repuna

por Elle*

A impunidade
Assombra enquanto
A justiça parece
“Cega” e desconexa

Juiz não é Deus
E isso é uma afirmação
Mas cabe a ele julgar
Todos na função

À sombra está
Cada sentença dada
Com ilegitimidade
E sem punição

A guerra dos egos
Se instalou no congresso
Tomou o tribunal
E o que se vê no jornal
É um triste final

Afinal, o constrangimento
Causado por macho nojento
Foi julgado sem cabimento
Como não violento

Como não violento?
Que tipo de tormento é necessário
Para que honrem
A fortuna que são seus salários?

A caminho do trabalho
Sem fortunas de salário
No transporte público falho
Imagino como seria

Ter suco do caralho
Jorrado em meu pescoço
Gozo que desce viscoso
E o constrangimento pior que um soco

E a Vossa Excelência
Fica a lição
Na quarta o liberou
No sábado ele repetiu

Quantas mulheres serão atacadas
Quantas mulheres serão violentadas
Quantas morrerão
Até que se tome uma providência, hein, Senhor Eugênio?

_____

A vida chegou sem massagem.
Tudo que *Elle quer é embarcar em mais uma viagem.
Da cabeça desgraçada tenta tirar seu rumo.
Tem larica de arte.
Elle escreve quinzenalmente às quartas.

aquele pequeno abismo

por Marcia Dantas*

Então finalmente aconteceu.

Cheguei àquele lugar tão assustador em minha mente. Um abismo que queria me tragar, tão assustador que achei que nunca mais o deixaria. E fiquei sem ar, pensando que aquela seria minha eterna morada. Tinha tentado vencer as barreiras, os demônios e os temores, procurando impedir que acabasse me vendo naquele estado. Mas era como se tudo tivesse se acelerado para o inevitável. E me vi no fundo do poço.

De certa forma foi reconfortante alcançar esse ponto longínquo de minha alma.

Foi bom ter enfrentado o temor de meu próprio abismo. Não porque tenha gostado de tocar essa zona de desespero que me rondava, mas por ter conhecido algo sobre mim que até então era apenas o medo e a hesitação. Eu precisava encarar esse lado de mim e descobrir que, mais do que assustador, era ali que era possível encontrar minha fraqueza. Porque sim, isso é o que mais tenho medo sobre mim mesma: admitir que sou fraca e vulnerável.

Pela primeira vez permiti aceitar minha fraqueza e que não há nada de errado nisso. Posso me expor, sem medo de que tenha algo tão terrível dentro de mim que não possa ser visto ou entendido. Posso apenas ser.

Então descobri que meu abismo não era assim tão apavorante, mas apenas um lado de mim que ainda não conhecia. Precisei cair fundo para entender que nada era tão terrível assim. Só precisava me entender. Só precisava deixar tudo acontecer.

_____

*Marcia Dantas se orgulha de ser professora de História e escritora, duas áreas que a completam, realizam, desafiam e a fazem militar constantemente. Paulista de coração, não se vê morando em outro lugar, embora precise de um férias da metrópole no momento. Lançou há pouco o seu primeiro livro, Reescrevendo Sonhos, além de estar em vários outros projetos literários. Marcia escreve quinzenalmente aos sábados.

[…]

por Luska Brion*

Bom dia, Seu Jaime!
Como estamos hoje?

 

Estamos!? Como você está não me interessa, menino.
Muito menos a ti, sobre mim.
Mas já que perguntou, estou péssimo!

Que bom, Seu Jaime!
O que vai pedir hoje?
Já aviso que estamos sem melancolia. Tem saído muito! O pessoal já não vive sem. Não estamos dando conta da demanda. Mas chega esta semana ainda.

Aaarr! Mas de novo!?
Tudo bem. Vê-me então 2 marasmos.

Qual sabor, Seu Jaime?

Rancor, por favor.
Me vê também 4 mentirinhas, as mais tostadinhas.
Não conte a ninguém, meu médico recomendou-me não mais consumi-las.
Eu adoro, mas não estão me fazendo bem.

Certo, mais alguma coisa?
Agonia, perguntas…

Sim, pode ser.
100 karmas de cada e pode fechar.

Certo.
Aqui está, Seu Jaime.
Volte sempre!

Vamos ver, menino.
Vamos ver.

 

Bom dia, Seu Jaime.
Deu 32 anos e cinquenta.

Tome 35.

Poxa, Seu Jaime, estou sem troco.
Pode ser em bala?

Sim, pode sim.

Qual vai querer?

.38, por favor.
Pode ser só uma.

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*Luska Brion é o 4º de cinco.
Dezenove residências.
Dinheiro parco, melanina ainda menos.
Mente em fluxo galático.
Vida em eventos atípicos.
Humor randômico.
Luska escreve quinzenalmente às sextas.

halitose 30

por David Plassa*

Se abrisse mão
De tão pouco tudo
Que lhe convém
Se agarrasse
A ferocidade do inseguro
Estaria vestido como agora
O mesmo blazer
O mesmo tênis
As mesmas reivindicações
Sobre um mundo estranho com pessoas cruéis

Se os dedos não encruassem
Diante da fome e do desconforto
Diante da morte e do abandono
Se os dedos sentissem
A exata insignificância dos medos
Estaria vestido como agora
As mesmas manchas
Os mesmos dramas
Abotoados à camisa

Se soubesse
Que apaga cigarros
Ao invés de acendê-los
Vestiria-se com mais conforto
Um terno torto
Para esconder-lhe o farrapo de carne e sangue
E sangue

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*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

[…]

por Izabela Souza*

O dia em que descobri que não sou negra, não foi alguém que me contou

Eu vivi

Eu acordei e percebi: eu não sou negra, ainda que eu seja.

Lida como exótica, diversa, brasileira

Não negra

Talvez mista, nem branca…

… nem negra

Foi do alto do privilégio europeu

E entre reflexões africanas

Foi dentro de rodas e idas aos supermercados

Eu não sou mais lida como negra

Eu não sofro preconceito por ser negra

Ainda que eu seja e que toda minha negritude viva em mim

Ainda que eu não sinta a minha identidade refletida entre vocês, e eu não pareço vocês

Eu descobri que não sou negra, para vocês.

Eu sou negra por e para mim

Porque negra não é o que eu sempre fui, apenas, mas uma das definições que me orgulham ser.

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*Izabela Souza tem formação em Letras e Jornalismo, mas nem liga pra isso. O negócio mesmo é comer “paçoquita”, causar e ser uma agente de transformações sociais por aí. Não há nada que não possamos fazer, certo? Iza escreve quinzenalmente às quartas.

[…]

por Gabriel Fogal*

Ultimamente tenho visto
Coisas estranhas no céu à noite
Quando você está comigo
Não sei se isso é bom

As cores se misturam
Com as ondas e
Algumas estrelas do mar
Chamam meu nome

Sentimos juntos
O medo de ser e
Admitimos a loucura
Pouco depois da meia-noite

Era narrador e observador
Eu estava dentro e fora
Apenas na esperança
De que nunca saberemos

Por favor, senta mais 1 minuto
Do meu lado
Porque sou idiota por você

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*Gabriel Fogal não sabe bem o que escrever aqui. Fez xixi na cama até o dia 17 de maio de 1997. Tenta ser escritor quando toma açaí ou cerveja e estuda psicologia de madrugada. Gostaria de viajar a América Latina de fusca e já foi pirata. Fogal escreve quinzenalmente às sextas.

a mais menos bela bipolar

por Nicollas Conti*

Chove chuva!
Chuva chove!
Ouça bem a minha morte!

Veja só
Que linda é
A flor sobre meu caixão.

Morta eu?
Viva estou!
Apodrecendo, carniça errante.

Sorriso belo
Riso sincero
Essa sou eu em paralelo

Noite se vai
E não me tira
O fato de ser podre, cega, surda e não sentir os vermes em mim.
Mas que linda luz do dia!

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*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.