mais uma cicatriz

por Marcia Dantas*

O coração humano é o órgão mais vulnerável do ser humano. Ele sente todos os impactos antes de qualquer parte do corpo, como se fosse um escudo tentando proteger todo o resto. Por isso ele está sempre tão machucado.

Quando coloco minha mão ao peito, vejo que há a necessidade de evitar que ele se fira mais uma vez. É quase um ato instintivo, um modo de protegê-lo, mesmo que tal gesto não seja assim tão efetivo. O dano ocorre, independente do meu controle.

Você sabia de tudo isso. Lembra de como fiquei quando contei sobre todas as cicatrizes que carregava comigo? Compartilhávamos algumas, resultado de sofrimentos semelhantes. A gente tinha histórias que andaram por caminhos parecidos. Eu confiava que você pudesse entender a natureza da minha dor.

O que aconteceu para que isso se perdesse? Por qual motivo você achou que poderia me fazer sofrer?

Talvez você não saiba como doeu. Posso ver que você continuou seu caminho, sem olhar para trás. Mesmo assim não consigo ignorar a ferida que ficou e muito menos o peso da ausência quando você ignorou. Eu pedi que olhasse para mim, que tentasse entender o que estava fazendo comigo. Mas já fazia algum tempo que seus caminhos tinham convergido para um ponto que era separado do meu. Você escolheu permanecer assim, ainda que eu ficasse para trás.

Eu me iludi achando que com você seria diferente.

Tenho uma mão bem aqui, perto do lugar onde fica o meu coração. Ele dói e, mesmo quando pressiono a pele, não consigo evitar sentir. Ele está sensível, dolorido e isso ainda vai demorar para passar.

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*Marcia Dantas se orgulha de ser professora de História e escritora, duas áreas que a completam, realizam, desafiam e a fazem militar constantemente. Paulista de coração, não se vê morando em outro lugar, embora precise de um férias da metrópole no momento. Lançou há pouco o seu primeiro livro, Reescrevendo Sonhos, além de estar em vários outros projetos literários. Marcia escreve quinzenalmente aos sábados.

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