Sobre david

uma dose uma pílula uma colher um soco um carinho qualquer coisa que te faça parar nesse turbilhão

poesia: em caso de incêndio

por David Plassa*

Às sete e quarenta da noite
em cima da ponte
pediu-lhes o isqueiro
camuflando o desespero

Às sete e quarenta da noite
comentou sobre o tempo
muito sol, pouco vento
ou algo muito
e pouco tudo

Pareciam não escutar
o que ele não sabia dizer

Então,
às sete e quarenta da noite
ateou fogo
sobre o próprio corpo
e três minutos depois
estava morto

Pouco antes da chuva
um tanto fora da curva

_____

*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

crônica: aqueles dois textos

por Ana de Oliveira*

Eu guardo aqueles textos que você escreveu sobre ele, noutras palavras, aqueles desabafos íntimos demais para serem ouvidos, mas desesperados o suficiente para serem escritos — e de repente, mostrados a mim. Não é propriamente masoquismo, ou como se eu me imaginasse na pele dele. Esses textos apenas me servem como lembretes, para que talvez um dia eu não seja mais apaixonado por você.

Sinceramente, não sei se vai funcionar. Eu não sei como é que as pessoas “desapaixonam-se” pelas outras, o que me leva a perceber o quanto estou perdido. Não que eu fosse decidido antes disso tudo. Apenas perdi-me um pouco mais, por achar que você, nós, o pseudo-nós, traria-me luz.

Eu sei que isso vai contra ao que disse sobre você corresponder aos meus sentimentos. Eu disse que não precisava, e ainda mantenho a minha palavra. Não precisa. Porém, você pareceu querer me corresponder, tentando cuidar de mim e do que eu sinto, mesmo sequer sabendo o que você mesma sente.

Não é culpa sua, jamais seria. Mas, com todo o respeito e carinho que você demonstrou, o meu coração ficou confuso. O meu coração idiota queria qualquer migalha de afeto, e não soube ser nobre como a minha razão foi, a parte minha que nunca quis, e ainda não quer, nada em troca.

Então quase sempre eu leio aqueles dois textos, porque parece que estou lendo o seu coração. Tento ler com a sua voz, imaginar as suas feições e tudo que você disse que aconteceu entre vocês dois. Tento encontrar a verdade em tudo, até mais desesperado do que você, para que em nenhum momento eu pense que aquelas palavras, tão afetuosas e não dirigidas a mim, são sintomas de loucura, ou palavras de uma história que só existe em livros. Eu preciso entender que todas elas são verdade. E ainda que tudo fosse mentira, loucura, ou ficção, não me significaria esperança, pois ainda é com ele que você sonha.

_____

*Ana de Oliveira é amante da língua francesa e quase todas (não se pode dizer todas) formas de arte e comunicação. Tem a escrita como parceira desde os oito anos, mas foi aos 14 que começou a compartilhar suas ideias. Colocou na cabeça de que o céu é, realmente, o limite. Mas só porque tem medo de altura. Um dia, ela vencerá suas limitações, ou não se chamará mais Ana de Oliveira. Ana escreve quinzenalmente aos sábados.

poesia: alva plutônica

(ou mais um dia sem recomeço)

por David Plassa*

Tão logo amanheceu
até o diabo lhe esqueceu
No cruzamento da avenida vazia
com a rua da insignificância

Educado pela culpa,
voltaria para casa de alguma maneira
Voltaria para casa sob o fardo
de tudo que lhe haviam dado

Tão logo amanheceu
até o diabo saiu de lado
da consciência que lhe trazia
o castigo da boêmia

A cidade acordava,
o metrô já funcionava
Sob a inércia que lhe acolhia
em passos pesados de orgia

Torcia pela chuva,
por um céu acinzentado,
por uma leve brisa,
vento, ventania, tormenta
que dali o levaria

Queria do asfalto, a terra
Do concreto, a erva daninha
Queria do mundo, o fim
Como o último passo de um tango celestial

Podia sentir:
pessoas aos poucos
aglomerando-se ao lado de um louco
A multidão aos gritos,
erguendo mãos
para cada um de seus cristos

No cruzamento da avenida
outrora vazia
com a rua da insignificância

Reunia em si todo esse sonho
Que o mundo explodisse sem resposta
Essa era a sua maior aposta

Que o mundo sumisse
sem que ninguém visse
Todos juntos a ele, parados
abandonados até pelo diabo

No cruzamento da avenida vazia
Com a rua agora
repleta de significado

_____

*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

reflexão

por Izabela Souza*

“Eu reclamava de tudo.
Quando eu tinha tempo, ninguém tinha.
E eu reclamava.
Sem aceitar que, por mais doloroso que fosse, era parte da minha jornada passar um tempo sozinha, em contato comigo, refletir, aprender.

Então veio o tempo e o dinheiro.
Novamente, eu estava isolada.
De que adianta ter dinheiro e tempo e não ter onde se divertir?
Mas o que é se divertir? O que é preciso?
Então comecei a traçar as coisas que me faziam feliz e que eu fazia sozinha. De repente, os finais de semana sem viajar não pareceram mais tão entediantes.

Veio a hora de decidir entre ir embora e ficar.
Eu comecei a reclamar.
E, como querendo achar uma desculpa para manter este padrão vicioso na vida, quis atribuir isso à uma das qualidades de ser humana.
Mas também veio o sol, durante um primeiro inverno sem neve, meu inverno.
E não há nada mais humano que inventar desculpas para reclamar, mesmo quando todas as nossas vivências foram escolhas nossas.

Eu ainda reclamo.
Mas espero que você possa parar de segurar esta barra que é a insatisfação.
Você é uma pessoa plena e, como tal, não siga nenhum exemplo que não lhe caiba.
Não me sigam.
Ainda não sei para onde vou. ”

_____

*Izabela Souza tem formação em Letras e Jornalismo, mas nem liga pra isso. O negócio mesmo é comer “paçoquita”, causar e ser uma agente de transformações sociais por aí. Não há nada que não possamos fazer, certo? Iza escreve quinzenalmente às quartas.

poesia: desfigurados

por Nicollas Conti*

Aguardava a sentença por ser uma colcha de retalhos
Oh! Estavam todos reunidos na mesa de jantar
Queria eu uma vez parecer confiante
E não culpado por não saber o que me tornar

Tudo está coberto em neblina
Todos parecem tão confiantes
Aguardam sentados, rindo sem parar
Reunidos na mesa de jantar

Eu me sento
Há uma hipocrisia no ar
E eu engulo
Rasga a faringe
Às vezes o ácido estomacal não dá conta
E o vômito sai
Em palavras
E eles se assustam
A verdade dói
A minha verdade
Eu os queria assustados?
Oh, droga é a neblina
Fora embora
Me mostra cada olhar,
Familiar,
Que desaprova a dúvida e os retalhos
E mostra quem eles são
Desfigurados

Me levanto da mesa de jantar.

Um dia
Queria eu ser como eles
E não ter de pensar
Ó Deus, não ter de pensar.

_____


*Nicollas Conti
 é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

das coisas que eu soube guardar

por Braz

Apesar de tudo aquilo que pudesse te ofender, deveria ter ficado cinco minutos mais. Há dias pretendia confessar no silêncio do meu subir e descer de xícaras que em realidade tudo não passava de um pássaro de brinquedo, com o objetivo de fazer tocar o céu todas as minhas frustrações.

Teríamos bebido muito café.

Você, bem sabe, nunca acreditou em mim como eu queria, a saber, como uma criança. Não, a você era tudo muito óbvio: eu tinha medo demais de ficar sozinho e coragem de menos para admitir.

E o medo nem sempre é somente ausência de coragem.

Eu abri uma série de portas na esperança de ser menos eu mesmo, é verdade, mas só porque eu descobri que isso não era de todo ruim; se eu sou aquilo que odeio, por que não ser um tanto admirável?

E naqueles dias eu ainda não havia conhecido as flores.

Comprei um casaco. Um casaco para o dia de hoje. Qualquer coisa que me fizesse parecer maior. Até comprei um maço de cigarros. Todos os vilões fumam, sabia? Heróis já fumaram, em tempos menos alarmados com coisas desimportantes.

Mas que dor de cabeça. Há um mês que acordo assim, como se recuperadores de imóveis passassem a noite em cima de mim, com seus corpos imensos e suas consciências leves.

Eu me dei um soco ontem.

Queria ter uma história interessante para contar, cheia de perigos e um ato heroico no final, quem sabe assim você sentisse pena de mim, mas me esqueci que havia acendido um cigarro de treino, na esperança de parecer natural quando acendesse o segundo: meia tragada mal dada e eu já era vilão.

E me recusava a tomar outro banho.

Queria ser uma mosca, ou a cortina da sua sala, para ver a sua cara quando, voltando pelo mesmo caminho, meio triste meio com raiva, encontrasse o bilhete igualmente meio amassado (sua porta é muito estreita, desculpe o desleixo) no chão, finalmente compreendendo que eu sou a maior das perdas de tempo desde que inventaram a ideia de felicidade.

Mas nada disso eu fiz por mal. Se possível, por favor me perdoe.

Esta última parte, entretanto, não consta no bilhete.

Cortina. É, melhor se eu fosse cortina.

Ao menos poderia atear fogo em mim.

_____

Braz é artista, fumante e anacrônico. Escreve semanalmente às quintas.

ninguém quer saber

por David Plassa*

Com quase 20, meu avó saiu de Maceió em direção a São Paulo pilotando um ônibus. Isso em 1949. Ficou órfão de pai e mãe aos 6 anos de idade. Cresceu nas ruas sob os olhos da irmã, quatro anos mais velha, a Das Dores. Chegou a comer um pombo que capturou na orla de Pajuçara.

A única companhia que nunca lhe apontou um dedo durante a vida foi a cachaça. Nos únicos momentos em que aceitou e riu do próprio vazio estava mais bêbado do que você entende por bêbado.

Casou tarde para época, 28 anos. Com uma menina 10 anos mais jovem. Criou quatro filhos como motorista profissional. Ao se aposentar se deu conta de que não teria o bastante para pagar o bar. Foi para a praça, trabalhar como taxista. A maior realização neste período era voltar para casa, abrir a carteira e dar trocados para os netos comprarem doces.

Ainda assim, nunca conseguiu perceber que era reconhecido pelo vício e não pelas conquistas.

Ele ligava para o meu celular quando foi deixado pela a minha avó, que já não aguentava mais. Quando eu era criança descobriram que ele mantinha outra em outra casa com outros netos talvez. Mas não era só por isso que ele estava sozinho. Era por tudo o que ele bebia mesmo.

Ele perguntava se eu o amava, quase em estado de inconsciência. Confundia o meu nome com o do meu irmão. Os vizinhos ligavam todos os dias para a minha mãe: – O seu pai está caído na rua de novo. A gente não cumpria o final do expediente para ir acudi-lo, vê-lo chorar e, ainda pior, saber que ele se arrependia por algo impassível de controle.

É incrível como até hoje eu admire um homem como ele. Que a cada gole surge em alguma esquina, incapaz de me cobrar cuidado.

_____

*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.