das coisas que eu soube guardar

por Braz

Apesar de tudo aquilo que pudesse te ofender, deveria ter ficado cinco minutos mais. Há dias pretendia confessar no silêncio do meu subir e descer de xícaras que em realidade tudo não passava de um pássaro de brinquedo, com o objetivo de fazer tocar o céu todas as minhas frustrações.

Teríamos bebido muito café.

Você, bem sabe, nunca acreditou em mim como eu queria, a saber, como uma criança. Não, a você era tudo muito óbvio: eu tinha medo demais de ficar sozinho e coragem de menos para admitir.

E o medo nem sempre é somente ausência de coragem.

Eu abri uma série de portas na esperança de ser menos eu mesmo, é verdade, mas só porque eu descobri que isso não era de todo ruim; se eu sou aquilo que odeio, por que não ser um tanto admirável?

E naqueles dias eu ainda não havia conhecido as flores.

Comprei um casaco. Um casaco para o dia de hoje. Qualquer coisa que me fizesse parecer maior. Até comprei um maço de cigarros. Todos os vilões fumam, sabia? Heróis já fumaram, em tempos menos alarmados com coisas desimportantes.

Mas que dor de cabeça. Há um mês que acordo assim, como se recuperadores de imóveis passassem a noite em cima de mim, com seus corpos imensos e suas consciências leves.

Eu me dei um soco ontem.

Queria ter uma história interessante para contar, cheia de perigos e um ato heroico no final, quem sabe assim você sentisse pena de mim, mas me esqueci que havia acendido um cigarro de treino, na esperança de parecer natural quando acendesse o segundo: meia tragada mal dada e eu já era vilão.

E me recusava a tomar outro banho.

Queria ser uma mosca, ou a cortina da sua sala, para ver a sua cara quando, voltando pelo mesmo caminho, meio triste meio com raiva, encontrasse o bilhete igualmente meio amassado (sua porta é muito estreita, desculpe o desleixo) no chão, finalmente compreendendo que eu sou a maior das perdas de tempo desde que inventaram a ideia de felicidade.

Mas nada disso eu fiz por mal. Se possível, por favor me perdoe.

Esta última parte, entretanto, não consta no bilhete.

Cortina. É, melhor se eu fosse cortina.

Ao menos poderia atear fogo em mim.

_____

Braz é artista, fumante e anacrônico. Escreve semanalmente às quintas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *