promessa cumprida

por Nicollas Conti*

Ah, meu velho amigo
Estivera sempre
Comigo.
Havia em toda manhã
Ao avistar-te
Mente mais sã.
Aquela segunda chance
Que só você nos dá
O alcance.
De você espero mais nada
Apenas que volte
Pós-madrugada.
Não que arfe com sua beleza nua
Mas não me venha com nuvens
Nem lua.
Pesar daqueles que não te enxergam
Ainda não viveram a vida
Que levam.
Pesar de mim que te quero
Enquanto me desfaz
Com esmero.
Peço apenas que morte
Seja como o seu
Brilho forte.
Apenas cumpra sua promessa
Deixe-me vê-lo pela manhã
Quando eu partir dessa.
(clarão)

“Ao velho, ao jovem
Que pela Terra se movem
O Sol surgiu.
Todo rico, todo pobre
Saberá que a promessa nobre
O Sol cumpriu.”

_____

*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

sou o cativeiro e a prisioneira

por Marcia Dantas*

Vozes sussurram e minhas mãos tremem, reagindo sem que eu possa ter controle. Respiro com dificuldade, sem poder entender minhas reações. Temo que aquelas vozes estejam falando de mim e que se tornem risadas no instante em que virar as minhas costas.

Não é a primeira vez que experimento essa sensação de fraqueza. Cansei de contar as crises ou de mensurar os momentos de repouso em comparação àqueles que nem consigo levantar da cama. Minha vida é uma montanha russa. Gostaria de passar pelos baixos sem tanto chorar.

Sequer me lembro de quando tudo isso começou. Quando minha mente recebeu sementes de desconfiança e medo, transformando-as em plantas frondosas e tão impassivas que é impossível ignorá-las. Esbarro nelas a todo momento, sem controle ou possibilidade de fuga. Apenas tento lidar com a existência delas, esperando poder minimizar os danos. Falho muitas e muitas vezes.

Olho para meus passos, tentando guiá-los na direção certa. Tenho dúvidas de que esteja tendo sucesso nisso. É tão fácil apenas acreditar que estou errada o tempo todo, como se o mundo mostrasse o que há de pior em mim o tempo todo, expondo-me diante dos sussurros insistentes. Talvez não seja comigo ou talvez eu seja o alvo sempre, ainda que tente ignorar as vozes que me encurralam dentro de mim mesma. Estou presa em minha própria mente.

Sou o cativeiro e a prisioneira.

Fecho as mãos e controlo a respiração, tentando recuperar o fôlego e a sanidade. Choro diante do esforço. Não é fácil lutar contra a mente que se revolta e rejeita as insistentes tentativas de voltar ao normal. Ao que considero normal. Ao que quero aspirar como normal.

Estou exausta diante do esforço. Minhas energias se esgotam em um piscar de olhos.

Quero me esconder até a tempestade passar, ainda que ela esteja apenas aqui dentro de mim. O mundo lá fora continua a girar e nem se dá conta, ou pouco se importa. Estou só no meio da multidão e minha voz falha quando tento gritar. Estou isolada.

Preciso me libertar.

*Marcia Dantas se orgulha de ser professora de História e escritora, duas áreas que a completam, realizam, desafiam e a fazem militar constantemente. Paulista de coração, não se vê morando em outro lugar, embora precise de um férias da metrópole no momento. Lançou há pouco o seu primeiro livro, Reescrevendo Sonhos, além de estar em vários outros projetos literários. Marcia escreve quinzenalmente aos sábados.

[…]

por Elle*

Olha, meu bem.

“Dizem que os filhos mais velhos são os mais parecidos com os pais.”

Nota, quantas coisas têm pra mim.
Nota, quantas coisas têm pra ti.
Quantas coisas temos em comum.
Veja um pouco além das diferenças.

Sou você
Você sou eu
Somos um
e isso
É bom ou é ruim?

Atente-se no quanto nossos hábitos são semelhantes
quantas coisas você pode listar?

Teus cabelos
Teus olhos
Suas cores
Seus amores

Me vejo nos teus gostos
Nos teus sonhos
Nos meus jeitos
Tanto jeito igual
De falar
De brigar
De amar

Tudo de muito.
Das mãos inquietas
Dos gritos altos
Da fala afobada.

Quem vê cara não vê coração.
Tu és puro coração
Não se envenene
Me envenena.

Nem leve
Nem serena
Tão amargo
Tanta mágoa.
Mágoa, magoa.

A vida não é lagoa
É rio, é mar, é oceano.
Água parada
Dá dengue,
Chikungunya
Dá zika.

A vida é sempre em frente
Tá tudo no futuro
Tua vida não tá decidida
Nem aos 22
Nem aos 44
Tem muito mundo,
Tem muito, tem pra mim, tem pra ti

Percebe só que engraçado,
Essa gente engomada,
Que sabe tanto do saber,
Se acha conhecedor de tudo.

Já Sócrates, que dedicou a vida ao pensamento,
E depois de tanto pensar, concluiu,
“Só sei que nada sei”

Somos parcelas de infinitos saberes.
Tu sabes de brinquedos
Tu sabes de cuidados
Tu sabes de segurança
Tu sabes de criança

Sabe também de esperança,
Mesmo quando finge que ela acabou.
Não acabou.
Diminuiu, confesso

O medo é impresso na face
Mas quantas vezes você teve medo?
Se foram 10, você enfrentou 11.
Eu sei, por muitas eu estava ali.
Essa foi mais uma

Pois se foi
Pois passou
Incrível tempestade
Mas vai brilhar o sol

Eu me cobro
Me culpo
Me insulto
O suficiente

Preciso que me puxe
Preciso que me diga o quanto sou boa
Pois já me diminuo
E me acho pouca bosta.

Não ache que estou à toa
Indo pra onde o vento sopra
Tenho minha direção
Mas me falta combustível
Sou movida a paixão
E sei que tu também

Por hora
Só quero tua esperança
E tua confiança
Pois se confiar
Acreditaria
Apoiar
Consigo acreditar
E finalmente
Fazer-te se orgulhar

Quero a reciprocidade
Não quero só apoio
Também quero ser suporte
Tipo jogadas táticas
Jogadores em suas bases
Cada um em sua fase
E todos no objetivo
De um bem em comum.

_____

A vida chegou sem massagem.
Tudo que *Elle quer é embarcar em mais uma viagem.
Da cabeça desgraçada tenta tirar seu rumo.
Tem larica de arte.
Elle escreve quinzenalmente às quartas.

irrealidade

por Nicollas Conti*

(1952)

1. Branco

O que mais me deixava louco naquele lugar era o teto.

Branco! Sem marcas, sem vida, apenas BRANCO! Malditos, como me querem ver são em um lugar todo branco? Tomam-me como louco, me botam em uma camisa de força (branca), me dão uma gosma pastosa (dizem ser de comer), me dão pílulas para acalmar, mas mantêm a desgraça do teto em branco. A única coisa que lateja na minha mente é chutar e roer as paredes até elas descascarem e mostrarem algo para mim, algo que não seja branco.

Eles também me dizem que a guerra acabou. Por verem-me nesse estado, acham que eu acreditarei em qualquer coisa que digam. Eles gostam de afirmar que a democracia venceu; que o mal maior está agora enterrado em Berlim. Pois bem, eu sei a verdade. Eu sei. Estão matando meu povo, pouco a pouco. Os linguiceiros invadiram a França, tomaram tudo que é nosso, e querem sair impunes. Deus sabe que venceremos, nem que eu tenha que expelir do mundo um alemão de cada vez. Se eu pudesse sair do quarto branco.

É incômodo como tudo passou de um intenso vermelho-rubro para um lacerante branco-branco-branco. Eu estava lá. O front era pálido, nossas rações vinham pálidas, o uniforme era pálido, e ainda assim tudo pulsava o vermelho-rubro. Eram meus amigos, minhas vozes! Todos ecoando a liberdade que queriam, segurando armas em uma mão e a grande nação na outra. Como foi que vim parar aqui?

Da outra extremidade do cômodo, a porta se abre.

Por apenas um relance, consigo enxergar o lado de fora do quarto. Não era branco. Um desespero subiu pela minha espinha, tive uma ânsia incontrolável em perceber que eu continuaria naquele lugar, preso em minha camisa de força.

Me debati durante a eternidade na minha cama. O vulto que havia entrado pela porta me aguardou pacientemente sentado ao meu lado. Minhas forças cessaram, uma única lágrima surgiu no meu olho, começando como raiva, mas ao que escorria pela bochecha, virou depressão.

Olhei então para o lado e vi a jovem médica, vestindo você-já-sabe-a-cor, me observando, inexpressiva. Ao perceber meu olhar, ela sai de seus pensamentos e me dirige a palavra. Há em sua voz uma calma contida, cada palavra sendo pausadamente enfatizada. Sua postura corporal ereta mostra um grande autocontrole, mas senti que não era natural.

— Você me reconhece, senhor Valentin?

— Sim, você é a Putaelle, uma das desgraçadas que me colocou nesse quarto.

— Não.

Ela esperava por aquela resposta, mas isso não a fez ficar menos decepcionada.

— Eu sou Emmanuelle, senhor Valentin. Eu estou aqui para te ajudar.

Me ajudar, ela diz. Aquilo ecoa em meus ouvidos como um toque anti-mentiras sendo soado. É engraçado como seu tom até faz parecer ser verdade. Com dificuldade, me sento para ela. Sua cadeira é tão alta quanto os pés da cama, então a vejo cara a cara.

— Se você quer mesmo me ajudar, por favor, me tire daqui.

Falo a mesma frase há anos, quem sabe dessa vez ela sinta o que eu sinto?

— O senhor não faz ideia do quanto eu desejo que isso aconteça, mas tenho que ter um diagnóstico comprovando sua sanidade.

Sanidade!

— Por acaso não a vê em mim? Me vê roendo paredes? Ou chutando-as? Não quero que esse quarto seja a última coisa que verei na vida! Peço-te, doutora, me deixe livre!

Ela parece digerir minha última afirmação com a mesma calma que havia em sua voz. Olhou para baixo, como se pesasse cada palavra, mesmo eu descrevendo exatamente minhas vontades contidas. No fundo eu quase não a odiava, mas sabia que tinha de odiar, pois acompanhava meu sofrimento todos os dias e, ainda assim, me mantinha enclausurado no quarto. Ela via o que eu era: um ponto desesperadamente solto no meio do branco inerte.

Ela levantou o olhar e aquele autocontrole voltou à sua postura.

— Sua família, Valentin. Recorda-se deles? Se sair daqui, irá visitá-los?

Havia uma coisa que eu odiava quase tanto quanto o teto em branco: o modo como me faziam duvidar de minha memória. Ela faz-me crer que possuo uma família, pessoas vivas que aguardam meu retorno. Putaelle discorre para mim toda santa semana as mesmas informações, os mesmos discursos, e no começo repreendi cada mentira. Mas, depois de tanto tempo… Será que eu me esqueci de algo? Não pode ser. Era algo incogitável, não se esquece da família. Minha mulher morreu na invasão, com os alemães. Lembro-me da cena, foi a primeira vermelho-rubro da minha guerra. Nunca tivemos filhos. Uma coisa era bem certa, eu precisava entrar no jogo dela se eu quisesse sair de lá.

— Me recordo deles.

— Então irá visitá-los? Irá abraçar sua filha? Irá deixar a guerra para trás?

Tantas perguntas descabidas; nenhum soldado, vivo ou morto, deixa a guerra para trás.

— Irei. Abraçá-la-ei como jamais fiz, e seguirei te agradecendo pelo resto da minha vida. E mais, não voltarei à guerra. Palavra de um herói da nação.

Abro um sorriso tão falso quanto qualquer palavra que saiu da minha boca. E ela? Só podia ser o demônio, percebera minha farsa na mesma hora. Dava para ver no modo como me olhava, cética da unha ao cabelo. Mas não terminou, fez-me uma última pergunta, olhando em meus olhos, uma pergunta que jamais poderia responder corretamente.

— Qual o nome dessa filha, senhor Valentin?

Odeio-te, Putaelle.

— Marie?

Com a resposta, ela se levanta da cadeira, arrastando os pés metálicos contra o chão. O olhar, baixo, permaneceu assim mesmo depois de se virar para ir embora. Ela era minha esperança, desgraça, minha única conexão com o mundo não-branco. Gritei enquanto avançava para cima dela, desejando ter algo para falar, algo que a convencesse de que eu não era louco, apenas uma peça de quebra-cabeça longe da caixa. Nesse intuito, meus pés amarrados traíram meu movimento, e eu desabei ao chão. Subi a cabeça para vê-la, aguardando a porta ser destrancada pelo lado de fora.

— Eu não tenho filha, Putaelle, sua desgraçada! Nunca tive uma! Nenhum nome iria te satisfazer, não é? Sou um prisioneiro de guerra aqui, esperando pelo abate, enquanto vocês se divertem com meu desespero, não é mesmo!? Não é? OLHE PRA MIM!

Seu olhar permanece baixo, e tenho a impressão que ela não me ouve mais. Tantas ânsias passam por mim, um sentimento de impotência que apenas os que caem na hora errada podem desfrutar. Não há como sair. Nunca houve.

— Por que vocês mentem sobre a guerra? Eu ouço toda a porra de noite os gritos lá fora, os choros incontidos, as explosões!

Putaelle abre a porta.

— Por que não me mata, então? Livra-me da guerra! Pare de me visitar todos os dias se for acompanhar meu sofrimento!

Putaelle dá seus passos.

— Pelo amor de Deus, PINTE AS PAREDES! Emmanuelle!

A porta se fecha, sem que Putaelle tenha olhado para trás.

O silêncio preenche o cômodo. Quando Putaelle não estava, parecia que eu me encontrava no limbo, imóvel, aguardando os sons da guerra recomeçarem. Parecia viver em um transe, uma meia-vida onde nada mais acontecia. Apenas ela me visitava, durante todos esses anos. Nenhum outro doutor, nenhuma outra pessoa. Eu a odiava, mas por conta dela eu ainda me encontrava são. Ou seria o contrário?

Fora isso, era somente eu e o teto branco. O maldito branco.

Como foi que vim parar aqui?

2. Vermelho-rubro

Emmanuelle abaixou a cabeça para que o paciente não olhasse as lágrimas. Deve ter escondido bem, pois as primeiras só caíram no jaleco do doutor, que aguardava do lado de fora. Ela o apertou com força, desejando que o estado daquele que se encontrava no quarto fosse diferente.

— Ele não se lembra, doutor! Não se lembra!

Entre choros e balbucias, Emmanuelle foi dizendo tudo que havia ouvido do paciente. Para ele, ainda estavam em guerra. Para ele, não existia nada além do front, nem a família. Era como se estivesse preso no tempo. Há mais de sete anos.

A jovem sai dos braços consoladores do psiquiatra e se desculpa pelas emoções incontidas.

— Como foi a experiência, Emmanuelle? Ele está melhor?

— Está piorando, doutor. Vestir-me de médica também não acrescentou em nada para isso. Ele agora acha que eu o visito todos os dias, como que para sedá-lo ou dar-lhe pílulas, seja lá do que esteja falando.

O doutor libera um suspiro. Emmanuelle deduz ser de desapontamento com o paciente, senhor Valentin, e sua aparente regressão.

— Isso só me faz perceber que não posso abandoná-lo agora, doutor, no momento que ele mais precisa de mim.

— Emmanuelle… — o psiquiatra já havia sugerido isso sutilmente para a jovem garota, mas agora tomou coragem e reforçou — O senhor Valentin precisa ir, você precisa deixá-lo ir. Não há nada que possam…

— O que está sugerindo, doutor? Matá-lo a sangue frio? É assim que trata seus pacientes? Eu não acredito que me sugere livrar-me da minha própria família! Pois ouça bem, não deixarei vocês tirarem-no desse quarto! Me ouve? Não deixarei!

Emmanuelle afasta-se do quarto de número 10, onde se encontrava Senhor Valentin. Ela segue o corredor até virar à esquerda, em direção à recepção, fazendo o doutor perdê-la de vista. A jovem pede suas roupas e utiliza um quartinho para se trocar. Retira do corpo a vestimenta de médica com certa repugnância. Conselho oferecido pelo doutor, de se fantasiar para testar o reconhecimento do paciente.

Meu pai não precisa de fantasias, mais mentiras para alimentar sua loucura. Ele precisa da filha. Talvez o leve para alguma outra psiquiatria.

Pensou sem convicção, sabendo da decadência de clínicas como essa. Colocou com cuidado seu vestido vermelho-rubro, presente do seu pai. Amava aquele vestido. Tratou de tocá-lo contra seu corpo, sentindo a suavidade e maciez que sempre possuiu. Antes de sair, pensou nos momentos com o pai em seu quarto. Deus sabe que ela procurou manter a calma o máximo possível enquanto olhava seu sofrimento. O que ela esperava, já fazia um bom tempo, era ouvir o quanto ele a amava, o quanto a queria por perto. Hoje ela possuía 21, mas foi com 10 que viu seu pai indo à guerra, para depois voltar sem que se lembrasse de outra coisa que não o front de batalha. Não teve tanto tempo para sentir o que era um pai ao lado, fora sofrendo em silêncio esperando por seu retorno, dia após dia.

Em um súbito pensamento, lhe veio a clareza de que as pílulas que seu pai tomava estivessem deteriorando sua mente. É isso! O doutor, cansado de investir tempo e dinheiro num louco, está piorando sua saúde mental, para poder finalizá-lo sob algum argumento incontestável. Para isso, tinha que convencer a filha do louco. Mas agora estava claro, isso nunca aconteceria. Nunca. Seu pai não sairia do quarto, e nem doutor nem ninguém o tiraria de lá, sem antes ela o ajudar com sua lucidez. Amanhã seria um bom dia para ela se livrar do psiquiatra, para sempre.

Emmanuelle saiu do quarto, a mente determinada em sua certeza. Do lado de fora, uma assistente aguardava para conduzi-la para o quarto 9. Não houve oposição. A jovem chegou ao quarto e desabou na cama. De tão cansada, dormiu sem tirar seu vestido vermelho-rubro, que usava há mais ou menos sete anos.

3. Pálido

O trabalho de um psiquiatra é delicado. Precisa-se analisar cada comportamento, cada amostra do que seu paciente oferece a você. De maneira meticulosa, deve-se interpretar a loucura que se tem disponível. Você mesmo torna-se louco, para assim solucionar o quebra-cabeça mental que esconde a sanidade.

O doutor enxergava diversas simbologias no que era oferecido a ele. A começar pelo quarto. Foi até lá, destrancou-o e escancarou a porta antes de acender a luz. Como era de se esperar, o quarto estava vazio, abandonado em sua palidez. Fazia muitos anos que nenhum paciente era direcionado ao quarto 10, vítima da decadência que hospitais psiquiátricos começaram a ter no pós-guerra. Como resultado, o doutor via, parado na entrada do cômodo, um local empoeirado, coberto em teias de aranha e pedaços de parede descascada. Após espirrar duas vezes, o doutor trancou-o novamente.

Foi até sua mesa, retirou novamente da pasta uma ficha que continha os dados de um dos pacientes. Era assustador como ele podia se apaixonar por uma pessoa fora de si. Mas aconteceu. Ele a amava, na mesma proporção que ela delirava. Na ficha, lia-se seu nome: Emmanuelle. Patologia: distúrbio esquizofrênico.

Algumas conclusões incertas rondavam o estudo que o doutor fazia em cima da amada. Mesmo sabendo que seu pai morrera na guerra, era preciso suprir 11 anos de ausência do dito cujo, então interná-lo no mesmo lugar em que se estava internado parecia ser uma maneira razoável de visitar o familiar. Segundo as contas, faltavam mais 4 anos de visitas ao quarto branco. Por falar em branco, seria a cor que o quarto tomou por remeter aos céus, local onde a mente de Emmanuelle recusa-se a enviar o pai?

Ela é linda. E sincera em sua loucura, disso o doutor não tinha a menor dúvida. Talvez amanhã fosse um bom dia para ele confessar a ela o que sentia. Poderia ser lá mesmo, dentro do quarto coberto em sua palidez.

_____

*Nicollas Conti é rico, bem-sucedido, feliz e acima de tudo, mentiroso. Mas acha que essa é a principal característica de um poeta. Ensina desenvolvimento pessoal para as pessoas, e é quem mais aprende com isso. Tem uma insaciável curiosidade acerca do universo, tanto o de fora quanto o de dentro. Gosta de filhotes de morcego e açaí na tigela. Nicollas escreve toda segunda-feira.

[…]

por Gabriel Fogal*

O inverno chega
Todo final de semana
Contando histórias
Sobre sentimentos quebrados
Os quais eu não consigo
Compreender a poesia

Você deveria me mostrar
O caminho da madrugada
Turva como nossas visões
Depois do consumo
De especiarias e fermentados
Duvidosos e inadequados

Com seus olhares e lábios
Dos anos oitenta
Você conquistou espaço
Em todos meus pensamentos

Já é inverno no sábado
E de manhã, o gosto do seu amor
Fica entre os dentes
Quando você sai do meu lado

_____

*Gabriel Fogal não sabe bem o que escrever aqui. Fez xixi na cama até o dia 17 de maio de 1997. Tenta ser escritor quando toma açaí ou cerveja e estuda psicologia de madrugada. Gostaria de viajar a América Latina de fusca e já foi pirata. Fogal escreve quinzenalmente às sextas.

do amor que existe sem acontecer para não diluir-se

por David Plassa*

Estou tentando dizer que o sol teria outro sentido para mim se estivéssemos juntos. Não seria frustrante vê-lo nascer e nem vazio vê-lo se pôr. Porque certamente, numa manhã de precoce e imprevisto despertar, tuas formas luminescentes sobre a cama partilhada, sob feixes febris atirados janela adentro, torná-lo-ia minha lanterna para lidar com teu profundo e teu. O sol como álibi impreciso do sequestro que planejo para ti nestas linhas, alheias à lacuna tempo-espacial que sobrepõe-se ao meu e talvez teu desejo. Estou tentando dizer que queria estar junto de ti. Por isso as conversas apenas visualizadas e as chamadas sem roteiro em meio a madrugada. “Como vai você?”, como flecha lançada para além das falanges que engordam o contingente para forçar-me acreditar que nunca seremos nós.

(Quero falar de um amor que só acontece nas suposições da narrativa, que de outro modo não seria possível devido ao individualismo e a crueza de um possível convívio entre os amantes. Então o narrador aprisiona o ideal de relacionamento dele nos termos que escolhe para satisfazer-se, assumindo que sempre manipulou as situações para possuir o que achava dele por direito. Até desistir de querer estar junto porque, sendo assim, perderia a única história de amor que lhe foi possível. Acho que é isso.)

Gostaria de dividir o mesmo apartamento e os mesmos remédios. Nossa dor é a mesma de acordo com o meu diagnóstico. Revezando-nos na tarefa de fazer o jantar até preferirmos o lanche da esquina, até preferirmos fazer as compras sozinho e trancar a porta durante o banho. Em um dia de maior inspiração te levaria um chocolate para materializar meu desespero ao não te encontrar mais como antigamente. Apaixonado pelo passado que resguarda o verbo dividir no vocabulário do nosso relacionamento.

Sequestrar é uma palavra deslocada quando você despir-me da minha fantasia. Em diversos momentos, desde que nos conhecemos naquele self-service: meu primeiro dia no emprego, com o melhor corte de camisa para ombros largos e costelas aparentes. Não apenas costelas; todo o meu tornava-se relevo diante da carga dos teus olhos. Em determinado momento acreditei estar com o rosto de ponta-cabeça, me dirigindo a você com cambalhotas ao invés de palavras. Por isso, tudo o que falei e a maneira equilibrista com a qual delineei meu caminho até os que nos rodeavam, foram encenações circenses, as quais não quero nunca contemplar.

Ah, como fui covardemente egoísta acreditando que você posava para meus retalhos de memórias caramelizadas. Teu corpo de perfil inclinado diante da tela de um computador, uma pequena mão convulsiva a clicar. Queria tanto saber o que lhe era de interesse! A franja que não descansava em cobrir-lhe as maçãs do rosto. Eu recortava esses momentos e guardava-os junto ao maço de cigarro escondido embaixo dos livros que carrego na mochila. Para mostrar a mim mesmo quando retornava para casa, o quanto me falta para ser maior do que o meu vazio. Em pé no vagão, sentindo o sono coagular em cada movimento corpóreo, invocando nossas conversas de horas atrás, contidas pela banalidade e infinitas pela tensão.

(Haviam assentos vazios.)

Revisitava essa imobilidade destacável, artigo raro para meu acervo, exposta no verso dos meus olhos sem tua prévia autorização ou participação de lucros inconscientes. Fazia-te minha antes de perguntar e sem ter ideia do quanto a concretude disso nos destruiria. Embebidos na fria conjectura de creditarmos à distância forçosa, nossa falta de felicidade no departamento ter-dar-receber. Ainda que no íntimo soubéssemos que no menor desequilíbrio entre estes termos rasurar-no-íamos. Não importa.

Como esfarelar a realidade aqui para que você entenda o quanto é bom ter você por perto?

Lembra-te nossa a noite que dura até a próxima palavra: colapso? Teu corpo no escuro contra o meu. Nenhum movimento adivinhado. Apenas. Até o estremecimento. Teu corpo no escuro contra o meu.

(Quem era você?)

Sintonia em que nenhum conhecido é capaz de entender-me. Talvez nem você e seja o caso de acariciar apenas aquela noite em si. Mas permite-me dizer que encontrei ali um lugar para a gente e tão meu que tento justificar picando-lhe palavras. Como o menino que não sabe escrever, mas faz poesia para a amada. Afinal, não reside nessas pretensões a nossa solidão? A minha, certamente.

Pois minhas mentiras não te convencem e eu sei. É por isso que não vamos ser. Eu não me iludo com o  real. Desfaço aqui algo para que eu tenha escombros no futuro, nos quais vou ler e salivar sobre essa história [de “amor”, por me faltar palavra que eu tenha maior receio].

Porque foi depois de ti que quis romper com tudo o que até ali me fora entregue. Uma vida adulta e cordial entre paredes brancas com quadros a pendurar. O crachá de cordão frouxo para eu não me enforcar. Obviamente porque testei-o na barra do coletivo que me levava ao trabalho, no primeiro dia em que não te veria no escritório após a demissão. Eu sorri quando os passageiros se afastaram. Eu sorri quando o motorista ameaçava chamar a polícia. Fui expulso ao acender o cigarro onde buscava as cinzas da lembrança dos teus lábios. E desembarquei como o mal exemplo de cidadão desequilibrado que permite-se banhar no caldo de tudo que não é tão relevante quanto bater o ponto a tempo.

Pois a história que acredito ter vivido contigo não poderia estar mais nítida, ainda que na escuridão das palavras aqui escolhidas. São remendos e solavancos de um comum existente apenas na eternidade das especulações. Ao acordar, ainda confundo minha respiração com a tua, teu corpo, com o que está ao lado, minhas convulsões, com o desejo de estar junto a ti.

Não me procure, caso tenha conhecimento dessa loucura, pois é o que mais desejo. Deixei de tomar os remédios para voltar a visitá-la onde um dia existimos e isso me basta. Quantos no mundo souberam o que é ter uma parte do outro escondida sob a vida que nos atravessa?

Vivi o que inutilmente chamam de “amor” e não quero sacrificá-lo para além destas linhas. Não te dou escolha ao fazer-te musa. E para mim está tudo bem.

Na ávida tentativa de satisfazer-me com a vontade de tê-la junto a mim.

(Em meu despir solitário ao lembrar-me de ti.)

_____

*David Plassa saiu em um Fusca verde da maternidade em 1987 e se emociona com dinossauros. Já foi motorista, segurança, vendedor de chocolates, barista, auxiliar de biólogo, livreiro e, quando há estabilidade econômica, jornalista. Premiado ou selecionado para coletâneas de alguns concursos literários, mais ou menos tenta publicar um livro de poesias. David escreve toda quinta-feira.

 

[…]

por Izabela Souza*

Sinto nada.

Nem um arranhão.

Ainda que eu tente sentir mais que o vazio, que as preocupações e perspectivas além da ansiedade, sinto nada.

Lamentarei sempre meu não sentir.

Todos vêem em mim e esperam de mim coisas que não estou certa de que posso oferecer, uma vez que não sinto que sou quem acham que eu seja.

Eu não sinto que sou ruim, nem boa.

Não me sinto errada, nem certa.

E se pudesse sentir, certamente seria a hipocrisia que me preencheria, inata ao ser humano.

Eu estaria feliz em senti-la.

Em sentir-me.

Humana, no significado da palavra.

_____

*Izabela Souza tem formação em Letras e Jornalismo, mas nem liga pra isso. O negócio mesmo é comer “paçoquita”, causar e ser uma agente de transformações sociais por aí. Não há nada que não possamos fazer, certo? Iza escreve quinzenalmente às quartas.