ele entrou no nosso quintal

por Ana de Oliveira*

Eu o vi entrando no nosso quintal. Limpando os sapatos imundos no nosso tapete. Arrastou os seus pés até a minha cadeira de plástico e, com a coragem de quem poderia matar o Papa, sentou-se nela. Como se fosse convidado de honra. Ele era o seu convidado, e o meu conhecido de escola. Eu gostava dele porque éramos parecidos, e se fôssemos parentes não seríamos tão iguais. Até hoje não sei se era a semelhança dele comigo ou se foi só ato em si que me fez desgostá-lo.

Você o cumprimentou calorosamente, o que me fez perguntar se ele era o nosso mais novo melhor amigo e eu ainda não sabia. Não havia motivo para que você o recebesse como me recebia. Eu vi a vivacidade em você que só tinha visto uma vez na vida, um ano atrás, quando nós nos conhecemos. Fiquei intrigado. Me senti não só idiota, mas também um estrangeiro no meu próprio quintal — que nós dois construímos com coisas só nossas.

Ele se espreguiçou na minha cadeira, pôs uma perna por cima da outra, e aceitou uma bebida que você ofereceu. Ele agradeceu com um sorriso meio parvo, e convidou-lhe para sentar-se ao lado dele. Rezei para que a sua resposta fosse não — mas só por ciúmes. Você disse sim, e sorriu. Um sorriso que eu costumava conhecer, e que me fez reparar que há muito tempo eu não o via.

Vocês começaram a conversar, e com muito custo soube que o assunto era Senhor dos Anéis. Um assunto que eu não dominava, porque nunca gostei dos filmes. Nem dos livros. Eram grandes e tediosos demais. Tenho dificuldades para entender e gostar de histórias com um universo muito grande. O meu ciúmes cresceu mais. Ele estava a lhe dar o prazer de conversar um dos seus assuntos favoritos. E mesmo que eu me esforçasse para fazê-lo, não seria a mesma coisa. Não obstante, ele levantou-se e mostrou-lhe a tatuagem que fez sobre o filme, o desenho do anel estampado no peito. Os seus olhos cresceram, porque ele era “fã de verdade”.

Rolei os olhos e tentei fingir que não estava ali, remoendo ciúmes e imaginando coisas que eu jurava não fazer sentido pelo fato de você me amar. Você não me trocaria por ele, só porque ele leu uma meia dúzia de livros mais grossos que a Bíblia. Você não faria isto, faria?

Voltei da cozinha, com uma caneca cheia de chá, na esperança de que o meu coração descompassado desacelerasse pelo menos um pouco. Psicologicamente, ao estar consciente de que chás melhoram o nosso humor, pude sentir alguma coisa em mim transmitir calma. Sentei-me noutra cadeira de plástico. A sua cadeira de plástico, que costumava estar ao lado da minha.

Meu coração começou a se acalmar, e eu pude sentir o meu corpo menos pesado. Não tantas batidas por minuto, eu fiquei bem. A minha atenção voltou à conversa de vocês quando ouvi-o dizer Star Wars. Eu sorri, porque deste assunto você não gostava. Se ele achava que vocês continuariam a trocar figurinhas numa tentativa injusta de tirar você de mim, ele estava enganado. Você sempre reclamava comigo quando eu falava com entusiasmo sobre como Star Wars era maravilhoso.

Não sei como aconteceu, mas meu coração e eu descarrilhamos. De uma vez. Parecíamos capotar num barranco, sendo atingidos por todas as pedras do caminho. Tudo isso porque você sorriu e disse que gostava, também, de Star Wars. Você nunca foi de mentir às pessoas só para se sentir parte de algo. Eu sabia que você tinha visto os filmes. Descobri por causa dele, da conversa de vocês, que o seu personagem preferido era a Padmé. E o dele, Obi-Wan Kenobi. Você tinha visto Star Wars. Sem mim. Sem comentar comigo, sem me chamar para conversar sobre um assunto que eu não só adorava, mas que também queria compartilhar com você. Você tinha visto Star Wars e tinha um personagem favorito. Você não quis falar de Star Wars comigo, mas quis com ele.

Chega. Levantei-me bruscamente para sair pelo corredor da lateral da nossa casa, sem que eu fosse visto. Escorreguei e tropecei, quase caindo, no caminho. Mas o barulho da minha falta de atenção não despertou nenhum dos dois da conversa animada e viva que vocês estavam tendo. Olhei para trás uma última vez, só para ver você dar aquele olhar para ele. Não era um olhar apaixonado, mas era o olhar que você dava quando conhecia alguém interessante. A paixão vinha depois.

Fiquei fora de casa por oito horas. E você parece não ter se dado pela minha ausência nem por um segundo. Voltei ao quintal, e ninguém estava mais lá. Vi as marcas de um dia interessante. Latinhas de refrigerante. Você odeia refrigerante. Um prato com restos de batata frita e pedaços de pizza. Você sempre me disse que esta era uma péssima combinação para a saúde. Meus CDs do Green Day junto ao aparelho de som. 21st Century Breakdown estava na pausa. Você nunca gostou da voz do Billie Joe Armstrong e sempre disse que ele não tinha talento. E, por último, e mais dolorido, nenhuma mensagem, nenhuma chamada perdida no meu celular com o seu nome. Eu tinha praticamente fugido de casa por oito horas e você lidou com isto como se eu tivesse ido comprar pão na esquina.

Você me abandonou junto com a cadeira que costumava ser a sua favorita, sempre ao lado da minha. Você me abandonou junto com tudo o que você era comigo e que hoje já não é mais. Você me abandonou com as esperanças que me deu, mas que me obrigou a matá-las. Uma por uma, lentamente, porque sempre adiava a decisão que obviamente teria de tomar. Você não me queria longe, mas também não me queria por perto. Queria que eu estivesse em banho-maria, porque não tinha coragem de me dizer não. Você nunca pensou como eu me sentia por ser a sua segunda-primeira opção. Nunca imaginou o que o abandono fez comigo.

A nossa distância aumentou. Tolo eu fui de pensar que tudo estava bem. Você não queria mais estar no nosso relacionamento e eu sequer percebi. Você agora é a garota que adora Star Wars e Green Day, e que não se preocupa comigo, ou não se dá pela minha falta. Você não é mais a garota que ligava para a minha melhor amiga atrás de notícias minhas quando o meu celular acabava a bateria eu já estava mais de cinco horas fora de casa. Você não quer (mais)saber de mim.

Um dia daqueles, a minha ansiedade me consumiu. Fui pra casa, a minha casa, e quis uma conversa sincera com você. Perguntei o que estava acontecendo, ou o que tinha acontecido, porque uma resposta era o mínimo que deveria existir. Nós éramos namorados e eu estava totalmente por fora do que estava acontecendo com a minha namorada. Você negou, e disse que nada acontecia. Desisti da conversa.

Outro dia daqueles, perguntei sobre o seu dia. Você disse, desanimada, que foi a mesma coisa de sempre. Horas depois, a ansiedade começou a me desfigurar. Perguntei o que estava acontecendo, ou o que tinha acontecido, porque uma resposta era o mínimo que deveria existir. Você não negou. Disse que estava difícil segurar toda aquela situação que era namorar alguém cujo é odiado pela sua família. Sua família nunca gostou de mim, e nunca fez questão nem de disfarçar.

Pensei, então, nele. O homem que a sua família teria o prazer de conhecer. Eu disse a você que ele a sua família adorava. Esperei a sua negação e você tentar explicar que não era bem assim. O que não aconteceu. Porque era bem assim. No seu silêncio e no seu olhar, eu soube que a sua família já o conhecia e, adivinha só, o adorava. Quando eu enterrei as minhas mãos nos meus cabelos, num gesto de desespero e cansaço, você tentou amenizar as coisas ao dizer que queria ter feito comigo tudo o que fez com ele. Não fiquei melhor depois disso. Se não era eu a lhe trazer conforto e felicidade, então deveria ser outra pessoa. Não exatamente ele, porque ele já estava chateando uma amiga minha — e ela achou que, por estarem ficando, ele a levasse a sério.

Fui embora e disse que não dava mais. Eu já tinha ficado tempo demais para saber que ele agora tinha uma parte de você, um laço inquebrável, uma desculpa eterna para estar por perto. Ele não ligava para isso, mas não era idiota ao ponto de não assumir o que tinha feito. O que só me fez pensar que ele não merecia ter o que tinha. Ele não merecia ter uma família, não convencional, com você. Injusto. Injusto porque nenhum afeto, nenhum amor que eu nutria por você seria suficiente para que eu tivesse um laço eterno ou que fosse parte da sua família. E ele só precisou de um momento da nossa fraqueza para ter tudo que eu mais desejava. Não importava o quanta importância eu desse para nós, porque eu era apenas uma lembrança, que jamais passaria pela sua cabeça, porque você estava ocupada demais com a nova vida que vocês geraram.

Meses depois, já desfeito pelo álcool e pela agressividade que tomou conta de mim, mudei de país, de curso, de número, de namorada, de roupa, de gosto, de vida. Um dia me contaram que a cada sete anos as nossas células são destruídas e substituídas. Senti-me feliz por saber que, um dia, eu serei o corpo que você nunca tocou.

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*Ana de Oliveira é amante da língua francesa e quase todas (não se pode dizer todas) formas de arte e comunicação. Tem a escrita como parceira desde os oito anos, mas foi aos 14 que começou a compartilhar suas ideias. Colocou na cabeça de que o céu é, realmente, o limite. Mas só porque tem medo de altura. Um dia, ela vencerá suas limitações, ou não se chamará mais Ana de Oliveira. Ana escreve quinzenalmente aos sábados.

14 de fevereiro não foi por coincidência

por Ana de Oliveira*

Ao longe, você avistou uma figura que, graças às regras da perspectiva, era pequena. Conforme você foi andando, indecisa sobre qual pose fazer para alguém que nunca viu na vida, a figura foi aumentando de tamanho. Já era o seu décimo encontro, e as suas esperanças em conseguir criar um laço com mais de três encontros iam se esvaindo — entre os seus dedos mesmo, para parecer mais cruel. Parecia que ou você não era interessante suficiente, ou você só gostava das pessoas erradas.

Desta vez não parecia assim. Não parecia que era um encontro bobo, não tinha cara de coisa sem futuro. Entretanto, você, muito distraída em prever o futuro com base no passado, não notou isto. Estava conformada que aquele encontro fosse apenas mais um na lista numerosa lista, e nada lhe tirava da cabeça que seria só isto. O que era uma pena.

A figura pequena tornou-se grande, em tamanho real. Você notou que ele sabia se vestir para lhe convencer que tinha charme. Você sempre dizia que escolher uma combinação de roupas não era para ser tão difícil, porque não é, mas que algumas pessoas conseguem tornar isto um desafio. Ele, o homem do aplicativo, não tinha a menor dificuldade de se vestir bem suficiente para lhe arrancar um sorriso.

Tudo o que vocês dois planejaram para dizer ou fazer foi por água abaixo. Na frente de um museu de arte contemporânea, o primeiro gosto em comum de um futuro casal, haviam duas pessoas que tinham perdido a habilidade na arte de cumprimentar-se. Entretanto, ainda dominavam a capacidade de sorrir discretamente. Você não o viu sorrir, porque estava ocupada em esconder o próprio sorriso.

Mal entraram no museu, e já sentiram o calor que lá fora não existia — coisa de inverno. Como se estivessem sincronizados, tiraram os seus casacos, pesados demais para amarrar na cintura. Você se distraiu rapidamente com ele, só conseguindo pensar em como ele ficava bem de camiseta preta — de manga longa, fazendo você se perguntar se os braços dele eram tão bronzeados quanto os seus.

No primeiro encontro é suposto haver muito assunto para se conversar, porque é óbvio que não sabem muito um do outro. Mas você conseguiu perder todas as perguntas que queria fazer, como se elas tivessem pernas próprias — e não tinham, mas fugiram mesmo assim.

Você não sabia se ele passava pelo mesmo problema, o que provavelmente era certeza, porque ele começou a puxar assunto sobre as obras contemporâneas demais para o gosto dele. Você devia admitir a si mesma que era engraçadinho vê-lo “indignado” com artistas que pintavam tão pouco, mas valiam tão muito no meio artístico. Era engraçado porque parecia sério quando ele falava que não sabia por que as pessoas acham tão genial uma tela rabiscada aleatoriamente. Ele se virava na sua direção, mil e uma vezes, só para dizer que também conseguia fazer aquilo. E você ria e concordava, sendo tão espontânea, a ponto de não se dar conta de que estava se apaixonando.

Ao fim de uma excursão pelo museu que parecia nunca mais acabar, ele fez questão que saíssem pela saída lateral, e quando o rio apareceu no seu campo de visão, você sabia que fariam uma das poucas coisas que você sabia que ele gostava: andar junto ao rio. Você sorriu, porque diferente das pessoas com quem você tinha saído, ele estava visivelmente se esforçando para aquilo dar certo. Mesmo que isto talvez não fosse exatamente um grande esforço, e sim um prazer.

Em pouco tempo, você soube muito. Ele era inteligente, gentil, e parecia lhe compreender na medida que você precisava ser compreendida. Você ainda não sabia se isto era por empatia ou gentileza demais, mas mesmo assim era um detalhe válido que permitiu que você se esquecesse dos fracassos amorosos, e dedicasse aquele dia a ele.

No fim do dia, depois de andar quase a cidade inteira, coisa que você só fez de bom humor porque estava na companhia dele, você percebeu que aquilo estava dando certo. E você percebeu, também, que havia se esquecido de torcer contra o encontro, jurando que era melhor estar sozinha — porque se acostumou demais com a solidão. A sua face irônica, que ao mesmo tempo que queria que desse certo, estava feliz por dar errado, foi embora. Você estava sendo você mesma — e mais um pouco. Naquele dia, você pôde ser o que as adversidades da vida lhe roubaram.

Ao lado dele você pôde admitir que sentia falta de falar francês; e que fazia uma coleção de chapéus — e de coleções; você pôde sentir falta da sua antiga faculdade, a sua primeira casa no mundo; você pôde expressar o seu gosto por futebol e videogames; você pôde falar de onde veio, sem sentir vontade de sumir; você pôde sentir vontade de estar em família, algo que sentia falta, mas que era complicado admitir. Ao lado dele você desejou que aquilo desse certo, porque queria se sentir bem pelo resto da vida. Queria que todo dia tivesse gosto de satisfação e paz. Você se apaixonou por ele, e mais ainda pelo que você era quando estava com ele — e mais tarde ia se apaixonar pelo que ele dizia e enxergava de você.

Admita, você gostou dele porque ele tinha cheirinho de casa nova, e cara de lar familiar. O primeiro beijo, não na boca, mas sim na sua cabeça, era as suas boas-vindas. Naquele momento, você podia não saber, mas já estava em casa. Seja brincadeira do destino, ou seja desculpa romântica, 14 de fevereiro não foi por coincidência.

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*Ana de Oliveira é amante da língua francesa e quase todas (não se pode dizer todas) formas de arte e comunicação. Tem a escrita como parceira desde os oito anos, mas foi aos 14 que começou a compartilhar suas ideias. Colocou na cabeça de que o céu é, realmente, o limite. Mas só porque tem medo de altura. Um dia, ela vencerá suas limitações, ou não se chamará mais Ana de Oliveira. Ana escreve quinzenalmente aos sábados.

seu livro na minha mochila

por Ana de Oliveira

Meu estômago embrulha quando lembro que tenho seu livro dentro da mochila. Lembro de cada palavra que você escreveu no verso das duas capas — na da frente e na de trás. Uma letra desconforme, sem uma linha de raciocínio lógico, que não sabia se era cursiva ou de fôrma. Poucas eram as diferenças entre as maiúsculas e as minúsculas. Não sei como eu conseguia suportar toda essa sua irregularidade, que não se limitava apenas à sua letra.

E é aí onde mora o problema.

Você nunca foi alguém com certezas. Nunca teve princípios fixos e sempre esteve propensa a mudar. Mudou muito, mudou tanto quando eu cheguei. Entretanto, eu me senti seguro. Me senti não só aceito, mas amado. Senti o que eu nunca senti e o que sempre desejei. Me deu os melhores e mais simples presentes; me compreendia, mesmo depois de uma longa discussão. Sua qualidade era saber parar de bater na mesma tecla. Preservar o que tínhamos.

Mas você fez isso de modo errado.

Quis nos colocar dentro de um pote cheio de formol. Quis parar toda a sequência de dias e tentativas para chegar ao ponto ideal. A intersecção traçada, mas o ponto ainda sem lugar — mesmo que parecesse óbvio onde ele devesse estar.

Os pensamentos certos, cheios de ações erradas.

A mágoa sufocada que um dia não pôde ser domada e escapuliu por entre meus dedos.
O rebote cheio de amor e remorso. A necessidade de machucar. A visão turva e a maldita miopia. O envolvimento de pessoas tão alheias à nossa situação, à nossa história. Personagens que nem deveriam estar ali, por motivos de segurança. A vida mudada a cada dia, a cada escolha e a cada beijo dado em outras pessoas. A cada queda de amor por alguém que nunca imaginamos amar.

É aí que me pergunto: onde deveríamos, de fato, estar?

Graças a você, eu nunca sei qual é o lugar que me pertence. Duvido do óbvio e vejo o que não existe. Estou lhe culpando porque esta é a única coisa que me restou de você. A culpa que você tem e sempre terá. Não se iluda; parei de lhe apontar o dedo, mas minha mira continua em você. A dor continua vindo de você. Meu alvo ainda é você. Não baixarei a guarda. Não enquanto estiver com risco de ser extinto pelos próprios sentimentos.

Luiz, poderia explicar para a Carla sobre o passé composé com o verbo être? ouço um som familiar. Você explicou très bien aula passada.

Levanto a cabeça. É a minha professora.

Beberico um pouco d’água e pigarreio. Explico o que para mim é óbvio, porque a matéria faz parte do currículo básico de qualquer curso da língua francesa. Tento explanar o porquê da casinha que a professora desenhou no quadro e como aquele desenho ajudaria na compreensão do tempo verbal. Não me dou muito bem. Falar francês quando acabo de sair de um transe é exigir demais de mim. Não consigo conectar algumas ideias e acabo me esquecendo de alguns detalhes.

A professora me olha com um ar de sabe-tudo e entende que não estou bem. Quase posso vê-la arrependida de tirar-me do meu mundo e pedir que eu me expressasse em sala quando não estou nos meus melhores dias. Eu falo bastante durante as aulas e é fácil perceber quando algo está errado. É quando eu erro a conjugação dos verbos e quando fico calado demais. Já estamos quase no fim do semestre e ela deveria saber disso. Que desse jeito, não me sinto em paz.

Assim que termino de explicar, saio com a minha garrafinha d’água, um péssimo disfarce. Ela está cheia de líquido e ninguém acredita que vou enchê-la. Mas a verdade é que preciso dela para refrescar minha mente e minha garanta que está bem seca. Assim que saio do laboratório de informática, e do pequeno conjunto de salas, sou muito bem recebido pela brisa do clima fresco e frio.

Abraço a mim mesmo, tentando me esquentar e não praguejar tanto por ter saído de casa com apenas um cardigã. Minha jaqueta jeans e meu cachecol me fazem falta. Mas ainda assim consigo me sentir bem ao caminhar no campus. Sentir alguma coisa, além daquilo que varro todos os dias para o fundo da mente, é bom. Me distrai.

Mas não é como se eu fosse me esquecer daquilo que eu guardo dentro da mochila. O livro dela. Eu nem estou lendo-o. Nem sei do que a história se trata; nem sei nada além da capa borrada e muito bem trabalhada; não tenho curiosidade para devorar cada página. Prefiro que ele permaneça assim, quase intocado. Apenas com as capas da frente e de trás mexidas, de tanto encarar a letra dela.

Prefiro que me esqueça, para que eu nunca mais volte para você. Prefiro que eu lhe esqueça, para que você nunca mais volte para mim. Não me sinto pertencente a você, não me sinto preso a nada do que vem assaltando meus pensamentos. Só sinto que… você é uma das minhas melhores lembranças. Que devem permanecer assim, sendo lembranças, tão intocadas quanto as páginas do livro que você me deu.

Em um dado momento, a minha visão fica turva e é tão torta quanto os ventos que me abraçam. Continuo a caminhada pelo campus, cada vez mais sendo guiado pela própria intuição que felizmente é muito boa. Sei onde isso vai dar. Num lugar totalmente alheio ao que devo estar, provavelmente em outro prédio, achando que minha aula é outra.

Até que meu coração para. Alguém puxa todos os fios da máquina que eu sou. Encaro ela, o meu fantasma. Passa por mim como se quisesse me ignorar, mesmo sabendo que não pode. Os olhares que trocamos são tão reais que não consigo duvidar da veracidade dessa cena. Não pode ser coisa da minha cabeça.

Abruptamente, meus fios são reconectados e torno a caminhar. Dou voltas e voltas. Acabo parando, não sei como, no corredor da sala onde eu deveria estar. Deveria estar anotando as dúvidas que meus colegas insistem ter. Deveria ouvir as piadas da minha colega e ouvi-la dizer o ‘come on’ da língua francesa on’y va. Deveria estar me culpando por sempre me esquecer de comprar um dicionário francês-francês, ao invés de ficar usando um francês-português.

Paro imediatamente quando percebo que andei demais e sinto minha garrafinha mais leve ao contrário de mim, tão pesado. Suspiro e fecho os olhos. Fico assim por um bom tempo, até abrir e encontrá-la. Me olhando com ares reveladores, com indiscrição e afinco ao tentar claramente me desvendar. Caminho para tocá-la, ao menos um abraço.

Luiz!

Mais uma vez pescado para a realidade.

Quando viro meu corpo ao tentar responder o chamado, sinto minha visão nítida. Como quando o sol tira o lugar de um céu nublado. Não é ela e sim Murilo. Ele vem até mim e percebo que carrega minha mochila.

Você tá bem? ele pergunta, mesmo sabendo que a resposta é não.

― Não muito, estou um pouco enjoado.

― Então vai pra casa. A aula já acabou. Eu anotei algumas coisas para você, no seu caderno. Dá uma olhada depois. Quer companhia? Não creio que seja bom você pegar ônibus sozinho.

― Não precisa, eu quero ficar um tempo sozinho. Obrigado, de todo modo. E sim, vou dar uma olhada nas suas anotações. Obrigado de novo.

Recolho tudo e saio para o lado oposto. Descubro que ela não está lá, como antes estava. Outro transe, talvez. Ou então saiu para tocar sua vida. E deste mesmo modo, eu estou fazendo, tocando a minha. Não vejo motivos para remexer nos ajustes do destino. Se ele quis assim, é por razão maior. Pode ser que as pessoas que nos acompanham sejam aquelas que vão estar conosco pelo resto de nossas vidas, amando-nos como merecemos. E eu não quero perder isso. Não quero perder uma vida que sempre quis só porque vi uma curva na estrada.

2016 (simplificado)

por Ana de Oliveira

O ano que não foi substantivo e quis ser advérbio só para modificar nossos verbos e adjetivos.

O ano da urgência, que acontece agora.

O ano das interjeições e dos palavrões;

Das transformações.

O ano que não perdoou os desavisados e os distraídos;

Que derrubou quem olhava para trás.

O ano que fez marcas onde não devia só porque tocou-nos com toda a sua falta de gentileza;

O ano do desapego e do desespero;

Com mais um dia só para mais um “oh!”

O ano que fez-nos cair para ensinar-nos a levantar;

E ficar de pé.

O ano da coragem forçada. Da mentira com cara de verdade.

O ano da brutalidade incompreendida;

Que procurou justificar os meios pelos fins.

O ano que foi o que 2015 não teve coragem de ser.

Foi transformador.

Foi 2016.

Feliz Ano Novo.

de manhã acordei e percebi que deveria deixar você

por Ana de Oliveira

Das péssimas desculpas que eu poderia dar, esta é a pior:

De manhã acordei e percebi que deveria deixar você.

O sol me acordou novamente com o reflexo atingindo meu rosto. Seus braços ainda estavam em minha volta e me seguravam de maneira frouxa, sem forças. Observei suas feições tranquilas e pacíficas, talvez conformadas com nosso óbvio destino. Você, ainda que chorasse, não precisava mais de mim. Você se tornou alguém tão grande que pude jurar que alcançaria o céu apenas levantando o braço. Às vezes, nem precisava levantar.

Você era alguém simples mas predestinado a coisas enormes. Alguém que não desejava comer comidas caras, mas que de um dia para o outro estava comendo o prato mais caro do seu restaurante preferido simplesmente porque fazia parte da sua rotina. Você cresceu de uma forma tão grande que ninguém parecia conseguir lhe tocar ou ser suficiente o bastante para você.

De certa forma, sempre admirei a predileção que o destino tem por você. Sempre gostei o jeito que as coisas mudam de lugar e reviram só para que você possa brilhar mais ainda. Isso nunca me causou inveja, mas talvez medo. Medo de que a agitação natural da sua vida chegasse até mim. Medo de que o seu destino apontasse o dedo para mim e dissesse que eu precisava ser substituída, que eu já não bastava. E sempre soube que esse dia iria chegar.

Me levantei e tentei me desvencilhar dos seus braços da maneira mais gentil que encontrei, enquanto escutava sua respiração calma. Você nunca teve pesadelos dormindo comigo. Ignorei meus chinelos e andei pelo ambiente, que conheço há muitos meses, descalço. Parei na cozinha. Abri o armário e peguei o seu cereal preferido – aquele com um esquilo astronauta desenhado na caixa. Enchi uma tigela e comecei a comer.

Nesse momento parei pra pensar: eu deveria deixar você. Deveria deixar as coisas acontecem na sua vida e parar de lhe segurar aqui. Deveria parar de insistir numa relação que não é nada perto de tudo que você vai ganhar. Meu bem, você ganhará o mundo enquanto a única coisa que eu posso lhe dar é meu coração errante. A única coisa que posso oferecer todos os dias é uma rotina de alguém comum, que não se importa se a vida cair na mesmice. De alguém que não vai pagar a sessão premium do cinema. De alguém que não vai comprar o carro do ano, simplesmente porque se contenta com o de anos atrás. De alguém que sequer se importa se a cor do travesseiro combina com a do cobertor.

Quando menos esperei, chorei. A lágrima tímida que caiu e marcou meu rosto há um minuto era choro. Não pude negar, chorei a partir do momento que meus olhos ficaram molhados. E agora, vermelhos.

Não era pra ser assim. Não era assim que eu queria. Eu queria lhe prender à minha rotina familiar, aos objetivos mais simples e menos ambiciosos. E embora você não ligue nem para dinheiro, nem para fama ou até mesmo viajar mundo afora, eu sei que não é isso que você merece. O que eu quero dizer é que não é assim que deve ser porque é tão injusto e violento prender um pássaro que pode voar tão alto.

Você pode alçar voos maiores e não serei eu sua corrente.

Voltei para o quarto e lhe observei dormir. Por muito tempo. Respirei fundo e chorei mais um pouco. Não havia mais nada a fazer. Eu lhe amo, lhe amo a ponto de doer. Mas não serei feliz, nem conseguirei lhe fazer feliz, se lhe abraçar e querer lhe prender sabendo que você precisa conquistar coisas maiores do que nós dois.

E foi assim que eu acordei, com o coração partido e feliz ao mesmo tempo, e percebi que deveria deixar você.

querida nina

por Ana de Oliveira

Acabou que não deu certo. Eu não vou mentir. Não deu certo, e nós sabemos. Mas eu não vim ditar o óbvio para você. Eu vim dizer ‘oi’ com gostinho de despedida. Eu vim ficar indecisa ao sair porta afora. Vim ficar entre o ‘sim’ e o ‘não’. Vim depois de ponderar demais, daquele jeito que você faz, na intenção de ser justa e de não machucar ninguém — aprendi isso com você.

Eu nunca soube me despedir das pessoas. Nunca aceitei partidas que não fossem de acordo com nossas vontades, acho que você sabe disso. Nunca fui de me conformar. E não vai ser agora que irei fazê-lo. É exatamente por isso que esta carta de despedida não pode se parecer como se fosse uma. Precisa se parecer como uma pergunta inocente sobre como você está.

Acima de tudo, quero que você seja feliz, de verdade. Quero que consiga alcançar tudo o que quer e que não alcançou por alguma mudança de planos. Quero que o anel no seu dedo ainda signifique alguma coisa mesmo depois de muito tempo. Mesmo que você acabe perdendo-o, pelo desgaste ou pela distração. Quero ainda ter a chave do seu coração. Só pra ficar guardado mesmo. Só pra ter o título de alguém que é motivo de seus sentimentos. Porque eu sei que não é justo que eu queira mais uma chance depois que o tempo passar. Eu sei que não devo fazer você dar marcha à ré. Vou me contentar, então, em ser aquela que você mais amou.

Eu sei que está parecendo que vou morrer ou que nós nunca vamos nos falar novamente. Mas isso é só um backup, para ter certeza de que você sabe de tudo. Você precisa saber de tudo. Precisa saber que eu irei te carregar comigo da mesma forma que levo seu colar pendurado no meu pescoço. Eu não que nenhum mal-entendido nos separe da verdade e de uma vida que deve ser vivida sem interrogações ou arrependimentos.

E só para constar, eu entendi a mensagem disso tudo. Sei que não somos menos uma história de amor do que outras só por termos um fim. O que acontece é que, talvez, nossa história fosse muito curta para ser vivida numa vida inteira. Talvez, não coubesse. Entendi que livros com menos de cem páginas também possuem coisas relevantes a dizer. Você tinha muitas coisas a me ensinar, não importasse como fossem elas, quanto fossem ou quanto tempo você ficaria.

Ainda tenho medo do futuro, eu confesso. Sei que somos nós que o fazemos. E é justamente por isso que temo. Eu sempre fiz besteiras, você sabe. Sempre atirei antes de mirar. É por isso que essa carta é tão importante, Nina. Essa carta é o botão de emergência. Eu sei que ela pode não valer muita coisa daqui uns anos, por conta de nossas mudanças. Mas eu peço, encarecidamente, que a considere vitalícia. Dificilmente você sairá de mim. [Quase] Impossivelmente me esquecerei de você.

Portanto, tudo aqui escrito serve como resposta e base para você tirar suas conclusões. Não importa o quanto eu mude ou cresça. Não importa o que aconteça, quantos sonhos eu ou você realizemos, quantas vezes ainda vamos cair ou chorar; não importa quantas pessoas ainda vão passar por nossas vidas, quantas de nossas certezas ainda serão mudadas. Não importa e jamais importará. São essas palavras que valem, pois foram escritas no auge da minha razão. O que conta é o que somos agora. Porque se terminamos isso hoje, vou terminar assim, com essas palavras, mais válidas do que qualquer outra coisa que eu tenha dito. Releia sempre que se perguntar se eu ainda a amo. Porque eu ainda te amo.

Só para diminuir seu medo, claro que vamos nos ver. Talvez a gente se esbarre e comece a trocar palavras sobre os anos que nos separaram. Talvez eu te convide para um café e proponha a loucura de embarcar comigo outra vez como foi agora — só que melhor. Talvez eu preserve tudo isso e não queira mexer em nada. Mas não se preocupe, iremos ficar bem no final das contas, seja como for.

Obrigada pela paciência, pela perseverança, por ser minha heroína. Por me salvar incontáveis vezes, por aceitar me amar mesmo de longe. Pela sabedoria que eu jamais alcançaria sem você, pelos sorrisos em meio ao caos. Obrigada por brigar com quem brigou, por chorar quando não aguentou e por ser sincera quando precisou. Finalmente eu sei como é amar. Sei como é a sensação. Está longe de ser o que eu achei que seria, mas é bom ainda assim. Amar é estar com o outro impregnado e tatuado. Amar é se sentir sortudo mesmo de longe; é ser parte de alguém. Obrigada por me deixar ser parte de você. Principalmente por ter sido uma de suas poucas certezas. Nunca conseguirei agradecer o suficiente, mas não me sinto mal com isso. Faz parte do conjunto que recebi quando me dei conta de que amava — e amo — você, o suficiente para aceitar que não me livrarei da nossa história.

Mais experiente e paciente do que antes, eu.

ps. Só pra você saber: ‘Stolen Dance’, do Milky Chance, é a nossa última música.