
Pelos que mais o bem me querem

Depois de tanto atirar-me
Das mais belas paisagens
Sob o desalinho da rebeldia
Depois de tudo
Ainda posso ser feliz
Insisto e não desisto
Pois são as cicatrizes
Que convertem fracassos
Na força imanente do passado

Depois da noite insone
A luz vem para que eu escute
O azul calórico da respiração terrena
Tão minha, quanto ancestral
Tão indiferente, quanto consciente

Para dizer-me:
Você pode ser feliz
Mesmo ao teu lado
Confie-se

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

 

 

sobre possessões ou o ser que me escapa

por David Plassa*

no final do corredor
uma voz vai me encontrar
contra a minha vontade
apesar disso,
não tenho o direito de ficar parado

a voz me espera
enquanto distraio meus passos
para que não sintam
a indesejável solidão
de uma dor não compartilhável

a voz não reage ao meu choro
como voz, apenas desfila pelo ar
impermeável
inexplicável
voz que habita meu ser
e todo paralelo alucinante

não está nos ouvidos
pois, quando tapados
sinto os desafios lançados
cravando-se em cada centímetro de pele

a voz me embala, convulsivo
como se apenas ela fosse capaz de dizer:
— pílulas sempre serão rotas alternativas
para o final deste corredor

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

dizer que ainda que sem porquê

Recorte cotidiano sem urgência narrativa

por David Plassa*

Como um gato que não fareja a bílis
Como um gato que não percebe: depois do carinho poderia vir a pancada

Porque o gato respeita quem ele mataria,
[numa situação extremabsurda, bem mais fácil de existir do que nosso raciocínio sugestionável é capaz de conceber / fosse maior o gato, não teria porque tolerar-lhe]
com chance mínima de fracasso já na primeira tentativa.Meu gato sobre o tapete, sob o sol, obviamente uma manhã. Meu gato e um mexer de cabeça ginástico. Como se as paredes fossem entrar em convolução caso eu soubesse da verdade desse gato.

Eu sinto sentir, mas sou incapaz de sequer pronunciar essa ainda que nada sensação de algo cogumélico-realreal quase importante acontecendo em níveis felinos-perceptíveis. Porque não percebo como o gato, que representa tão bem a revelação momentânea em movimentos encefaloginásticos.

Eu assopro a cara do gato não sei por quê, se foi ele quem pediu ou se é apenas uma puta mancada. Ele fecha os olhos e vai com a cabeça para trás, até o limite possível e lentamente, possível e lentamente.

Embora incomodado, parece confiar em mim. Nesse caso, para a própria segurança/conformismo, o gato revisita nas pupilas quando dilatadas, a data, a causa e a cena que antecede meu último ciclo respiratório.

Como um gato que percebe o receio humano
Como um gato que percebe: após o delírio, biscoitos anti bola de pelo

Deixo o gato novamente sobre o tapete e ali ele começa a lamber-se viscoelasticamente, como que para escapar de alguma partícula alienante que porventura eu tivesse deixado sobre os seus pelos. E quando para e me dirige olhar. Quando para e me dirige olhar, intenta reforçar a contínua desconexão que atravessa os meus dias devido o déficit de consciência próprio sobre o real circundante não categorizado pela razão permissiva.*

*Digamos que o momento talvez “profundo” de determinada existência aconteça para alguns independente da íntima importância atribuída ao momento. E necessitemos de um encadeamento lógico de palavras obscuras para expressar a experiência, conforme parágrafo acima.**

**A pretensão de epifania desencadeada por comportamentos felinos instintivos lançaram-me em direção ao vazio que tento preencher com a supervalorização de uma situação descartável: um homem e seu gato/um gato e seu homem na sala de estar de um apartamento (agora citado), onde, para o discurso indireto livre, apenas o citado [clichê]vazio emergia, tanto da psiquê dos personagens quanto do cenário absolutamente comum:

  1. tapete empoeirado (a olho nu, sem poeira);
  2. sofá rasgado nos dois braços pela necessidade gatuna de afiar unhas;
  3. mesa de jantar para até quatro pessoas com vaso de planta sobre toalha de renda posicionados ao centro;
  4. estante com enfeites, vasos de planta, TV, aparelho DVD, CD’s mais DVD’s enfileirados e poeira (nesta superfície, visível há mais de três meses);
  5. mesa de centro, mas realocada no canto do cômodo para esquecimento de revistas, receitas médicas e contas pagas ou não;
  6. par do que parecem ser meias embaixo da mesa do jantar.

Temperatura ambiente: 19°C. Possibilidade de suicídio: 7%.

Da janela da lavanderia

— Edson, vai pra cama, Edson, pelomordeDeus!

Quero ter aquilo que não vai chegar
Para assumir-me:

Incompleto,                   Desconexo,
por dentro                     por fora

Esperar me mantém “economicamente viável”

Como um gato que não fareja a bílis [coro]

O gato dispara corredor adentro. Tapete revirado. Ausência. Ausência é palavra que se basta. Ausência do quê? Ausência.

Do que me resta: deito no chão para começar a rastejar. Barriga para baixo, em direção ao corredor. Barriga, joelhos, peito do pé, sexo, queixo. Certamente, muitas outras partes também, mas as descritas são as que mais me doem ou geram incômodos.

O corredor é o caule por onde se ramificam todas as outras partes do apartamento e onde procuro instalar-me ao centro, sobre outro tapete revirado por patas ágeis. Viro-me de costas para o chão, duro como a vida foi-me apresentada pela dor do outro, que usa a aridez do concreto como cama possível. E eu, ainda que contrariado, devoro a culpa como um luxo proveniente do privilégio não conquistado.

Da janela da cozinha (também de lá)

— Edson, você bebeu de novo! São onzedamanhã, Edson, Onde isso vai parar, filho da puta?

Como um gato que percebe: após o delírio, biscoitos anti bola de pelo

Toco meu corpo, as paredes, começo a me masturbar, espremendo pálpebras. O gato assiste, parado em frente à porta do banheiro de azulejo floridos (informação irrelevante). Não penso no gato. Penso em seios que chegaram até mim em mulheres que nunca terei. Termino e permaneço sob teto de tinta branca, dali debaixo cinza.

Sábado, dez do seis de doismil e dezessete.

Temperatura ambiente: – -. Possibilidade de suicídio: 26%.

Escuto a chuva lá fora. O bater do meu coração esqueci como escutar. Sei que bate desde que me disseram. Foi a chuva lá fora que me fez pensar. Não no coração, mas na cebola: preciso comprar cebolas para fazer o arroz.

O gato, cadê o gato?

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

amor impróprio

por David Plassa*

viver à margem
é não encontrar-se
em mais ninguém

discar um número
desligar em seguida
pedir um soco
recebê-lo de si mesmo

a obsessão pelo vazio reparador

aceitar
termos e condições de uso
vigilar
sobre travesseiro de poliuretano antiácaro
manter
inibidores seletivos da recaptação de serotonina

e ainda assim constatar
os descalços
não frequentam hamburguerias

agora sabe

[sabes,
que teus privilégios não evitam a cicatriz
da dura verdade
de que nenhum deus gosta de ti

e verás a tua responsabilidade:
— sê desviante diante de uma enferma sociedade]

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, finge escrever um romance desde 2015 e mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve às quintas.