seu livro na minha mochila

por Ana de Oliveira

Meu estômago embrulha quando lembro que tenho seu livro dentro da mochila. Lembro de cada palavra que você escreveu no verso das duas capas — na da frente e na de trás. Uma letra desconforme, sem uma linha de raciocínio lógico, que não sabia se era cursiva ou de fôrma. Poucas eram as diferenças entre as maiúsculas e as minúsculas. Não sei como eu conseguia suportar toda essa sua irregularidade, que não se limitava apenas à sua letra.

E é aí onde mora o problema.

Você nunca foi alguém com certezas. Nunca teve princípios fixos e sempre esteve propensa a mudar. Mudou muito, mudou tanto quando eu cheguei. Entretanto, eu me senti seguro. Me senti não só aceito, mas amado. Senti o que eu nunca senti e o que sempre desejei. Me deu os melhores e mais simples presentes; me compreendia, mesmo depois de uma longa discussão. Sua qualidade era saber parar de bater na mesma tecla. Preservar o que tínhamos.

Mas você fez isso de modo errado.

Quis nos colocar dentro de um pote cheio de formol. Quis parar toda a sequência de dias e tentativas para chegar ao ponto ideal. A intersecção traçada, mas o ponto ainda sem lugar — mesmo que parecesse óbvio onde ele devesse estar.

Os pensamentos certos, cheios de ações erradas.

A mágoa sufocada que um dia não pôde ser domada e escapuliu por entre meus dedos.
O rebote cheio de amor e remorso. A necessidade de machucar. A visão turva e a maldita miopia. O envolvimento de pessoas tão alheias à nossa situação, à nossa história. Personagens que nem deveriam estar ali, por motivos de segurança. A vida mudada a cada dia, a cada escolha e a cada beijo dado em outras pessoas. A cada queda de amor por alguém que nunca imaginamos amar.

É aí que me pergunto: onde deveríamos, de fato, estar?

Graças a você, eu nunca sei qual é o lugar que me pertence. Duvido do óbvio e vejo o que não existe. Estou lhe culpando porque esta é a única coisa que me restou de você. A culpa que você tem e sempre terá. Não se iluda; parei de lhe apontar o dedo, mas minha mira continua em você. A dor continua vindo de você. Meu alvo ainda é você. Não baixarei a guarda. Não enquanto estiver com risco de ser extinto pelos próprios sentimentos.

Luiz, poderia explicar para a Carla sobre o passé composé com o verbo être? ouço um som familiar. Você explicou très bien aula passada.

Levanto a cabeça. É a minha professora.

Beberico um pouco d’água e pigarreio. Explico o que para mim é óbvio, porque a matéria faz parte do currículo básico de qualquer curso da língua francesa. Tento explanar o porquê da casinha que a professora desenhou no quadro e como aquele desenho ajudaria na compreensão do tempo verbal. Não me dou muito bem. Falar francês quando acabo de sair de um transe é exigir demais de mim. Não consigo conectar algumas ideias e acabo me esquecendo de alguns detalhes.

A professora me olha com um ar de sabe-tudo e entende que não estou bem. Quase posso vê-la arrependida de tirar-me do meu mundo e pedir que eu me expressasse em sala quando não estou nos meus melhores dias. Eu falo bastante durante as aulas e é fácil perceber quando algo está errado. É quando eu erro a conjugação dos verbos e quando fico calado demais. Já estamos quase no fim do semestre e ela deveria saber disso. Que desse jeito, não me sinto em paz.

Assim que termino de explicar, saio com a minha garrafinha d’água, um péssimo disfarce. Ela está cheia de líquido e ninguém acredita que vou enchê-la. Mas a verdade é que preciso dela para refrescar minha mente e minha garanta que está bem seca. Assim que saio do laboratório de informática, e do pequeno conjunto de salas, sou muito bem recebido pela brisa do clima fresco e frio.

Abraço a mim mesmo, tentando me esquentar e não praguejar tanto por ter saído de casa com apenas um cardigã. Minha jaqueta jeans e meu cachecol me fazem falta. Mas ainda assim consigo me sentir bem ao caminhar no campus. Sentir alguma coisa, além daquilo que varro todos os dias para o fundo da mente, é bom. Me distrai.

Mas não é como se eu fosse me esquecer daquilo que eu guardo dentro da mochila. O livro dela. Eu nem estou lendo-o. Nem sei do que a história se trata; nem sei nada além da capa borrada e muito bem trabalhada; não tenho curiosidade para devorar cada página. Prefiro que ele permaneça assim, quase intocado. Apenas com as capas da frente e de trás mexidas, de tanto encarar a letra dela.

Prefiro que me esqueça, para que eu nunca mais volte para você. Prefiro que eu lhe esqueça, para que você nunca mais volte para mim. Não me sinto pertencente a você, não me sinto preso a nada do que vem assaltando meus pensamentos. Só sinto que… você é uma das minhas melhores lembranças. Que devem permanecer assim, sendo lembranças, tão intocadas quanto as páginas do livro que você me deu.

Em um dado momento, a minha visão fica turva e é tão torta quanto os ventos que me abraçam. Continuo a caminhada pelo campus, cada vez mais sendo guiado pela própria intuição que felizmente é muito boa. Sei onde isso vai dar. Num lugar totalmente alheio ao que devo estar, provavelmente em outro prédio, achando que minha aula é outra.

Até que meu coração para. Alguém puxa todos os fios da máquina que eu sou. Encaro ela, o meu fantasma. Passa por mim como se quisesse me ignorar, mesmo sabendo que não pode. Os olhares que trocamos são tão reais que não consigo duvidar da veracidade dessa cena. Não pode ser coisa da minha cabeça.

Abruptamente, meus fios são reconectados e torno a caminhar. Dou voltas e voltas. Acabo parando, não sei como, no corredor da sala onde eu deveria estar. Deveria estar anotando as dúvidas que meus colegas insistem ter. Deveria ouvir as piadas da minha colega e ouvi-la dizer o ‘come on’ da língua francesa on’y va. Deveria estar me culpando por sempre me esquecer de comprar um dicionário francês-francês, ao invés de ficar usando um francês-português.

Paro imediatamente quando percebo que andei demais e sinto minha garrafinha mais leve ao contrário de mim, tão pesado. Suspiro e fecho os olhos. Fico assim por um bom tempo, até abrir e encontrá-la. Me olhando com ares reveladores, com indiscrição e afinco ao tentar claramente me desvendar. Caminho para tocá-la, ao menos um abraço.

Luiz!

Mais uma vez pescado para a realidade.

Quando viro meu corpo ao tentar responder o chamado, sinto minha visão nítida. Como quando o sol tira o lugar de um céu nublado. Não é ela e sim Murilo. Ele vem até mim e percebo que carrega minha mochila.

Você tá bem? ele pergunta, mesmo sabendo que a resposta é não.

― Não muito, estou um pouco enjoado.

― Então vai pra casa. A aula já acabou. Eu anotei algumas coisas para você, no seu caderno. Dá uma olhada depois. Quer companhia? Não creio que seja bom você pegar ônibus sozinho.

― Não precisa, eu quero ficar um tempo sozinho. Obrigado, de todo modo. E sim, vou dar uma olhada nas suas anotações. Obrigado de novo.

Recolho tudo e saio para o lado oposto. Descubro que ela não está lá, como antes estava. Outro transe, talvez. Ou então saiu para tocar sua vida. E deste mesmo modo, eu estou fazendo, tocando a minha. Não vejo motivos para remexer nos ajustes do destino. Se ele quis assim, é por razão maior. Pode ser que as pessoas que nos acompanham sejam aquelas que vão estar conosco pelo resto de nossas vidas, amando-nos como merecemos. E eu não quero perder isso. Não quero perder uma vida que sempre quis só porque vi uma curva na estrada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *