14 de fevereiro não foi por coincidência

por Ana de Oliveira*

Ao longe, você avistou uma figura que, graças às regras da perspectiva, era pequena. Conforme você foi andando, indecisa sobre qual pose fazer para alguém que nunca viu na vida, a figura foi aumentando de tamanho. Já era o seu décimo encontro, e as suas esperanças em conseguir criar um laço com mais de três encontros iam se esvaindo — entre os seus dedos mesmo, para parecer mais cruel. Parecia que ou você não era interessante suficiente, ou você só gostava das pessoas erradas.

Desta vez não parecia assim. Não parecia que era um encontro bobo, não tinha cara de coisa sem futuro. Entretanto, você, muito distraída em prever o futuro com base no passado, não notou isto. Estava conformada que aquele encontro fosse apenas mais um na lista numerosa lista, e nada lhe tirava da cabeça que seria só isto. O que era uma pena.

A figura pequena tornou-se grande, em tamanho real. Você notou que ele sabia se vestir para lhe convencer que tinha charme. Você sempre dizia que escolher uma combinação de roupas não era para ser tão difícil, porque não é, mas que algumas pessoas conseguem tornar isto um desafio. Ele, o homem do aplicativo, não tinha a menor dificuldade de se vestir bem suficiente para lhe arrancar um sorriso.

Tudo o que vocês dois planejaram para dizer ou fazer foi por água abaixo. Na frente de um museu de arte contemporânea, o primeiro gosto em comum de um futuro casal, haviam duas pessoas que tinham perdido a habilidade na arte de cumprimentar-se. Entretanto, ainda dominavam a capacidade de sorrir discretamente. Você não o viu sorrir, porque estava ocupada em esconder o próprio sorriso.

Mal entraram no museu, e já sentiram o calor que lá fora não existia — coisa de inverno. Como se estivessem sincronizados, tiraram os seus casacos, pesados demais para amarrar na cintura. Você se distraiu rapidamente com ele, só conseguindo pensar em como ele ficava bem de camiseta preta — de manga longa, fazendo você se perguntar se os braços dele eram tão bronzeados quanto os seus.

No primeiro encontro é suposto haver muito assunto para se conversar, porque é óbvio que não sabem muito um do outro. Mas você conseguiu perder todas as perguntas que queria fazer, como se elas tivessem pernas próprias — e não tinham, mas fugiram mesmo assim.

Você não sabia se ele passava pelo mesmo problema, o que provavelmente era certeza, porque ele começou a puxar assunto sobre as obras contemporâneas demais para o gosto dele. Você devia admitir a si mesma que era engraçadinho vê-lo “indignado” com artistas que pintavam tão pouco, mas valiam tão muito no meio artístico. Era engraçado porque parecia sério quando ele falava que não sabia por que as pessoas acham tão genial uma tela rabiscada aleatoriamente. Ele se virava na sua direção, mil e uma vezes, só para dizer que também conseguia fazer aquilo. E você ria e concordava, sendo tão espontânea, a ponto de não se dar conta de que estava se apaixonando.

Ao fim de uma excursão pelo museu que parecia nunca mais acabar, ele fez questão que saíssem pela saída lateral, e quando o rio apareceu no seu campo de visão, você sabia que fariam uma das poucas coisas que você sabia que ele gostava: andar junto ao rio. Você sorriu, porque diferente das pessoas com quem você tinha saído, ele estava visivelmente se esforçando para aquilo dar certo. Mesmo que isto talvez não fosse exatamente um grande esforço, e sim um prazer.

Em pouco tempo, você soube muito. Ele era inteligente, gentil, e parecia lhe compreender na medida que você precisava ser compreendida. Você ainda não sabia se isto era por empatia ou gentileza demais, mas mesmo assim era um detalhe válido que permitiu que você se esquecesse dos fracassos amorosos, e dedicasse aquele dia a ele.

No fim do dia, depois de andar quase a cidade inteira, coisa que você só fez de bom humor porque estava na companhia dele, você percebeu que aquilo estava dando certo. E você percebeu, também, que havia se esquecido de torcer contra o encontro, jurando que era melhor estar sozinha — porque se acostumou demais com a solidão. A sua face irônica, que ao mesmo tempo que queria que desse certo, estava feliz por dar errado, foi embora. Você estava sendo você mesma — e mais um pouco. Naquele dia, você pôde ser o que as adversidades da vida lhe roubaram.

Ao lado dele você pôde admitir que sentia falta de falar francês; e que fazia uma coleção de chapéus — e de coleções; você pôde sentir falta da sua antiga faculdade, a sua primeira casa no mundo; você pôde expressar o seu gosto por futebol e videogames; você pôde falar de onde veio, sem sentir vontade de sumir; você pôde sentir vontade de estar em família, algo que sentia falta, mas que era complicado admitir. Ao lado dele você desejou que aquilo desse certo, porque queria se sentir bem pelo resto da vida. Queria que todo dia tivesse gosto de satisfação e paz. Você se apaixonou por ele, e mais ainda pelo que você era quando estava com ele — e mais tarde ia se apaixonar pelo que ele dizia e enxergava de você.

Admita, você gostou dele porque ele tinha cheirinho de casa nova, e cara de lar familiar. O primeiro beijo, não na boca, mas sim na sua cabeça, era as suas boas-vindas. Naquele momento, você podia não saber, mas já estava em casa. Seja brincadeira do destino, ou seja desculpa romântica, 14 de fevereiro não foi por coincidência.

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*Ana de Oliveira é amante da língua francesa e quase todas (não se pode dizer todas) formas de arte e comunicação. Tem a escrita como parceira desde os oito anos, mas foi aos 14 que começou a compartilhar suas ideias. Colocou na cabeça de que o céu é, realmente, o limite. Mas só porque tem medo de altura. Um dia, ela vencerá suas limitações, ou não se chamará mais Ana de Oliveira. Ana escreve quinzenalmente aos sábados.

seu livro na minha mochila

por Ana de Oliveira

Meu estômago embrulha quando lembro que tenho seu livro dentro da mochila. Lembro de cada palavra que você escreveu no verso das duas capas — na da frente e na de trás. Uma letra desconforme, sem uma linha de raciocínio lógico, que não sabia se era cursiva ou de fôrma. Poucas eram as diferenças entre as maiúsculas e as minúsculas. Não sei como eu conseguia suportar toda essa sua irregularidade, que não se limitava apenas à sua letra.

E é aí onde mora o problema.

Você nunca foi alguém com certezas. Nunca teve princípios fixos e sempre esteve propensa a mudar. Mudou muito, mudou tanto quando eu cheguei. Entretanto, eu me senti seguro. Me senti não só aceito, mas amado. Senti o que eu nunca senti e o que sempre desejei. Me deu os melhores e mais simples presentes; me compreendia, mesmo depois de uma longa discussão. Sua qualidade era saber parar de bater na mesma tecla. Preservar o que tínhamos.

Mas você fez isso de modo errado.

Quis nos colocar dentro de um pote cheio de formol. Quis parar toda a sequência de dias e tentativas para chegar ao ponto ideal. A intersecção traçada, mas o ponto ainda sem lugar — mesmo que parecesse óbvio onde ele devesse estar.

Os pensamentos certos, cheios de ações erradas.

A mágoa sufocada que um dia não pôde ser domada e escapuliu por entre meus dedos.
O rebote cheio de amor e remorso. A necessidade de machucar. A visão turva e a maldita miopia. O envolvimento de pessoas tão alheias à nossa situação, à nossa história. Personagens que nem deveriam estar ali, por motivos de segurança. A vida mudada a cada dia, a cada escolha e a cada beijo dado em outras pessoas. A cada queda de amor por alguém que nunca imaginamos amar.

É aí que me pergunto: onde deveríamos, de fato, estar?

Graças a você, eu nunca sei qual é o lugar que me pertence. Duvido do óbvio e vejo o que não existe. Estou lhe culpando porque esta é a única coisa que me restou de você. A culpa que você tem e sempre terá. Não se iluda; parei de lhe apontar o dedo, mas minha mira continua em você. A dor continua vindo de você. Meu alvo ainda é você. Não baixarei a guarda. Não enquanto estiver com risco de ser extinto pelos próprios sentimentos.

Luiz, poderia explicar para a Carla sobre o passé composé com o verbo être? ouço um som familiar. Você explicou très bien aula passada.

Levanto a cabeça. É a minha professora.

Beberico um pouco d’água e pigarreio. Explico o que para mim é óbvio, porque a matéria faz parte do currículo básico de qualquer curso da língua francesa. Tento explanar o porquê da casinha que a professora desenhou no quadro e como aquele desenho ajudaria na compreensão do tempo verbal. Não me dou muito bem. Falar francês quando acabo de sair de um transe é exigir demais de mim. Não consigo conectar algumas ideias e acabo me esquecendo de alguns detalhes.

A professora me olha com um ar de sabe-tudo e entende que não estou bem. Quase posso vê-la arrependida de tirar-me do meu mundo e pedir que eu me expressasse em sala quando não estou nos meus melhores dias. Eu falo bastante durante as aulas e é fácil perceber quando algo está errado. É quando eu erro a conjugação dos verbos e quando fico calado demais. Já estamos quase no fim do semestre e ela deveria saber disso. Que desse jeito, não me sinto em paz.

Assim que termino de explicar, saio com a minha garrafinha d’água, um péssimo disfarce. Ela está cheia de líquido e ninguém acredita que vou enchê-la. Mas a verdade é que preciso dela para refrescar minha mente e minha garanta que está bem seca. Assim que saio do laboratório de informática, e do pequeno conjunto de salas, sou muito bem recebido pela brisa do clima fresco e frio.

Abraço a mim mesmo, tentando me esquentar e não praguejar tanto por ter saído de casa com apenas um cardigã. Minha jaqueta jeans e meu cachecol me fazem falta. Mas ainda assim consigo me sentir bem ao caminhar no campus. Sentir alguma coisa, além daquilo que varro todos os dias para o fundo da mente, é bom. Me distrai.

Mas não é como se eu fosse me esquecer daquilo que eu guardo dentro da mochila. O livro dela. Eu nem estou lendo-o. Nem sei do que a história se trata; nem sei nada além da capa borrada e muito bem trabalhada; não tenho curiosidade para devorar cada página. Prefiro que ele permaneça assim, quase intocado. Apenas com as capas da frente e de trás mexidas, de tanto encarar a letra dela.

Prefiro que me esqueça, para que eu nunca mais volte para você. Prefiro que eu lhe esqueça, para que você nunca mais volte para mim. Não me sinto pertencente a você, não me sinto preso a nada do que vem assaltando meus pensamentos. Só sinto que… você é uma das minhas melhores lembranças. Que devem permanecer assim, sendo lembranças, tão intocadas quanto as páginas do livro que você me deu.

Em um dado momento, a minha visão fica turva e é tão torta quanto os ventos que me abraçam. Continuo a caminhada pelo campus, cada vez mais sendo guiado pela própria intuição que felizmente é muito boa. Sei onde isso vai dar. Num lugar totalmente alheio ao que devo estar, provavelmente em outro prédio, achando que minha aula é outra.

Até que meu coração para. Alguém puxa todos os fios da máquina que eu sou. Encaro ela, o meu fantasma. Passa por mim como se quisesse me ignorar, mesmo sabendo que não pode. Os olhares que trocamos são tão reais que não consigo duvidar da veracidade dessa cena. Não pode ser coisa da minha cabeça.

Abruptamente, meus fios são reconectados e torno a caminhar. Dou voltas e voltas. Acabo parando, não sei como, no corredor da sala onde eu deveria estar. Deveria estar anotando as dúvidas que meus colegas insistem ter. Deveria ouvir as piadas da minha colega e ouvi-la dizer o ‘come on’ da língua francesa on’y va. Deveria estar me culpando por sempre me esquecer de comprar um dicionário francês-francês, ao invés de ficar usando um francês-português.

Paro imediatamente quando percebo que andei demais e sinto minha garrafinha mais leve ao contrário de mim, tão pesado. Suspiro e fecho os olhos. Fico assim por um bom tempo, até abrir e encontrá-la. Me olhando com ares reveladores, com indiscrição e afinco ao tentar claramente me desvendar. Caminho para tocá-la, ao menos um abraço.

Luiz!

Mais uma vez pescado para a realidade.

Quando viro meu corpo ao tentar responder o chamado, sinto minha visão nítida. Como quando o sol tira o lugar de um céu nublado. Não é ela e sim Murilo. Ele vem até mim e percebo que carrega minha mochila.

Você tá bem? ele pergunta, mesmo sabendo que a resposta é não.

― Não muito, estou um pouco enjoado.

― Então vai pra casa. A aula já acabou. Eu anotei algumas coisas para você, no seu caderno. Dá uma olhada depois. Quer companhia? Não creio que seja bom você pegar ônibus sozinho.

― Não precisa, eu quero ficar um tempo sozinho. Obrigado, de todo modo. E sim, vou dar uma olhada nas suas anotações. Obrigado de novo.

Recolho tudo e saio para o lado oposto. Descubro que ela não está lá, como antes estava. Outro transe, talvez. Ou então saiu para tocar sua vida. E deste mesmo modo, eu estou fazendo, tocando a minha. Não vejo motivos para remexer nos ajustes do destino. Se ele quis assim, é por razão maior. Pode ser que as pessoas que nos acompanham sejam aquelas que vão estar conosco pelo resto de nossas vidas, amando-nos como merecemos. E eu não quero perder isso. Não quero perder uma vida que sempre quis só porque vi uma curva na estrada.

2016 (simplificado)

por Ana de Oliveira

O ano que não foi substantivo e quis ser advérbio só para modificar nossos verbos e adjetivos.

O ano da urgência, que acontece agora.

O ano das interjeições e dos palavrões;

Das transformações.

O ano que não perdoou os desavisados e os distraídos;

Que derrubou quem olhava para trás.

O ano que fez marcas onde não devia só porque tocou-nos com toda a sua falta de gentileza;

O ano do desapego e do desespero;

Com mais um dia só para mais um “oh!”

O ano que fez-nos cair para ensinar-nos a levantar;

E ficar de pé.

O ano da coragem forçada. Da mentira com cara de verdade.

O ano da brutalidade incompreendida;

Que procurou justificar os meios pelos fins.

O ano que foi o que 2015 não teve coragem de ser.

Foi transformador.

Foi 2016.

Feliz Ano Novo.

de manhã acordei e percebi que deveria deixar você

por Ana de Oliveira

Das péssimas desculpas que eu poderia dar, esta é a pior:

De manhã acordei e percebi que deveria deixar você.

O sol me acordou novamente com o reflexo atingindo meu rosto. Seus braços ainda estavam em minha volta e me seguravam de maneira frouxa, sem forças. Observei suas feições tranquilas e pacíficas, talvez conformadas com nosso óbvio destino. Você, ainda que chorasse, não precisava mais de mim. Você se tornou alguém tão grande que pude jurar que alcançaria o céu apenas levantando o braço. Às vezes, nem precisava levantar.

Você era alguém simples mas predestinado a coisas enormes. Alguém que não desejava comer comidas caras, mas que de um dia para o outro estava comendo o prato mais caro do seu restaurante preferido simplesmente porque fazia parte da sua rotina. Você cresceu de uma forma tão grande que ninguém parecia conseguir lhe tocar ou ser suficiente o bastante para você.

De certa forma, sempre admirei a predileção que o destino tem por você. Sempre gostei o jeito que as coisas mudam de lugar e reviram só para que você possa brilhar mais ainda. Isso nunca me causou inveja, mas talvez medo. Medo de que a agitação natural da sua vida chegasse até mim. Medo de que o seu destino apontasse o dedo para mim e dissesse que eu precisava ser substituída, que eu já não bastava. E sempre soube que esse dia iria chegar.

Me levantei e tentei me desvencilhar dos seus braços da maneira mais gentil que encontrei, enquanto escutava sua respiração calma. Você nunca teve pesadelos dormindo comigo. Ignorei meus chinelos e andei pelo ambiente, que conheço há muitos meses, descalço. Parei na cozinha. Abri o armário e peguei o seu cereal preferido – aquele com um esquilo astronauta desenhado na caixa. Enchi uma tigela e comecei a comer.

Nesse momento parei pra pensar: eu deveria deixar você. Deveria deixar as coisas acontecem na sua vida e parar de lhe segurar aqui. Deveria parar de insistir numa relação que não é nada perto de tudo que você vai ganhar. Meu bem, você ganhará o mundo enquanto a única coisa que eu posso lhe dar é meu coração errante. A única coisa que posso oferecer todos os dias é uma rotina de alguém comum, que não se importa se a vida cair na mesmice. De alguém que não vai pagar a sessão premium do cinema. De alguém que não vai comprar o carro do ano, simplesmente porque se contenta com o de anos atrás. De alguém que sequer se importa se a cor do travesseiro combina com a do cobertor.

Quando menos esperei, chorei. A lágrima tímida que caiu e marcou meu rosto há um minuto era choro. Não pude negar, chorei a partir do momento que meus olhos ficaram molhados. E agora, vermelhos.

Não era pra ser assim. Não era assim que eu queria. Eu queria lhe prender à minha rotina familiar, aos objetivos mais simples e menos ambiciosos. E embora você não ligue nem para dinheiro, nem para fama ou até mesmo viajar mundo afora, eu sei que não é isso que você merece. O que eu quero dizer é que não é assim que deve ser porque é tão injusto e violento prender um pássaro que pode voar tão alto.

Você pode alçar voos maiores e não serei eu sua corrente.

Voltei para o quarto e lhe observei dormir. Por muito tempo. Respirei fundo e chorei mais um pouco. Não havia mais nada a fazer. Eu lhe amo, lhe amo a ponto de doer. Mas não serei feliz, nem conseguirei lhe fazer feliz, se lhe abraçar e querer lhe prender sabendo que você precisa conquistar coisas maiores do que nós dois.

E foi assim que eu acordei, com o coração partido e feliz ao mesmo tempo, e percebi que deveria deixar você.

querida nina

por Ana de Oliveira

Acabou que não deu certo. Eu não vou mentir. Não deu certo, e nós sabemos. Mas eu não vim ditar o óbvio para você. Eu vim dizer ‘oi’ com gostinho de despedida. Eu vim ficar indecisa ao sair porta afora. Vim ficar entre o ‘sim’ e o ‘não’. Vim depois de ponderar demais, daquele jeito que você faz, na intenção de ser justa e de não machucar ninguém — aprendi isso com você.

Eu nunca soube me despedir das pessoas. Nunca aceitei partidas que não fossem de acordo com nossas vontades, acho que você sabe disso. Nunca fui de me conformar. E não vai ser agora que irei fazê-lo. É exatamente por isso que esta carta de despedida não pode se parecer como se fosse uma. Precisa se parecer como uma pergunta inocente sobre como você está.

Acima de tudo, quero que você seja feliz, de verdade. Quero que consiga alcançar tudo o que quer e que não alcançou por alguma mudança de planos. Quero que o anel no seu dedo ainda signifique alguma coisa mesmo depois de muito tempo. Mesmo que você acabe perdendo-o, pelo desgaste ou pela distração. Quero ainda ter a chave do seu coração. Só pra ficar guardado mesmo. Só pra ter o título de alguém que é motivo de seus sentimentos. Porque eu sei que não é justo que eu queira mais uma chance depois que o tempo passar. Eu sei que não devo fazer você dar marcha à ré. Vou me contentar, então, em ser aquela que você mais amou.

Eu sei que está parecendo que vou morrer ou que nós nunca vamos nos falar novamente. Mas isso é só um backup, para ter certeza de que você sabe de tudo. Você precisa saber de tudo. Precisa saber que eu irei te carregar comigo da mesma forma que levo seu colar pendurado no meu pescoço. Eu não que nenhum mal-entendido nos separe da verdade e de uma vida que deve ser vivida sem interrogações ou arrependimentos.

E só para constar, eu entendi a mensagem disso tudo. Sei que não somos menos uma história de amor do que outras só por termos um fim. O que acontece é que, talvez, nossa história fosse muito curta para ser vivida numa vida inteira. Talvez, não coubesse. Entendi que livros com menos de cem páginas também possuem coisas relevantes a dizer. Você tinha muitas coisas a me ensinar, não importasse como fossem elas, quanto fossem ou quanto tempo você ficaria.

Ainda tenho medo do futuro, eu confesso. Sei que somos nós que o fazemos. E é justamente por isso que temo. Eu sempre fiz besteiras, você sabe. Sempre atirei antes de mirar. É por isso que essa carta é tão importante, Nina. Essa carta é o botão de emergência. Eu sei que ela pode não valer muita coisa daqui uns anos, por conta de nossas mudanças. Mas eu peço, encarecidamente, que a considere vitalícia. Dificilmente você sairá de mim. [Quase] Impossivelmente me esquecerei de você.

Portanto, tudo aqui escrito serve como resposta e base para você tirar suas conclusões. Não importa o quanto eu mude ou cresça. Não importa o que aconteça, quantos sonhos eu ou você realizemos, quantas vezes ainda vamos cair ou chorar; não importa quantas pessoas ainda vão passar por nossas vidas, quantas de nossas certezas ainda serão mudadas. Não importa e jamais importará. São essas palavras que valem, pois foram escritas no auge da minha razão. O que conta é o que somos agora. Porque se terminamos isso hoje, vou terminar assim, com essas palavras, mais válidas do que qualquer outra coisa que eu tenha dito. Releia sempre que se perguntar se eu ainda a amo. Porque eu ainda te amo.

Só para diminuir seu medo, claro que vamos nos ver. Talvez a gente se esbarre e comece a trocar palavras sobre os anos que nos separaram. Talvez eu te convide para um café e proponha a loucura de embarcar comigo outra vez como foi agora — só que melhor. Talvez eu preserve tudo isso e não queira mexer em nada. Mas não se preocupe, iremos ficar bem no final das contas, seja como for.

Obrigada pela paciência, pela perseverança, por ser minha heroína. Por me salvar incontáveis vezes, por aceitar me amar mesmo de longe. Pela sabedoria que eu jamais alcançaria sem você, pelos sorrisos em meio ao caos. Obrigada por brigar com quem brigou, por chorar quando não aguentou e por ser sincera quando precisou. Finalmente eu sei como é amar. Sei como é a sensação. Está longe de ser o que eu achei que seria, mas é bom ainda assim. Amar é estar com o outro impregnado e tatuado. Amar é se sentir sortudo mesmo de longe; é ser parte de alguém. Obrigada por me deixar ser parte de você. Principalmente por ter sido uma de suas poucas certezas. Nunca conseguirei agradecer o suficiente, mas não me sinto mal com isso. Faz parte do conjunto que recebi quando me dei conta de que amava — e amo — você, o suficiente para aceitar que não me livrarei da nossa história.

Mais experiente e paciente do que antes, eu.

ps. Só pra você saber: ‘Stolen Dance’, do Milky Chance, é a nossa última música.

eu te disse

por Ana de Oliveira

Eu não queria falar isso.
Mas eu disse.
“Eu te disse”.
Deveria ter sido mais gentil.
Mais compreensiva
E sutil.
Pensado em todas as possibilidades.
E as adversidades
Do que viria a seguir.
Que seguiu-se.
Todavia você pensou.
E não despensou
Me dispensou.
Escuta, até haveria volta.
Se houvesse condição de sustentar um sim.
E quebrar o não.
Mas não fica assim.
E veja pelo lado bom
Existente em razoável tom
Sou mestra em sentir-me dessa forma
Triste e infeliz
Posso ajudar-te
A achar uma diretriz.
E não me entenda mal.
Isso é natural
Ser educada
E civilizada
Com quem já foi amada
Num romance habitual.