Sobre david

uma dose
uma pílula
uma colher
um soco
um carinho
qualquer coisa que te faça parar nesse turbilhão

das coisas que eu soube guardar

por Braz

Apesar de tudo aquilo que pudesse te ofender, deveria ter ficado cinco minutos mais. Há dias pretendia confessar no silêncio do meu subir e descer de xícaras que em realidade tudo não passava de um pássaro de brinquedo, com o objetivo de fazer tocar o céu todas as minhas frustrações.

Teríamos bebido muito café.

Você, bem sabe, nunca acreditou em mim como eu queria, a saber, como uma criança. Não, a você era tudo muito óbvio: eu tinha medo demais de ficar sozinho e coragem de menos para admitir.

E o medo nem sempre é somente ausência de coragem.

Eu abri uma série de portas na esperança de ser menos eu mesmo, é verdade, mas só porque eu descobri que isso não era de todo ruim; se eu sou aquilo que odeio, por que não ser um tanto admirável?

E naqueles dias eu ainda não havia conhecido as flores.

Comprei um casaco. Um casaco para o dia de hoje. Qualquer coisa que me fizesse parecer maior. Até comprei um maço de cigarros. Todos os vilões fumam, sabia? Heróis já fumaram, em tempos menos alarmados com coisas desimportantes.

Mas que dor de cabeça. Há um mês que acordo assim, como se recuperadores de imóveis passassem a noite em cima de mim, com seus corpos imensos e suas consciências leves.

Eu me dei um soco ontem.

Queria ter uma história interessante para contar, cheia de perigos e um ato heroico no final, quem sabe assim você sentisse pena de mim, mas me esqueci que havia acendido um cigarro de treino, na esperança de parecer natural quando acendesse o segundo: meia tragada mal dada e eu já era vilão.

E me recusava a tomar outro banho.

Queria ser uma mosca, ou a cortina da sua sala, para ver a sua cara quando, voltando pelo mesmo caminho, meio triste meio com raiva, encontrasse o bilhete igualmente meio amassado (sua porta é muito estreita, desculpe o desleixo) no chão, finalmente compreendendo que eu sou a maior das perdas de tempo desde que inventaram a ideia de felicidade.

Mas nada disso eu fiz por mal. Se possível, por favor me perdoe.

Esta última parte, entretanto, não consta no bilhete.

Cortina. É, melhor se eu fosse cortina.

Ao menos poderia atear fogo em mim.

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Braz é artista, fumante e anacrônico. Escreve semanalmente às quintas.

ninguém quer saber

por David Plassa*

Com quase 20, meu avó saiu de Maceió em direção a São Paulo pilotando um ônibus. Isso em 1949. Ficou órfão de pai e mãe aos 6 anos de idade. Cresceu nas ruas sob os olhos da irmã, quatro anos mais velha, a Das Dores. Chegou a comer um pombo que capturou na orla de Pajuçara.

A única companhia que nunca lhe apontou um dedo durante a vida foi a cachaça. Nos únicos momentos em que aceitou e riu do próprio vazio estava mais bêbado do que você entende por bêbado.

Casou tarde para época, 28 anos. Com uma menina 10 anos mais jovem. Criou quatro filhos como motorista profissional. Ao se aposentar se deu conta de que não teria o bastante para pagar o bar. Foi para a praça, trabalhar como taxista. A maior realização neste período era voltar para casa, abrir a carteira e dar trocados para os netos comprarem doces.

Ainda assim, nunca conseguiu perceber que era reconhecido pelo vício e não pelas conquistas.

Ele ligava para o meu celular quando foi deixado pela a minha avó, que já não aguentava mais. Quando eu era criança descobriram que ele mantinha outra em outra casa com outros netos talvez. Mas não era só por isso que ele estava sozinho. Era por tudo o que ele bebia mesmo.

Ele perguntava se eu o amava, quase em estado de inconsciência. Confundia o meu nome com o do meu irmão. Os vizinhos ligavam todos os dias para a minha mãe: – O seu pai está caído na rua de novo. A gente não cumpria o final do expediente para ir acudi-lo, vê-lo chorar e, ainda pior, saber que ele se arrependia por algo impassível de controle.

É incrível como até hoje eu admire um homem como ele. Que a cada gole surge em alguma esquina, incapaz de me cobrar cuidado.

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

[…]

por Izabela Souza*

Eu queria dizer todas as coisas que sinto.
Queria compartilhá-las, as boas e as ruins.
As que me tornam a pessoa que sou e as que podem mudar quem eu sou.

Eu queria dizer todos os meus pensamentos.
Num combo, um combo de “oi, esta sou eu”.
Ainda que meus pensamentos não sejam sempre o que eu espero de mim.

Mas eu não posso dizer nada.
Nem o que sinto, nem o que penso.
Porque nada define tudo o que tem se passado dentro de mim.

É uma intensidade de sentimentos, um volume incrível de emoções.
Esgotou-se a capacidade do sentir.
E, agora, eu te daria tudo que eu sou, se eu fosse alguma coisa.

E eu escrevi isso porque não posso dizer o que não sinto.

Não sinto.
Sinto nada e muito.

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*Izabela Souza tem formação em Letras e Jornalismo, mas nem liga pra isso. O negócio mesmo é comer “paçoquita”, causar e ser uma agente de transformações sociais por aí. Não há nada que não possamos fazer, certo? Iza escreve quinzenalmente às quartas.

 

[…]

por Diogo Nogue*

São folhas, o vento e o cais.
São folhas, são ventos, são águas.
São mastros, o frio e o cálido.
São pétalas, escárnios e fantasias.
São lágrimas que os olhos assediam.

São belos sonhos irreais,
São belos… Distantes temporais.
São carne e sangue divididos.
São os que não podem ser unidos.

São bocas, beijos e abraços,
São desejos que não serão realizados
São rosas que morrem no armário
São poemas e amores rejeitados.

São folhas que ao vento são levadas
Para as margens das águas salgadas
E nos mastros de um frio navio,
Se leva um cálido coração partido.

São pétalas, são lágrimas…
São todas as coisas que foram deixadas.
Fantasias de dias inesquecíveis
São belos sonhos… Sonhos que não podem ser vividos.

São rosas, beijos e temporais,
São tudo que amei e me distanciam do cais
São tudo que não tenho,
E tudo que eu finjo não querer mais.

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*Diogo Nogue é artista visual, ilustrador e amante da literatura. Nascido em um dia 13 de sorte no ano de 1988. Decidiu que o sentido da vida seria criar arte e literatura e, quem sabe, fazer do meu tempo aqui na terra algo bom, belo e verdadeiro. Segue nessa luta todo dia! Diogo publica toda primeira quarta do mês.

ontem você pediu que eu escrevesse algo sobre a noite

por Gabriel Fogal*

Nossas cabeças e corpos
De bar em bar
Entre trovoadas
Dançávamos despreocupados
E a noite nos engolia
Garganta abaixo com
O puro malte de pior qualidade
Queríamos preencher algumas
Páginas com o sangue de nossas veias
Já embriagados
Resolvemos guardar um pouco de
Nós mesmo para o momento

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*Gabriel Fogal não sabe bem o que escrever aqui. Fez xixi na cama até o dia 17 de maio de 1997. Tenta ser escritor quando toma açaí ou cerveja e estuda psicologia de madrugada. Gostaria de viajar a América Latina de fusca e já foi pirata. Fogal escreve quinzenalmente às sextas.

prolapso rede-neural

por David Plassa*

Às vezes arte é aquilo que só você sabe
E te censura
Pelo puro delírio das formas

Às vezes arte é aquilo que te cala
E você sem saber qual filtro usar
Na tentativa de não ficar sozinho
diante do absurdo silêncio
Quatro paredes, tic
em tua direção, tac
Você nem imagina quais são os termos de uso

São três e 29 da manhã
Desde o primeiro segundo do novo dia
53 fazendeiros indianos suicidaram-se por não conseguir dar o que comer para os filhos
São sete

Às vezes arte é acreditar que você sabe aonde vai
Porque sem um sentido geral
Qualquer objetivo mesquinho é um movimento
E as ruas te aquecem
Como um gole de conhaque desnecessário

Mas só às vezes

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

deus ama, o homem mata

por Davis Plassa*

X-Men
Ano de criação: 1963
Criadores: Stan Lee (escritor) e o “Rei” Jack Kirby (desenhista)
Editora: Marvel
Nome da HQ: Deus Ama, o Homem Mata (1983)
Escritor e desenhista: Chris Claremont e Brent Anderson

A editora americana Marvel, minha favorita, sempre foi “engajada socialmente”. Desde que Stan Lee revolucionou os quadrinhos na década de 1960, com a criação de heróis e grupos que todos amam até os dias de hoje, sempre foram abordados temas considerados pesados, tabus, etc.

Em janeiro de 1983, na onda de criação de Graphic Novels, o escritor Chris Claremont, considerado o melhor escritor de X-Men por grande parte dos leitores, escreveu o sucesso “Deus Ama, o Homem Mata”.

A HQ conta a história de William Stryker, um reverendo televangelista em guerra contra os mutantes. Logo no início da HQ, duas crianças consideradas “mutunas” são mortas por um grupo anti-mutante chamado “Purificadores”. No decorrer da história descobrimos que esse grupo reponde ao reverendo Stryker, que por sua vez utiliza da imagem pública, da palavra de Deus e da bíblia para justificar a morte da raça impura que são os mutantes.

No final da HQ temos uma discussão entre os X-Men e o reverendo pela TV, onde cada lado demonstra um lado da moeda em perguntas como “por que sua fé vale mais do que a minha? ” e “o que supostamente somos é mais importante do que realmente somos?”.

Por tratar-se de uma HQ, talvez não seja tão levado a sério o assunto, mas o que o escritor tenta passar é a ideia que Stan Lee construiu já na década de 1960. Simplesmente porque somos diferentes um do outro, seja você gay, negro, judeu, etc., isso não significa que alguém é melhor do que o outro e nem diz quem você realmente é.

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Davis Plassa, 21 anos, futuro engenheiro, paulistano. Amante de Kung Fu, quadrinhos e futebol. Sonha em mudar o mundo.