do amor que existe sem acontecer para não diluir-se

por David Plassa*

Estou tentando dizer que o sol teria outro sentido para mim se estivéssemos juntos. Não seria frustrante vê-lo nascer e nem vazio vê-lo se pôr. Porque certamente, numa manhã de precoce e imprevisto despertar, tuas formas luminescentes sobre a cama partilhada, sob feixes febris atirados janela adentro, torná-lo-ia minha lanterna para lidar com teu profundo e teu. O sol como álibi impreciso do sequestro que planejo para ti nestas linhas, alheias à lacuna tempo-espacial que sobrepõe-se ao meu e talvez teu desejo. Estou tentando dizer que queria estar junto de ti. Por isso as conversas apenas visualizadas e as chamadas sem roteiro em meio a madrugada. “Como vai você?”, como flecha lançada para além das falanges que engordam o contingente para forçar-me acreditar que nunca seremos nós.

(Quero falar de um amor que só acontece nas suposições da narrativa, que de outro modo não seria possível devido ao individualismo e a crueza de um possível convívio entre os amantes. Então o narrador aprisiona o ideal de relacionamento dele nos termos que escolhe para satisfazer-se, assumindo que sempre manipulou as situações para possuir o que achava dele por direito. Até desistir de querer estar junto porque, sendo assim, perderia a única história de amor que lhe foi possível. Acho que é isso.)

Gostaria de dividir o mesmo apartamento e os mesmos remédios. Nossa dor é a mesma de acordo com o meu diagnóstico. Revezando-nos na tarefa de fazer o jantar até preferirmos o lanche da esquina, até preferirmos fazer as compras sozinho e trancar a porta durante o banho. Em um dia de maior inspiração te levaria um chocolate para materializar meu desespero ao não te encontrar mais como antigamente. Apaixonado pelo passado que resguarda o verbo dividir no vocabulário do nosso relacionamento.

Sequestrar é uma palavra deslocada quando você despir-me da minha fantasia. Em diversos momentos, desde que nos conhecemos naquele self-service: meu primeiro dia no emprego, com o melhor corte de camisa para ombros largos e costelas aparentes. Não apenas costelas; todo o meu tornava-se relevo diante da carga dos teus olhos. Em determinado momento acreditei estar com o rosto de ponta-cabeça, me dirigindo a você com cambalhotas ao invés de palavras. Por isso, tudo o que falei e a maneira equilibrista com a qual delineei meu caminho até os que nos rodeavam, foram encenações circenses, as quais não quero nunca contemplar.

Ah, como fui covardemente egoísta acreditando que você posava para meus retalhos de memórias caramelizadas. Teu corpo de perfil inclinado diante da tela de um computador, uma pequena mão convulsiva a clicar. Queria tanto saber o que lhe era de interesse! A franja que não descansava em cobrir-lhe as maçãs do rosto. Eu recortava esses momentos e guardava-os junto ao maço de cigarro escondido embaixo dos livros que carrego na mochila. Para mostrar a mim mesmo quando retornava para casa, o quanto me falta para ser maior do que o meu vazio. Em pé no vagão, sentindo o sono coagular em cada movimento corpóreo, invocando nossas conversas de horas atrás, contidas pela banalidade e infinitas pela tensão.

(Haviam assentos vazios.)

Revisitava essa imobilidade destacável, artigo raro para meu acervo, exposta no verso dos meus olhos sem tua prévia autorização ou participação de lucros inconscientes. Fazia-te minha antes de perguntar e sem ter ideia do quanto a concretude disso nos destruiria. Embebidos na fria conjectura de creditarmos à distância forçosa, nossa falta de felicidade no departamento ter-dar-receber. Ainda que no íntimo soubéssemos que no menor desequilíbrio entre estes termos rasurar-no-íamos. Não importa.

Como esfarelar a realidade aqui para que você entenda o quanto é bom ter você por perto?

Lembra-te nossa a noite que dura até a próxima palavra: colapso? Teu corpo no escuro contra o meu. Nenhum movimento adivinhado. Apenas. Até o estremecimento. Teu corpo no escuro contra o meu.

(Quem era você?)

Sintonia em que nenhum conhecido é capaz de entender-me. Talvez nem você e seja o caso de acariciar apenas aquela noite em si. Mas permite-me dizer que encontrei ali um lugar para a gente e tão meu que tento justificar picando-lhe palavras. Como o menino que não sabe escrever, mas faz poesia para a amada. Afinal, não reside nessas pretensões a nossa solidão? A minha, certamente.

Pois minhas mentiras não te convencem e eu sei. É por isso que não vamos ser. Eu não me iludo com o  real. Desfaço aqui algo para que eu tenha escombros no futuro, nos quais vou ler e salivar sobre essa história [de “amor”, por me faltar palavra que eu tenha maior receio].

Porque foi depois de ti que quis romper com tudo o que até ali me fora entregue. Uma vida adulta e cordial entre paredes brancas com quadros a pendurar. O crachá de cordão frouxo para eu não me enforcar. Obviamente porque testei-o na barra do coletivo que me levava ao trabalho, no primeiro dia em que não te veria no escritório após a demissão. Eu sorri quando os passageiros se afastaram. Eu sorri quando o motorista ameaçava chamar a polícia. Fui expulso ao acender o cigarro onde buscava as cinzas da lembrança dos teus lábios. E desembarquei como o mal exemplo de cidadão desequilibrado que permite-se banhar no caldo de tudo que não é tão relevante quanto bater o ponto a tempo.

Pois a história que acredito ter vivido contigo não poderia estar mais nítida, ainda que na escuridão das palavras aqui escolhidas. São remendos e solavancos de um comum existente apenas na eternidade das especulações. Ao acordar, ainda confundo minha respiração com a tua, teu corpo, com o que está ao lado, minhas convulsões, com o desejo de estar junto a ti.

Não me procure, caso tenha conhecimento dessa loucura, pois é o que mais desejo. Deixei de tomar os remédios para voltar a visitá-la onde um dia existimos e isso me basta. Quantos no mundo souberam o que é ter uma parte do outro escondida sob a vida que nos atravessa?

Vivi o que inutilmente chamam de “amor” e não quero sacrificá-lo para além destas linhas. Não te dou escolha ao fazer-te musa. E para mim está tudo bem.

Na ávida tentativa de satisfazer-me com a vontade de tê-la junto a mim.

(Em meu despir solitário ao lembrar-me de ti.)

_____

*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *